25 de julho de 2016

Bem Te Vi



Estimulante viagem a Minas Gerais, Brasil.

Falar de Direitos Humanos e de Direitos de Autor em Belo Horizonte.

Beber caldo de cana no Mercado Central.

Saber que o conjunto da Pampulha, projectado por Óscar Niemeyer, tornou-se património cultural da humanidade, no dia em que o visitamos.

Comemorar mesmo ali ao lado, no Xapuri, templo da comida mineira.

Visitar com emoção o maior centro de arte ao ar livre da América Latina, Inhotim.

Conversar sobre Arte, Cultura e Cidadania na histórica Ouro Preto.

Comer um criativo Pastel de Belém no fantástico Bené da Flauta, bem junto à barroca Igreja de São Francisco de Assis.

Passear por Lavras Novas, parte da Estrada Real que conduzia o Rei do Rio de Janeiro a Ouro Preto e antigo quilombo.

Acordar ao som do delicioso canto do Bem Te Vi.

Sentir que a vida tem estímulos que nos regeneram.


24 de janeiro de 2016

Paixão



A vida é paixão. É o que nos move. É o motor, mesmo quando tudo parece estar contra. E faz milagres. Gosto de chamar paixão, mas podia dizer simplesmente entusiasmo, motivação, ou "pica", ou tesão. No fundo, o que gostamos na vida, o que nos move, nos faz superar obstáculos, superar-nos a nós mesmos, querer aprender, conhecer, renascer, gostar de viver.

"Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão, isso deve-se a que elas dão mais força para executar." dizia Shakespeare.

A paixão pode ser amor, pode tornar-se amor. O que é perfeito. Ideal. Maravilhoso. Quase utópico... Mas paixão pode nunca chegar a ser amor. Não é dessa combinação perfeita que, necessariamente, falo. Como não falo daquele amor especial, único, diferente de todos, como o amor por um filho em que se torna difícil dizer se há paixão, ou se é qualquer outra palavra que não sabemos escolher.

A paixão muda a nossa vida. Paixão por um trabalho, por um projecto, por um acontecimento, por querer saber mais e mais. Paixão por uma mulher, por um homem, pelo que não conhecemos, pelo desconhecido, pelo que não conseguimos explicar, pela busca de um sentido para a vida, de uma resposta, de equilíbrio.

A paixão muda os nossos próprios tempos. Umas vezes faz-nos querer superar etapas, concretizar, ver o resultado, chegar rapidamente ao que desejamos, atravessar oceanos, saber o fim do filme, outras, ao invés, dá-nos vontade de querer perder tempo, não ter pressa, não querer errar, não querer que acabe, fazer perdurar o mais possível, perpetuar o prazer. Até ao limite.

A paixão vem quando menos se espera, de onde quer vir. Podemos tentar antecipar, prever, desejar, mas não o conseguimos verdadeiramente.

A paixão e a verdade têm de coincidir. Nem sempre é assim. Mas tem de ser. Aprendemos isso com a vida. Somos como somos. E mais vale assumirmos como somos e dizermos o que somos, com as palavras que temos, do que morrermos querendo ser o que não somos, sempre à espera de mostrar que somos diferentes do que somos. Talvez por isso, é enquanto estamos vivos que temos de dizer o que nos vai na alma, de ser frontais, corajosos, verdadeiros, coerentes. De dizer quando amamos. E quando não amamos. E de vivermos com paixão.

A paixão não é um sonho. É quando estamos mais conscientes, acordados, despertos, focados, que a paixão é verdadeiramente paixão e é mais misteriosa, envolvente, surpreendente, excitante, motivante.

A paixão às vezes cega. Não nos faz ver a realidade completa. As nuances. As subtilezas onde tantas vezes tudo se decide. Aconselha por isso o bom senso e a experiência de vida que as grandes decisões não devam ser tomadas quando a paixão nos impulsiona. São mais seguras, mais ponderadas, mais amadurecidas. Não sou nesse ponto Shakespeariano.

E essa talvez seja a maior contradição da paixão. Uma miopia que, por um lado, nos faz ver além do normal, mas que por outro, desfoca e não nos permite ver com nitidez.

Apesar de tudo, apesar da força e do magnetismo da paixão, prefiro decidir sem paixão. Sobretudo, quando outras vidas, algumas umbilicais, com as quais não conseguimos viver sem, dependem dessa decisão. Quando o futuro de outros, pode estar nas nossas mãos. O que é terrível e de uma imensa responsabilidade. Nesses casos, é muito, muito, difícil decidir.

2016 vai ser um ano de muitas e importantes decisões. Algumas decorrentes da vida, do trabalho, do dia a dia, outras surpreendentes e inesperadas até há semanas. Que preferíamos não ter que tomar. Mas que têm de ser tomadas. Por razões de dignidade, respeito, verdade. O grande desafio será decidir ponderada e justamente. Mas decidir, não apaixonadamente, mas com a paixão por perto. Decidir com equilíbrio, com justiça e com ... amor.

Porque a vida é paixão, entusiasmo, motivação. Mas também compaixão, ponderação, equilíbrio.

26 de julho de 2015

A partir de outubro, todos os dias!


"With one look you will know.
All you need to know." 

(In Sunset Boulevard, de Andrew L. Webber, Don Black e Christopher Hampton)


Estamos a 9 semanas das eleições legislativas e não há debate sobre cultura. 
Não se conhecem propostas. Nas recentes entrevistas aos candidatos a futuro primeiro ministro nem uma palavra. Não se sente curiosidade. As prioridades são outras, bem diferentes. Mediáticas, inflamadas, cansativas, requentadas, pouco consistentes. 
Há apenas uma ténue sensação que tudo será diferente se a Cultura recuperar o seu estatuto de ministério.
É pouco. 
Basta lembrar que o orçamento do Ministério da Cultura em 2011 foi de 215,5 milhões de euros, enquanto o orçamento de 2015 destinou para o Secretario de Estado da Cultura 219,2 milhões de euros.
O estatuto é importante, mas não decisivo. Mais importante que o estatuto é a necessidade de criar dinâmicas diferentes, inovadoras, potenciadoras e mobilizadoras que restaurem a confiança e o interesse pela cultura.
A ausência de debate na sociedade e de consciência da importância da cultura como motor de desenvolvimento, gerador de emprego e alavanca de crescimento económico, custa a aceitar.

