28 de setembro de 2009

A decisão do futuro

A Alta de Lisboa é um projecto com cerca de 20 anos idealizado por Nuno Krus Abecasis, com o objectivo de desenvolver urbanisticamente uma área com cerca de 300 hectares a norte da cidade, através de uma parceria público-privada.

De acordo com o modelo definido, ao privado (SGAL) exige-se capacidade financeira, iniciativa, imaginação, qualidade. Ao público (CML) exige-se aprovação célere dos projectos, disponibilização de terrenos, articulação com outras entidades, nomeadamente administração central (educação, saúde, segurança, transportes...) e formas eficazes de gestão das áreas públicas.


O projecto foi tendo várias vicissitudes ao longo destes 20 anos. Sofreu avanços e recuos. Períodos de desenvolvimento e períodos de estagnação. Sofreu atrasos. Atravessou 6 presidentes de câmara, dezenas de vereadores, centenas de dirigentes e funcionários municipais e vários conselhos de administração da SGAL. Cerca de 10 mil pessoas foram realojadas e cerca de 20 mil (das 50 mil previstas) compraram uma nova casa. Estava previsto tudo estar construído no próximo ano (2010) e comercializado até 2015, mas está desenvolvido em pouco mais de 50%.

Fazendo um balanço genérico do desenvolvimento do projecto em função da actuação dos vários Presidentes da Câmara, o que nos poderá ajudar a avaliar o futuro, poderemos dizer que os períodos de maior crescimento da Alta de Lisboa corresponderam àqueles em que, a par da dinâmica do mercado, a Câmara de Lisboa teve maior preocupação, dedicação, agilidade, iniciativa, rapidez no cumprimento das suas obrigações. Quer na aprovação de projectos, quer na libertação de terrenos.


É uma avaliação pessoal, que pretendo isenta e que penso ser útil nesta altura para ajudar a decidir o futuro.


Assim, Nuno Krus Abecasis ficará associado à Alta de Lisboa, por ser o "pai", o mentor do projecto e do modelo subjacente. Percursor para aquela altura.

Os 6 anos de Jorge Sampaio, ficarão marcados por significativas alterações ao modelo do projecto, pela concretização de um novo Plano de Urbanização, pela renegociação do contrato com o privado e pelo início da construção dos prédios de realojamento e dos destinados à venda livre, nomeadamente, o chamado Parque Europa.

Os 6 anos de João Soares, ficarão associados ao período de construção de muitos prédios de realojamento, de vários de venda livre, à construção de duas escolas, de dois centros de dia, de uma pequena biblioteca, de uma pequena esquadra de polícia, de vários parques infantis e de dois inovadores pequenos campos de jogos. Foi um período de aposta clara no realojamento das populações.


A Pedro Santana Lopes coube a recuperação do Parque da Quinta das Conchas, a aprovação e início de construção do Parque Oeste, a aprovação do projecto do Parque Sul com dois campos de rugby, a construção de cerca de 80 % da Av. Santos e Castro, a aprovação e construção do Complexo Desportivo, com dois grandes campos de futebol, aprovação e inicio de construção de uma Pista de Atletismo, a construção de uma escola, construção de uma creche, aprovação econstrução de um Lar Residencial/Unidade de Cuidados Continuados Integrados para deficientes, de um pequeno centro de saúde, de sedes para os principais clubes desportivos da zona, aprovação do projecto de uma grande esquadra de polícia, aprovação do projecto de uma grande rotunda junto à 2.ª. Circular (Porta Sul) que permitiria a ligação ao Campo Grande e da avenida mais importante do projecto, o Eixo Central. Foi igualmente no seu mandato de cerca de três anos que se aprovou o loteamento da maior malha urbana de comércio, serviços e habitação da Alta de Lisboa, correspondendo a mais de 200 mil m2 de construção e se tornou prioritário o desenvolvimento do Centro de Mercadorias. Assim como foi com Pedro Santana Lopes que se procedeu à aprovação, concepção e início de construção de um novo bairro para os moradores de Calvanas. Foi no seu mandato, igualmente, que se negociaram diversos terrenos com privados que permitiram, nomeadamente, a construção do Eixo Norte/Sul e que se projectou a construção de um grande centro cultural da autoria do Arq. Siza Vieira.