O debate a que não assistimos deveria (poderia) centrar-se em saber em que medida é possível 
estimular a vida cultural de um país tão bem servido de auditórios, de museus, de arquivos distritais, de bibliotecas, de equipamentos culturais, mas que apesar disso tudo, desanimou e se afastou da cultura.
Apesar de muitas coisas positivas, na última década, a vida cultural portuguesa esmoreceu. 
O Eurobarómetro 2013 sobre “acesso e participação cultural” revela três conclusões interessantes: 
Apesar das diferenças entre Estados-Membros, verifica-se um declínio generalizado no acesso e na participação em atividades culturais na UE-27; 
A internet constitui o instrumento mais frequentemente utilizado no espaço europeu para acesso a informação cultural, compra de produtos culturais e leitura de artigos culturais; 
Os níveis de acesso e participação culturais em Portugal são muito baixos comparativamente com o resto da Europa.
A análise das razões explicativas para estes dados indica que não é o fator “custo” dos bens, produtos e serviços culturais o mais frequentemente invocado, sendo superado, sobretudo em Portugal, pelas referências à “falta de interesse” e à “falta de tempo” – situação que evidencia desafios importantes, de natureza transversal, às políticas públicas nacionais e internacionais e que constitui um bom ponto de partida para o debate.

A pergunta: Como mudar este paradigma? O que fazer para restaurar a confiança? 
A resposta: Consagrar a cultura, verdadeiramente, como fonte geradora de emprego e de receita.

Assim como nos últimos anos se reinventou e relançou, com inegável mérito e sucesso, a agricultura, como fator atraente de desenvolvimento, o desígnio dos próximos anos deve passar pela cultura, potenciando ao máximo a interação entre esta e a educação, o turismo e a economia sem com isso subjugar os valores e as liberdades consagrados pelas atividades culturais e artísticas a qualquer princípio mercantilista.
Redinamizando segmentos importantes como o Plano Nacional de Leitura; valorizando a língua portuguesa como plataforma colaborativa de projeção externa do setor cultural e criativo de Portugal; recriando o apoio às artes e ao cinema, chamando os municípios plenos de conhecimentos multidisciplinares e novos interlocutores, novos atores, articulando vontades, apostando verdadeiramente nas vantagens cada vez maiores do mecenato; criando fóruns de diálogo e de reflexão entre protagonistas de modo a desenhar novas formas de cooperação na partilha de competências na abordagem aos mercados internacionais; desenvolvendo parcerias fora do setor cultural e criativo; consolidando alianças para capacitar e fortalecer estratégias de internacionalização dos agentes culturais e criativos.
E, claro, potencializando as atividades culturais e artísticas e o imenso património secular através de uma forte estratégia de aproveitamento dos fundos comunitários. 

Segundo o estudo “Fundos Estruturais e Cultura no Período 2000-2020” (promovido recentemente pela Secretaria de Estado da Cultura/Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Cultural e pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, da Universidade de Lisboa), as atividades, iniciativas e investimentos artísticos e culturais beneficiaram de financiamentos através da generalidade dos Programas Operacionais do QREN 2007-2013, num valor superior a 150 milhões de euros. Mas os programas de iniciativa e gestão comunitária especificamente dirigidos aos agentes e às atividades artísticas e culturais, corporizados entre 2007 e 2013 pelos Programas CULTURA e MEDIA, evidenciaram uma muito reduzida expressão nos financiamentos atribuídos a projetos portugueses – cerca de 1,7 milhões de euros.

Mas talvez mais importante que tudo, urgente é que se fale de cultura, de políticas culturais, que se restaure o debate, o confronto de posições, o interesse. Há razões para acreditar.
Portugal está entre os 15 países do mundo que mais gera receitas com o turismo. Só os monumentos, museus e palácios sob a alçada da Direção-Geral do Património Cultural são visitados por mais de dois milhões de turistas estrangeiros anualmente. Por isso, na sinergia com o turismo há que pensar em diferenciar destinos turísticos, oferecendo experiências únicas a nichos de mercado com maior poder aquisitivo, e há que potenciar a inovação nos produtos turísticos, através de uma maior coordenação dos intervenientes turísticos e da utilização das tecnologias de informação e comunicação.

Por tudo isto, a atitude perante a cultura, o seu papel na sociedade e na economia tem de ser diferente. Só assim se restaurará a confiança, o interesse, a procura e se colocará a cultura no seu devido lugar no centro do debate.
O desafio é, pois, o de restaurar rapidamente a confiança, combatendo lobbies instalados e não assumidos, reinventando estratégias e criando condições para que a cultura e a criatividade sejam chamadas a contribuir e a protagonizar o processo de reforço da internacionalização e da competitividade do nosso país, quer pelo reforço da internacionalização do setor cultural e criativo, quer pelo reforço da internacionalização da economia portuguesa através da inovação e da diferenciação. 
E para esse desafio, vamos com aquilo que temos e que somos. Com a nossa cultura, com a nossa história, com a nossa tendência para ligar ao acessório em vez de nós focarmos no importante, com o nosso conhecimento, com a nossa criatividade.

É isso que importa fazer. Já. E a partir de outubro, todos os dias!

3 de outubro de 2014

À procura da Liberdade


Nas últimas décadas, os conceitos de liberdade e justiça voltaram a marcar os debates políticos contemporâneos como ideias centrais na construção das atuais sociedades. Dos vários intelectuais que têm participado nessa discussão, Amartya Sen, nascido na Índia, em 1933, é dos mais estimulantes. Infelizmente, não vai estar no CCB, hoje e amanhã, no encontro promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, apesar do excelente leque de convidados.

Crescimento económico, escolha racional, escolha social, economia do bem-estar, pobreza e desigualdade, desenvolvimento económico, capacitações, são conceitos essenciais do pensamento de Amartya Sen. Sem esquecer o “Índice de Desenvolvimento Humano” do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que foi fortemente baseado nas suas ideias.

A originalidade do seu pensamento traduz-se na tentativa de enfatizar não uma, mas todas as componentes sociais e políticas do desenvolvimento, propondo uma análise integrada das esferas económica, social e política, uma abordagem mais ampla do que a centrada no mero crescimento dos PIB e do rendimento. Um dos elementos centrais do seu pensamento é o valor absoluto da democracia na definição de desenvolvimento, entendido como um processo de expansão das liberdades políticas, facilidades económicas, oportunidades sociais, garantia de transparência, de segurança e proteção.

Para Sen, sendo o bem-estar social resultado do bem-estar individual, a ineficiência do mercado (enquanto mecanismo de resolução dos problemas sociais) reside no facto de ele operar num mundo de mutiplas instituições que precisam todas elas de democracia, de uma estrutura legal justa, de oportunidades sociais e equitativas de educação, saúde. Daí a necessidade da busca de um equilíbrio entre forças de mercado e instituições sociais através da ação política e social (políticas públicas), sem asfixiar a livre iniciativa do mercado.

Em 1999, no livro “Desenvolvimento como Liberdade”, Sen defende precisamente essa análise integrada das esferas económica, social e política para uma conceção de desenvolvimento como processo de expansão das liberdades individuais, em que a base dessas liberdades centra-se no conceito de capacidades.

No mundo moderno, velhos problemas como a fome e toda uma série de privações (incluindo das liberdades fundamentais dos indivíduos, nomeadamente das mulheres) encontram-se lado a lado com os novos problemas resultantes das alterações económicas e sociais vividas diferentemente por países ricos e pobres. Assim, apesar da generalização do regime democrático e participativo, como modelo de organização política dominante nos dias de hoje; de a questão dos direitos humanos constar das agendas dos mais diversos atores sociais; das facilidades de comunicação e do aumento da esperança de vida; muitos são ainda os problemas que os processos de desenvolvimento enfrentam e que terão de resolver – o que, na sua perspetiva, passa pela eliminação das privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercerem a sua condição de agentes.

Para combater os problemas que enfrentamos, temos de considerar a liberdade individual um compromisso social, como forma de ampliar oportunidades sociais, políticas e económicas que permitam alcançar tal objetivo. Neste sentido, a expansão da liberdade é vista como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento.

23 de setembro de 2014

Há coisas que não mudam.



As "Expos" acontecem, desde 1851, de 5 em 5 anos numa cidade do mundo, constituindo, depois do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olimpicos, o terceiro maior evento mediático à escala planetária.

A próxima Exposição (expo2015) é em Milão e o tema é muito actual e abrangente: "Nutrir o planeta, energia para a vida" e inclui tudo o que diz respeito a alimentação, do problema da falta de alimentos em algumas zonas do mundo à educação alimentar, até os temas ligados aos alimentos geneticamente modificados.

Serão apresentadas tecnologias, inovações, culturas e tradições ligadas ao setor da alimentação e, claro, muita culinária.

Naturalmente, a atenção à sustentabilidade e às energias renováveis vai marcar a arquitectura dos pavilhões, muitos já em construção.

Milão espera mais de 20 milhões de visitantes e centenas de países. Angola, Moçambique, Brasil, Espanha e mais de 100 países já confirmaram, a um ano de antecedência, a sua presença e já estão no terreno.

Por cá nada. Não há ecos da escolha do sub tema, da equipa, se há ou não há mesmo pavilhão, dos objetivos, da recolha de apoios e parceiros. Nada.

Surpreendente? Talvez não.

Infelizmente, parece ser o mesmo de sempre. Deixar para a última da hora e depois esperar que a nossa capacidade de improvisação, o desenrascanço habitual, resolva a situação. Planeamento? Não...

Realmente, há coisas que não mudam.


16 de setembro de 2014

Desilusão


O Verão foi agitado pelos debates no PS para “candidato a Primeiro-ministro”. Milhões de pessoas assistiram. Milhares inscreveram-se para poderem participar. Dezenas comentaram. Sinal de esperança, de curiosidade, de vontade. A abertura a não militantes é indiscutivelmente aliciante e demonstrativa de aparente vitalidade.

Infelizmente, os debates confirmaram a sensação que se tinha nos últimos meses e revelaram enorme fragilidade. Se sentimos que as opções políticas podem ser diferentes, se sentimos que tem de haver alternativas de escolha - elemento essencial para a vitalidade de uma democracia - a verdade é que olhamos em volta e não vemos razões para sorrir: poucas ou nenhumas novidades programáticas, inconsistência das poucas propostas apresentadas, uma desajustada postura dos dois candidatos - um com “pose de estado”, o outro a “fazer-se de morto” - os mesmos protagonistas a apoiar, os mesmos comentadores a realçar mais a forma do que o conteúdo.

Um dos candidatos defendendo como razão para se candidatar, a atual direção não ter sido capaz de impor um projeto alternativo e por isso ter de existir uma mudança de rumo e não apenas meia dúzia de novas propostas, embora acrescentando não ser possível apresentar propostas muito concretas, porque ainda falta um ano até às legislativas e muita coisa pode acontecer... O outro, dizendo que é preciso “acabar com os sacrifícios” e com “a austeridade”, mas que é essencial pôr as contas do Estado em ordem, porque o Governo não o conseguiu, e defendendo por isso um programa de mudança, um “programa de reindustrialização”... mas sem sacrificios.

Em suma, tudo parecendo ficar reduzido a meia dúzia de chavões e à "personalidade" do candidato. Cultura, capacidade de argumentação, de reação à provocação, experiência de vida, empatia, gostos pessoais, naturalidade. Ausente parece estar a visão para o país.

Fica-se com a sensação que os dois ainda não perceberam que o mundo mudou e que as propostas de há meia dúzia de anos, o discurso mais do mesmo, não cabe no mundo atual. E enfrentar essa nova realidade com propostas redondas, gastas, assentes no estilo, na forma, na personalidade, constitui uma enorme desilusão e um imenso vazio.

Hoje, a competição nos bens e serviços é imensuravelmente maior do que era há meia dúzia de anos, quer pela entrada de novos competidores menos exigentes em qualificações, quer pela ascensão das economias emergentes. A competição mundial pelos talentos e qualificações resultantes da necessidade das economias mais desenvolvidas prosseguirem o desenvolvimento da sua base de conhecimentos científicos é muito diferente de há meia dúzia de anos. Já para não falar, na alteração prolongada dos mercados energéticos, que traduzindo-se na elevação dos preços, provocou o aumento da fatura energética de países como Portugal, em que as energias renováveis prosseguem um caminho lento, afetando ainda mais a sua deficiente competitividade.

Esta realidade - e seguramente muitos outros fatores - tem feito adiar a entrada da nossa economia no padrão da efetiva modernização competitiva, como já tinha acontecido com o programa de ajustamento do seu modelo de desenvolvimento aquando da integração na União Europeia (então designada como Comunidade Económica Europeia), não aproveitando as oportunidades oferecidas pelos recursos transferidos como fundos comunitários e o alargamento do mercado de referência dentro das condições da liberdade de circulação.

E como consequência - entre muitas outras, uma preocupante - tem-se verificado a fuga acelerada dos recursos com mais valor, formados em Portugal, bem como uma crescente procura de serviços de ensino superior junto de instituições localizadas fora do País.