Carmona Rodrigues, pelos cerca de 3 anos de mandato, será recordado pela construção da grande esquadra de polícia, conclusão da Pista de Atletismo e da 2.ª Fase do Parque Oeste, bem como da conclusão da recuperação da Quinta dos Lilazes. Foi ainda no seu mandato que foi escolhido o empreiteiro que iria construir a Porta Sul e continuada a construção da Av. Santos e Castro. Bem como desenvolvido e aprovado o projecto de um Quartel de Bombeiros.

Os dois anos e meio de António Costa ficarão associados ao início da revisão do Plano de Urbanização, à decisão de elaboração de um Plano de Pormenor para a Malha 14, à construção de uma rotunda junto à Quinta das Conchas (conhecida por rotunda das 5 vias), pelo início de construção do Eixo Central, pela construção da 3.ª fase do Parque Oeste e pela decisão de elaborar um novo projecto para a Porta Sul.


No próximo ano devia estar concluída a Alta de Lisboa. Mas não está. Há muito e muito ainda a fazer. Por vários anos. Será, por isso, necessário prolongar e renegociar a parceria publico-privada. E actualizar o projecto geral, ajustando alguns aspectos e alterando outros. Será também um ano em que se prevê uma recuperação do mercado, aumentando a procura.

Será um tempo exigente para a CML e para a SGAL.

Altura em que, como nunca, será preciso pragmatismo, bom senso, eficácia, agilidade, força, liderança, capacidade de decisão, capacidade de resolução. Ao próximo Presidente da Câmara e à sua equipa será exigido muito. Assim como à SGAL.


A duas semanas das próximas eleições autárquicas, sendo candidatos dois homens que já foram Presidentes da CML, que tiveram oportunidade de mostrar o que são capazes, é o momento certo para olhar o passado e pensar no futuro e avaliar quem mais fez pela Alta quando teve essa obrigação e, face aos dados disponíveis, quem poderá fazer mais nos próximos anos, sendo certo que uma CML forte, significa uma Alta forte, uma Lisboa forte, dinâmica, competitiva, bonita, bem gerida e cuidada.

Em que o espaço público, a oferta cultural diversificada, a eficiência energética, a sustentabilidade, a qualidade da construção, o respeito pela legalidade, a resolução eficaz e célere das dificuldades, a confiança, a imaginação, serão exigências obrigatórias.

E parece claro e relativamente unânime, mesmo para quem não gosta do estilo e de alguns aspectos da sua forma de fazer política, que foi com Pedro Santana Lopes que a Alta de Lisboa mais se desenvolveu, correspondendo, por outro lado e ao invés, os últimos dois anos e meio de António Costa ao período de menor crescimento destes 20 anos, marcados pelo recuo nas opções tomadas, pela ausência de decisões e pela estagnação.
















E a Alta de Lisboa não precisa de perder mais tempo e mais oportunidades. Precisa de decisões. Não de promessas e de estudos. Precisa de avançar, de crescer, de obra. Precisa de equipamentos, precisa da Porta Sul, da Av. Santos e Castro, precisa de serviços, de vida, de trabalho, de pessoas. Para que seja aquilo que verdadeiramente pode ser.



(Quero agradecer o amável convite do movimento cívico Viver na Alta de Lisboa para a elaboração deste post que é publicado no seu site Viveraltadelisboa.org. Igualmente quero agradecer ao fotógrafo Manuel Ribeiro ter disponibilizado as suas excelentes fotografias. Finalmente, em termos de declaração de interesses, não quero deixar de referir que fui Director da UPAL (CML) de Maio de 2002 a Outubro de 2005 e Director Jurídico da SGAL de Janeiro de 2006 a Agosto de 2009.)

vale o que vale, mas...

.

talvez seja uma possível explicação para o destaque dado ontem por José Sócrates a António Costa no final da noite.