A economia portuguesa está pois a experimentar nos últimos anos um processo de ajustamento estrutural à dinâmica da chegada ao mercado global de milhões de novos trabalhadores das economias emergentes e não pode contar no médio prazo com uma elevação rápida da qualificação da sua mão-de-obra que lhe permita de forma generalizada evoluir para atividades em que o confronto direto com estas economias é mais circunscrito, como aconteceu com a Irlanda. E por isso o processo tem sido lento, muito lento. As expectativas são grandes, mas depois os resultados ficam áquém. Não se concretizam muitas das mudanças estruturais há muito identificadas.

A explicação para este atraso na "modernização" talvez não deva ser imputada apenas a específicos protagonistas políticos - A ou B - pois apesar das suas diferenças de estilo e de personalidade, de conhecimentos próprios e de posições políticas, quase todos acabaram por produzir a mesma distância entre o que programaram e o que acabaram por concretizar. Nem aos diversos programas de modernização da economia portuguesa, que quando observados isoladamente, têm plausibilidade e credibilidade. Nem muito menos, à sociedade portuguesa que tem revelado, em situações de crise económica aguda, como a que estamos a viver nos últimos anos, uma adequada capacidade de adaptação, pelo que se esse esforço bem sucedido em termos conjunturais não é persistente e não se prolonga no tempo, isso é mais resultado do excesso de confiança dos dirigentes e pivots políticos do que de uma incapacidade coletiva dos portugueses para consolidarem estratégias de longo prazo. A explicação parece ser mais complexa e mais profunda, a exigir uma abordagem ao mesmo nível.

A desilusão dos debates do partido alternativo ao sistema vigente, neste Verão atípico, parece confirmar o paradigma habitual: a ausência de novos protagonistas políticos corajosos, consistentes, globais, capazes de concretizar efetivamente o que planeiam. No fundo, o que tem comprometido todos os diagnósticos e todos os programas de modernização na ultima década.

22 de agosto de 2014

Claro!








Para comemorar mais um aniverário, almoço inesquecível no Claro.

Começou-se com o surpreendente bacalhau à Conde da Guarda, passou-se ao "algarvio" carapau à Lima, depois ao cachucho, caldo de lingueirão e aipo e terminou-se com a delicada farófia de côco e ginjas em calda. Tudo acompanhado de um agradável Quinta das Bágeiras 2011, branco.

Verdadeiramente soberbo. Simples, criativo, despretencioso, num local único em  excelente companhia.


21 de agosto de 2014

Dia Mundial da Fotografia








Inesquecível experiência noturna na companhia do António e a convite do Instituto Português de Fotografia. Uma noite sem dormir para ver nascer o sol, sentir a vida e relembrar o quanto Lisboa mexe connosco.

19 de julho de 2014

Uma obrigação mais forte.


Pedro Santana Lopes deu uma entrevista ao Expresso de hoje em que afirma que "arrumou o passado" e "amadureceu", diz estar bem com ele próprio e com tudo o que lhe aconteceu na vida pública e assume que seria altamente estimulante para a direita que o candidato da esquerda à Presidência da República fosse António Guterres e que este não seria "imbatível" numa futura eleição. 

Confrontado com uma declaração de há meses, em que dizia que não se podia candidatar a Belém, porque tinha que "ganhar a vida", sublinhou que a sua atividade à frente da Santa Casa da Misericórdia é essencial, mas não exclui a hipótese de sair da Santa Casa, caso surja "uma obrigação mais forte."

Não é difícil pensar a que obrigação se refere PSL. Nos últimos meses têm sido vários os sinais que indicam que essa "obrigação" é a Presidência da República.

Sou suspeito, pois trabalhei com ele varias vezes ao longo da vida e sou um fan de Santana Lopes. Da sua dinâmica, da sua coragem, da sua criatividade, da sua resistência, do seu carisma. Há poucos políticos como ele. Tem muitas e muitas qualidades que fazem dele o homem perfeito para alguns lugares políticos: para Provedor da Santa Casa da Misericórdia, para Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, para Ministro de muitas pastas e até para Primeiro Ministro. Tem muito mais carácter e dimensão que José Sócrates e este foi Primeiro Ministro durante 10 anos. 


Como todos os homens com as suas características, PSL absorve um conjunto de inimizades, anti corpos e invejas que tantas e tantas vezes se unem para abanar o "berço". O que acaba por ser injusto.

Apesar disso, nunca devia ter saído da Câmara de Lisboa e não deve interromper o seu mandato à frente da Santa Casa mesmo que a obrigação mais forte seja a Presidência da Republica. 

Se fizer isso, cometerá mais um erro. 

Um erro fatal.

14 de julho de 2014

Um final de tarde inesquecível!



Enorme desafio um movimento de cidadãos tomar a iniciativa de promover um concerto de música no espaço público de uma cidade.
Resultado final excelente superando todas as expetativas. Mais de 4.000 pessoas, muitas crianças, ambiente ótimo, música maravilhosa.

30 de junho de 2014

Em 3 anos...


Em junho 2011, António Costa dizia ser impossível acumular o cargo de secretário-geral do PS com a presidência da Câmara de Lisboa: “Não é possível acumular a liderança do PS e a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O PS precisa de um secretário-geral a tempo inteiro e o município de Lisboa de um presidente com dedicação exclusiva”.

E acrescentava: “Tenho a certeza que os meus camaradas do PS são os primeiros a compreender que honrar a confiança que em mim depositam os lisboetas, cumprir o compromisso que assumi com a cidade que me elegeu, exercer com total paixão as funções públicas que me estão confiadas, é não só meu dever, como o melhor contributo que posso dar para credibilizar a política e a prestigiar o próprio Partido Socialista”.


Ontem, segundo o jornal "i", António Costa terá dito que mesmo que vença as primárias no Partido Socialista marcadas para setembro de 2014, irá ficar à frente da Câmara de Lisboa até às eleições legislativas. Ou seja, fica na presidência do PS e da Câmara de Lisboa,

O contexto seria seguramente diferente em 2011. Mas mudou assim tanta coisa em 3 anos?...

O país precisa de um Governo corajoso e credível, de governantes dedicados e apaixonados, de políticas a longo prazo. E Lisboa precisa de ter finalmente alguém que não esteja na presidência da Câmara a pensar noutra coisa. De ser pensada e vivida a 10/15 anos.

Já chega!

6 de maio de 2014

Roberta´s







Inesquecível incursão nas profundidades de Brooklyn.

Almoço fantástico na Roberta's de Anthony Falco que além de óptimas pizzas, tem bar, padaria, galeria, uma horta que fornece produtos frescos para o próprio restaurante e ainda uma estação de rádio.

As pizzas vêm chamuscadas em forno a lenha, a cerveja, a que se quiser de uma costa a outra do Estados Unidos, é servida em potes de geleia,. O espaço é um bunker, composto por contentores, em Bushwick, Brooklyn, onde passam sobretudo camiões e motos e poucos turistas. O ambiente é confiante, relaxado e desalinhado.

A não perder!


23 de abril de 2014

Levar, doar, ler, devolver



Uma biblioteca num espaço imprevisível. Uma biblioteca como meio de partilha. Uma biblioteca enquanto desafio à cidadania. Um escape à criatividade. Uma demonstração de politica fora da politica. Um momento de vida.

8 de janeiro de 2014

CINEMA LONDRES - O SILÊNCIO





Não tendo existido qualquer publicitação ou conhecimento de que o imóvel onde durante 42 anos funcionou o Cinema Londres estaria para arrendar/vender e tendo-se sabido agora que no local vai surgir uma loja de produtos orientais, o que surpreendeu moradores e comerciantes, o Movimento de Comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, Praça de Londres e Avenida de Roma decidiu elaborar uma petição “O nosso bairro precisa de um pólo cultural!” que se encontra a recolher as assinaturas necessárias para ser apresentada aos órgãos municipais e a outras entidades públicas, no sentido de junto dos proprietários se encontrar uma solução para o nº 7-A da Avenida de Roma, freguesia do Areeiro, que em paralelo com a existência de comércio torne possível a manutenção de um pólo cultural.

[A petição está a circular em papel. Está hoje e amanhã na Livraria Barata. Depois passa para a Farmácia Algarve (mesmo ao lado do Cinema Londres) e no fim de semana para a Mercearia Criativa e Mexicana.]


Vamos encontrar uma solução!

Não podemos ficar calados.

7 de janeiro de 2014

Falta de vergonha


José Sócrates ontem na RTP ao falar de Eusébio refere que ia a caminho da escola no dia do Portugal-Coreia do Norte, Campeonato do Mundo de 1966.
O jogo foi a 23 de julho... num sábado... e às 15h00.

31 de dezembro de 2013

Partilhar / Parceria


 “Eu já não tenho carro!” é uma expressão que se ouve cada vez mais.

Esta opção não será causada unicamente pela crise iniciada em 2008, mas também pelo declínio da chamada cultura do carro, acompanhado pelo crescimento da cultura digital, da “economia partilhada" e de um estilo de vida mais minimalista.

O que estará em curso será, provavelmente, uma mudança de cultura, de paradigma. O uso de telemóveis, a presença da internet e a chamada economia partilhada estão a afetar cada vez mais a vida nas cidades de uma forma nunca antes sentida. Os carros já não são um símbolo de liberdade ou status como eram há 20 anos atrás e as palavras de ordem são cada vez mais “Parceria” e “Partilhar”.

Nunca foi tão caro manter um carro – impostos, seguros, estacionamento, manutenção, o que permite cada vez mais serviços de partilha e aluguer de carros e bicicletas. Talvez por isso a indústria automóvel caminhe para ser mais B2B do que B2C...

Protagonistas desta mudança são já chamados “Novos Urbanistas“, um grupo demográfico que estará a alterar a cara das cidades. WiFi, vídeo vigilância, ruas mais seguras e geolocalização são aspetos essenciais para o dia-a-dia deste grupo, para o qual é impossível falar de crescimento da “economia criativa” sem falar nos transportes públicos, pois um melhor sistema de transportes resulta em trabalhadores mais felizes e satisfeitos, o que, por sua vez, deriva em criatividade e produtividade.

É uma visão holística: transportes públicos, incentivos ao empreendedorismo, imobiliário, economia partilhada: tudo tem que andar em ... coligação.

Curiosamente há países como o Brasil, a Índia e a China, em que este movimento é precisamente o inverso, devido  à emergência de uma poderosa nova classe social e de políticas para que as pessoas comprem e usem mais carros e os utilizem como símbolo de statusPor isso, será um exagero afirmar que os carros terão no curto prazo o mesmo fim que os cigarros e os refrigerantes. 

A única certeza é que o papel do automóvel está a ser cada vez mais questionado na sociedade por uma geração que já está a deixar o carro na garagem e nas concessionárias, abraçando, como pode, a economia da partilha. 

Em 2014, o tema das parcerias e das partilhas, neste ponto como em muitos outros como a cultura, a ajuda social e o emprego, será um tema que, estou certo, muito se ouvirá falar e vai ser curioso ver como respondem decisores e protagonistas.

12 de novembro de 2013

Negativas


Há 3 dias que os media e quase todos os comentadores só falam das peculiares afirmações do Ministro dos Negócios Estrangeiros, apontando um determinado nível das taxas de juro da dívida pública portuguesa como indicador de um regresso aos mercados ou da necessidade de um 2º resgate. Enfim...

Ao invés, a notícia da melhoria da apreciação da dívida portuguesa pela agência de notação financeira Moody’s de “Outlook negativo” para “Outlook estável” passou quase despercebida junto dos media e dos comentadores habituais.

Assim como a quebra da taxa de desemprego e o facto dos juros no mercado secundário da nossa dívida pública a 10 anos terem recuado dos 7%.

São notícias que valem o que valem, mas para um País que se habituou a descidas permanentes nas notações de rating, desde há mais de 3 anos, a subidas da taxa de desemprego e outras notícias negativas, estas mudanças talvez queiram dizer qualquer coisa...

11 de novembro de 2013

GOV.UK


Há dias descobri o site do governo inglês, o GOV.UK, e constatei o que depois percebi ser uma opinião unânime: o site é uma verdadeira ferramenta de aproximação entre governo e cidadãos. 

O responsável é um senhor chamado James Stewart, que é um dos mais respeitados projectistas de serviços públicos da Era Digital e ao entrar no site apercebemo-nos da diferença. É de uma enorme simplicidade, permite uma fácil navegação, é possível emitir vários documentos digitalmente e mesmo que não se saiba como funciona e é constituído o governo inglês, conseguimos obter múltipla informação.

Em 2010 a presença digital do governo britânico tinha um uso precário, baixa satisfação dos utentes, segurança deficiente, departamentos actuando como silos, duplicação de conteúdos, inconsistências na identidade visual, diversas marcas e endereços.

Uma das primeiras medidas na reformulação, iniciada em 2011, foi fazer com que os vários departamentos governamentais passassem a conversar e compartilhar dados entre si. 
Outra determinação foi o governo passar a ter um único endereço e identidade visual. O conceito foi simplificar ao máximo a presença digital do governo na web. A primeira versão foi para o ar em 2012 e hoje o GOV.UK tem 7 milhões de visitas por semana.

Uma das questões mais interessantes é que praticamente tudo que é digital no governo passou a ser acompanhado em tempo real. Em Performance é possível acompanhar como diversos serviços digitais do governo britânico estão a actuar. É uma espécie de Google Analytics do governo. Tal como
 no License Find, que permite encontrar as licenças de um estabelecimento comercial.


Ser “simples, rápido e directo” são os lemas do GOV.UK. E são 3 lemas perfeitos, que deviam ser mais seguidos.


6 de novembro de 2013

Memória


O "memorando de entendimento" (aqui publicado) assinado em maio de 2011 pelo demissionário governo socialista e subscrito pelo PSD e pelo CDS, que obrigou o país a tomar um conjunto de medidas, terminará no próximo ano.

Aceito que não seja fácil, agradável e imediata a sua leitura e percepção, mas ouve-se tanta coisa que sai fora do que está assinado, constata-se que tanta coisa continua por fazer e propõe-se tanta coisa diferente, que apetece perguntar se Governo, Presidente da República, oposição e muitos agentes políticos e sociais alguma vez o terão lido. Ou se será apenas uma questão de memória.

5 de novembro de 2013

Belém



Faltam mais de dois anos para o país escolher o substituto do professor Cavaco Silva, mas ao invés das movimentações visarem a chefia do Governo, lugar mais executivo e determinante para quem quem quer fazer Política, verifica-se antes uma agitação indisfarçável parar ocupar a Presidência da República.

O que não deixa de ser curioso. Num país, em que o Presidente não tem poderes executivos, em que é um "mero" moderador, nada faria supor que houvesse tanta vontade de ocupar esse lugar.

As interpretações serão as mais variadas. A minha, é que quem quer que seja Primeiro Ministro nos próximos 6 a 10 anos vai ter que implementar medidas tão impopulares, tão difíceis e por isso, com consequências tão fortes na sua popularidade, que se torna difícil arranjar candidatos. É um lugar pouco apetecível para quem tiver consciência, sentido de Estado e dignidade, Por maior que seja a ambição pessoal, por maior que sejam as pressões partidárias, é um cargo para "perder cabelo". Seja Seguro, Costa, Amado, César. Passos, Portas, ou Pires de Lima todos, com ligeiras diferenças, terão de fazer o mesmo.

Ao invés, a Presidência, com o quadro constitucional vigente e depois dos mandatos de vários presidentes, que à sua maneira foram dando ao cargo formas diferentes e talvez inesperadas, é um lugar mais tranquilo e não menos determinante. Menos exposto. Mas decisivo. Absolutamente decisivo.


A esquerda vai querer vingar os mandatos do único presidente vindo da direita. A direita vai querer ter um lugar que equilibre o jogo político.

Tenho a sensação que vamos ter algumas surpresas nos candidatos, para além dos "clientes" naturais e óbvios deste tipo de ocasiões, isto é, dos candidatos dos partidos disfarçados de personalidades independentes, em face do carácter "unipessoal" do cargo. E é provável que surja alguém mesmo independente.

Nesta altura, a direita parece estar à frente. Os quatro mais evidentes, de Barroso, a Marcelo, passando por Santana e Rio, têm adoptado estratégias cautelosas, de olhar para o lado fingindo nada quererem. O que é sempre positivo...

À esquerda, no entanto, nos últimos dias, dos quatro mais evidentes, dois candidatos fizeram tudo para aparecer. Sócrates em duzentas e vinte entrevistas e iniciativas e Carrilho em duzentas e vinte títulos sensacionalistas. O que contrasta coma descrição recomendável... É certo, que Costa continua sabiamente discreto e hesitante entre Belém e São Bento. Guterres, tal como os candidatos da direita, é que parece estar a melhor gerir o "desinteresse".

A dois anos de distância, Belém parece ser o destino que mais motiva os nossos políticos. O que talvez queira dizer muito da nossa política.

8 de setembro de 2013

"Eu não faço isso"


Todos sabemos que no nosso país abundam as cunhas, os pedidos, os contactos. Nisso não somos particularmente originais. Há casos muito piores.
A questão está em não assumir. Os lobbys politicos não são assumidos como noutros países. As posições sexuais, políticas, familiares, raramente são tornadas publicas.
Dir-se-à que é da nossa cultura e que são matérias que fazem parte da esfera privada e que por isso não têm de ser consideradas publicas.
Mas nem sempre isso corresponde à verdade...
Se alguém beneficiar de um emprego, de um concurso, de um prémio, de um subsidio, porque pertence a determinada organização, a um partido ou a uma familia, isso não é despiciendo.
Por isso pertencer... é cada vez mais interessante e é cada vez menos interessante revelá-lo.
Mas pior ainda, é esconder essa ligação, afirmar uma falsa isenção, apregoar uma impermeabilidade inexistente, passar a imagem de que por pretexto algum se cede à tentação.
"Eu não faço isso!" é o mote gritado para todos ouvirem, depois, rapidamente, contrariado com uma ou outra manobra discreta, às vezes por terceiros, como convém.
Isso é algo que demonstra, para além de uma imensa hipocrisia e falsidade, sobretudo uma enorme fragilidade. 
E um país frágil, um país hipócrita, um país que não enfrenta e não se assume, um país de homens e mulheres que pedem, mas fingem que não pedem, um país de homens e mulheres que não assumem que pertencem, é um país sempre mediano, sem glória e sem brilho.
Um país onde o mérito dificilmente consegue se impor por si.

25 de agosto de 2013

Cadê

(...)
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...


Adriana Calcanhotto, Esquadros

21 de agosto de 2013

Na ausência...


Há um autor de que gosto muito, que numa das suas obras diz, a certa altura, qualquer coisa como "A maior parte das coisas que importam na nossa vida acontece na nossa ausência."

Ciclicamente ao longo da vida, lembro esta frase de Salman Rushdie. E, hoje, quando acordei com os sinos da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, voltei a pensar nela.

Quando a vida nos afasta de algo ou de alguém, quando viajamos, quando mudamos de emprego, quando, mesmo temporariamente, ficamos longe, há sempre algo que acontece. Muitas vezes são coisas boas e até muito boas, por vezes, são situações que entristecem.

As mudanças e consequentes ausências ensinam-nos que o "logo após", o "day after", revela muito, permite que a verdade emerga, que os outros se mostrem e que a luz se torne mais clara. Como quando, sendo míope, esfrego os olhos e por breves segundos pareço ver melhor.

Nos últimos dias vejo melhor. O que neste caso em concreto não sendo motivo para me sentir particularmente feliz, pois a luz revelada, a verdade vinda ao de cima, entristeceu, acaba por ser, no final, no regresso, de enorme importância para, de novo no caminho, prosseguir com mais lucidez e com mais determinação.

Talvez não fosse preciso que as coisas fossem assim e que a ausência trouxesse ao de cima somente coisas boas. Mas, não é assim...

Quem, como é o caso de  Rushdie, vive há mais de 20 anos ameaçado de morte, fugindo de um lugar para outro, ausentando-se permanentemente, sabe com toda a certeza quais as consequências da ausência. Eu tenho aprendido de forma muito mais pacífica o que ela significa, mas cada vez mais sinto que Rushdie tem razão.

5 de agosto de 2013

Em Roma ou Londres ou Paris...



Depois de não ver, até agora, nenhuma proposta com pés e cabeça dos candidatos à CML e apenas generalidades, depois de conhecer as suas equipas e de ter a leve impressão que nenhum dos principais candidatos quer mesmo ser presidente da capital do país, fico com a leve impressão que não vou conseguir votar nas eleições de setembro... Nessa altura, devo estar em Roma, ou Londres ou Paris.
Realmente, Lisboa merece muito muito melhor!

25 de julho de 2013

Silence is better than Bullshit!



O que se tem passado nas últimas horas relativamente ao novo Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros é verdadeiramente representativo do estado a que chegou a nossa comunicação social e a nossa politica.

São insinuações, referências a ligações menos claras, criticas de que foi alvo, piadas de mau gosto.

O Dr. Rui Machete foi uma das pessoas que assinou o tratado em que Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia. Esteve anos à frente da Fundação Luso Americana, foi Ministro, advogado e uma personalidade das mais conceituadas e integras da nossa sociedade.

Ter aceite, nesta altura da vida, um cargo com o desgaste e a exposição como é a de Ministro dos Negócios Estrangeiros só se justifica, como o próprio disse, pela situação do país. E o pais devia estar honrado por ainda haver quem com tão vasto prestigio e experiência aceita ser ministro.

Parte da esquerda política, alguma direita invejosa e grande parte da comunicação social foram apanhadas de surpresa. O Primeiro Ministro surpreendeu. Fez um convite a alguém com o peso do Dr. Rui Machete que em 3 horas aceitou. Alguém com um perfil indiscutivelmente diferente daquele que o antecede. E isso para os que todos os dias tentam adivinhar, analisam, supõem, é imperdoável.

Estamos cansados de maus políticos, de comentadores ex políticos, de comentadores a fazer política, de jornalistas a fazer política, de politólogos a fazer política.

Mais silêncio. Mais trabalho e produtividade. Mais isenção e rigor. Menos "Bullshit"!

19 de junho de 2013

A reunião


O tema era sobre a articulação de procedimentos entre vários serviços da Administração Pública na transposição de Diretivas Europeias.

O local, um palácio com história, uma sala com uma mesa quadrada, imensa, cadeiras imponentes, tetos trabalhados, num dos cantos, numa mesa de apoio, fotografias de personalidades que se haviam reunido, em momentos diversos, naquela sala e à àquela mesa.

Os participantes representando diversas áreas e ministérios chegaram à hora marcada, cumprimentaram-se, a maior parte já se conhecia, e os trabalhos começaram.

De repente, apercebi-me que dos 20 participantes, era eu o único homem.

Não me recordo de alguma vez ter estado com 19 mulheres numa reunião e numa sala e, deduzi depois, juristas.

A reunião foi decorrendo com muitos estados de alma à mistura, longas intervenções, muitas cautelas, pedidos de prazos mais longos para emissão de pareceres, invocação de inabaláveis experiências profissionais. Chegada a minha vez, quase no final, intervim, dizendo que os prazos apresentados eram perfeitamente aceitáveis, que a coordenação entre as várias áreas seria seguramente eficaz, recorrendo ao contacto direto e à troca de emails e que era desejável e muito positiva a realização de reuniões de coordenação e de articulação de procedimentos. Estava por isso satisfeito e optimista. Não falei mais de 2 minutos.

Quando dei por teminada e minha curta intervenção, por comparação com as das minhas colegas de reunião, a presidente da mesa, que nos recebia nas suas instalações, sorriu e perguntou se era tudo. Respondi que sim. E no momento em que acenei e acabei de pronunciar a última letra... ouviu-se um burburinho jocoso e mesmo alguns sorrisos
trocistas. Quando se fez silêncio, perguntei o porquê daquela reação.
 
A resposta veio da presidente da mesa. É que a minha intervenção era típica de um homem, uma intervenção fria, desligada, simplista e sem emoção.
 
Ao que perguntei, sorrindo, qual era a emoção que proporcionava às minhas colegas a transposição de um diretiva sobre o tamanho dos carris dos combóios ou sobre a composição das rações dadas aos animais. A reação foi ainda pior, com uma avalanche simultânea de intervenções, algumas inaudíveis.

Mantive-me o resto da reunião calado, pensando como é diferente a maneira de pensar, de trabalhar e de reagir a uma provocação das mulheres em relação aos homens e como são diferentes as suas reações quando estão em maioria. Se naquela mesa estivessem 19 homens e uma mulher, como seria diferente a reação masculina. Seguramente delicada, com algumas vénias teatrais e muitas tentativas de ser agradável à única mulher presente.

Cada vez me convenço mais que o grande mistério das mulheres reside nesta imprevisibilidade, nesta forma de lidar com os fatos do dia a dia, nesta transformação tantas e tantas vezes de algo sem qualquer possibilidade de emoção, num problema e numa questão para várias horas, dias e até meses de preocupação, desabafo, discussão e trauma. Umas vezes é sedutor, outras arrasador.
Talvez por isso as mulheres tenham tanta dificuldade em perceber o pragmatismo e até nalguns casos a frieza dos homens. E sejam uma surpresa que por vezes destrói anos de certezas.



11 de junho de 2013

...

I had become, with the approach of night, once more aware of loneliness and time - those two companions without whom no journey can yield us anything.

Lawrence Durrel

2 de junho de 2013

Amanhã é um novo dia!

Mudança! Finalmente!!

Dolorosa como todas as despedidas. Ansiosa como todas as mudanças.
Há muito adiada. Por muitas razões.
Agora, sozinho, tentando começar de novo. Com força, esperança, mas igualmente receio. Mas determinado.

Amanhã é um novo dia.

21 de maio de 2013

Caminhos

Há dias, poucos ainda, partiu alguém que, de repente, inesperadamente, quando nada o fazia prever, tinha adquirido uma importância enorme.
Tinha estado ao longo dos anos sempre presente, umas vezes com mais regularidade, outras passando muitos sem nos vermos ou sabermos sequer um do outro.
Nos últimos meses, quase diariamente nos víamos, ou falávamos, ou comunicávamos.
Teve uma vida imensa, muitas vezes solitária, por vezes fria, dura, resistente, quase sempre com muitos por perto, que ajudava de formas diferentes. Acreditava em Deus e muito no Dr. Sousa Martins com quem mantinha uma relação muito especial.
No final, partiu quase só, éramos dois na despedida, dois a acompanharem no funeral.
A vida tem nuances e caminhos surpreendentes. Este, por muitas razões, nunca vou esquecer.

24 de janeiro de 2013

Banco numa ponte de Paris


vazio, branco, frio, as luzes ao fundo
tantas e tantas vezes a própria vida.

Sacré Cœur

@fotografia do autor


Estátua do Rei Luís IX de França (1214-1270) em cujo reinado a França viveu um excepcional momento político, económico, militar e cultural, conhecido como o "o século de ouro de São Luís". 

Houve um grande desenvolvimento da justiça, passando o monarca a representar o juiz supremo. 
No seu reinado, Luís IX designou inspectores gerais, que eram considerados como funcionários públicos, criou uma comissão judicial da cúria e instituiu uma comissão de fazenda e de inspecção de contas. Proibiu os juizes, oficiais e outros emissários seus, enviados às províncias para ali exercerem justiça, de adquirir bens e empregar os seus filhos. Nomeou, acima deles, juízes para examinar a conduta dos primeiros e rever os seus julgamentos, funcionando como justiça de apelação. Para o rei ficava reservado o papel de juiz supremo.

Segundo os relatos da época, se entendia que os seus oficiais tinham agido mal, impunha em primeiro lugar uma severa penitência a si mesmo, como culpado pelo excesso praticado pelos seus representantes, e em seguida ministrava-lhes uma muito severa punição.

Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e promovia-os. 

Foi também o primeiro rei a proibir duelos, uma forma muito habitual, até então, de se conhecer o direito das partes.


11 de janeiro de 2013

Silêncio

Ontem, vi, na televisão, Eduarda Napoleão à porta do tribunal, onde está a ser julgada em mais um processo relacionado com o período em que foi vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Este é relativo ao chamado caso Bragaparques, em que são arguidos também, para além de outros, António Carmona Rodrigues e Carlos Fontão de Carvalho.

Conheço bem Eduarda Napoleão. Não privamos diariamente. Mas conhecemo-nos há mais de 20 anos na Secretaria de Estado da Cultura e mais tarde na Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalhámos juntos, muito diretamente e todos os dias, durante 6 meses, e depois, com regularidade durante mais 3 anos.

Posso dizer que é das pessoas mais sérias, honestas e cuidadosas, com que trabalhei. A área a que se dedicou incansavelmente dias e noites - o urbanismo - é a área mais complexa, difícil em termos juridico-administrativos e delicada politicamente que conheço. A pressão é insuportável. A corrupção uma sombra permanente. A defesa de interesses, muitas vezes difíceis de conciliar, é feroz, quase desumana.
Todos os que tentaram acabar com algumas práticas levadas a cabo há anos na autarquia lisboeta pagaram caro esse "desaforo".

Importa dizer, que não conheço com detalhe a operação de permuta de terrenos, nem as avaliações que foram feitas, nem os valores envolvidos na operação que dá origem a este processo criminal (não administrativo...). Mas sei, que Eduarda Napoleão nunca faria nada que fosse ilegal ou obscuro. Ou que nunca tivesse sido feito durante anos. E sei que nunca se deixaria corromper. Por ninguém.

Falo como homem e como jurista há mais de 30 anos.

Eduarda Napoleão, enquanto esteve na Câmara Municipal de Lisboa, lutou contra muitos e muitos interesses instalados, contra habilidades jurídicas, contra facilidades obscuras. Lutou cegamente.

Mas falo também como cidadão.

Os fatos deste processo de que Eduarda Napoleão é acusada remontam a 2005. Estamos em 2013. Passaram 8 anos!!!
É uma vergonha, uma desumanidade, uma desonestidade jurídica, um contrassenso ético, ter que responder por fatos ocorridos há 8 anos. Pode ser tudo, menos Justiça. Parecendo muito mais uma acusação com componentes políticas, persecutórias, perversas, vingativas e fortemente maléficas.

Muito provavelmente, noutros casos, o arrastar dos processos é benéfica. Em casos, como este, é terrível.

Sei o que Eduarda Napoleão está a passar... E sei porque, eu próprio, há vários anos, tenho sobre mim um processo, alegadamente referente a fatos praticados há muitos anos, do qual, até hoje apenas recebi dois singelos documentos: uma indicação escrita, comunicando-me que existiria um processo resultado de um inquérito movido a um serviço inteiro e um pedido para prestar declarações.

Para além do meu, existirão em resultado do mesmo inquérito, mais de 40 processos idênticos, movidos a colegas meus. Nunca recebi até hoje a acusação, desconheço formalmente os fatos de que sou acusado, pelo que, obviamente, nunca me pude defender. 

No entanto, esse "processo" tem sido alimentado por quem tem interesse na sua existência, aparecendo, através de referências indiretas e subliminares, sempre que é necessário, nomeadamente, sempre que me é apresentado um desafio profissional, um convite ou a possibilidade de uma mudança. O intuito é manchar o nome, o percurso profissional, a dignidade e "cortar as pernas para outros desafios". Algo, que lamentavelmente se vê muito no nosso país nos últimos anos...

Tem sido um processo a que ninguém tem querido verdadeiramente pôr fim.

É minha convicção, pela evolução recente, que não faltará muito para o seu desfecho (seja ele qual for...) e no dia em que terminar, para além de beijar os meus filhos, direi um pouco do que tenho guardado em silêncio dentro de mim.

Até lá, é tempo de enviar um sentido abraço à Eduarda Napoleão, rezar por ela e pelos seus, acreditar na Justiça e permanecer em silêncio. Silêncio que só decidi interromper, neste desabafo, por solidariedade a alguém que sinto que o merece e porque não ficaria bem com a minha consciência se não o fizesse.

Agora, silêncio.