Algumas notas pessoais


1. Vitória expressiva do PS e pessoal de José Sócrates.
2. Vitória sem maioria absoluta com cerca de menos 500.000 votos que em 2005.
2. Derrota do PSD com ligeira subida em relação a 2005.
3. Subida do CDS com resultado histórico, o melhor em 26 anos, sendo juntamente com o PSD o único partido com o qual individualmente o PS pode conseguir maioria absoluta na Assembleia da República e passando para 3.º força política.
4. Subida do BE com importante resultado, o dobro, mas não suficiente para servir de partido charneira do PS.
5. Subida ligeira da CDU, mas passando de 3.ª para 5.ª força política.
6. Elevada percentagem de não votantes (acima do partido mais votado) e significativo número, mais de 170.000, de votos brancos e nulos.
6. Nova sobrestimação do BE nalgumas sondagens pré-eleitorias e subestimação do CDS em todas as sondagens pré-eleitorais, apesar de globalmente terem-se aproximado muito dos resultados finais. De qualquer forma, o fenómeno CDS nas sondagens deve merecer reflexão e ponderação tanto mais que daqui a 15 dias haverá eleições autárquicas.
7. Melhor discurso da noite para Paulo Portas.
8. Aproveitamento de José Sócrates aparecendo no final da noite em grande destaque com António Costa e antecipando o começo oficial da campanha eleitoral.
9. Em Lisboa, descida do PS que obtém cerca de 112.000 votos e ligeira subida do PSD (cerca de 93.000 votos) e do PP (perto de 37.000) , que somados obtém um pouco mais que a percentagem do PS.
10. Melhor acompanhamento televisivo da noite pela SIC, com melhores comentadores, menos falhas e mais ritmo, apesar do curioso Simulador de Maiorias da RTP.
11. Alguma desilusão em relação aos resultados obtidos pelos pequenos partidos, em especial dos recentemente surgidos, revelando que mesmo em evidente desvantagem de meios, trouxeram pouca novidade e não provocaram entusiasmo no eleitorado.
12. Razões para Cavaco Silva reflectir de forma a servir de estabilizador e não denotador.

26 de setembro de 2009

Zaïs - Jean-Philippe Rameau


Futuro


" (...) Mas decidam o que decidirem gostava que se empenhassem. Que trabalhassem duramente. Eu sei que muitas vezes a televisão dá a impressão que podemos ser ricos e bem-sucedidos sem termos de trabalhar - que o vosso caminho para o sucesso passa pelo rap, pelo basquetebol ou por serem estrelas de reality shows -, mas a verdade é que isso é muito pouco provável. A verdade é que o sucesso é muito difícil. Não vão gostar de todas as disciplinas nem de todos os professores. Nem todos os trabalhos vão ser úteis para a vossa vida a curto prazo. E não vão forçosamente alcançar os vossos objectivos à primeira.

No entanto, isso pouco importa. Algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo são as que sofreram mais fracassos. O primeiro livro do Harry Potter, de J. K. Rowling, foi rejeitado duas vezes antes de ser publicado. Michael Jordan foi expulso da equipa de basquetebol do liceu, perdeu centenas de jogos e falhou milhares de lançamentos ao longo da sua carreira. No entanto, uma vez disse: "Falhei muitas e muitas vezes na minha vida. E foi por isso que fui bem-sucedido."

Estas pessoas alcançaram os seus objectivos porque perceberam que não podemos deixar que os nossos fracassos nos definam - temos de permitir que eles nos ensinem as suas lições. Temos de deixar que nos mostrem o que devemos fazer de maneira diferente quando voltamos a tentar. Não é por nos metermos num sarilho que somos desordeiros. Isso só quer dizer que temos de fazer um esforço maior por nos comportarmos bem. Não é por termos uma má nota que somos estúpidos. Essa nota só quer dizer que temos de estudar mais.

Ninguém nasce bom em nada. Tornamo-nos bons graças ao nosso trabalho. Não entramos para a primeira equipa da universidade a primeira vez que praticamos um desporto. Não acertamos em todas as notas a primeira vez que cantamos uma canção. Temos de praticar. O mesmo acontece com o trabalho da escola. É possível que tenham de fazer um problema de Matemática várias vezes até acertarem, ou de ler muitas vezes um texto até o perceberem, ou de fazer um esquema várias vezes antes de poderem entregá-lo.

Não tenham medo de fazer perguntas. Não tenham medo de pedir ajuda quando precisarem. Eu todos os dias o faço. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza, é um sinal de força. Mostra que temos coragem de admitir que não sabemos e de aprender coisas novas. Procurem um adulto em quem confiem - um pai, um avô ou um professor ou treinador - e peçam-lhe que vos ajude.

E mesmo quando estiverem em dificuldades, mesmo quando se sentirem desencorajados e vos parecer que as outras pessoas vos abandonaram - nunca desistam de vocês mesmos. Quando desistirem de vocês mesmos é do vosso país que estão a desistir.

A história da América não é a história dos que desistiram quando as coisas se tornaram difíceis. É a das pessoas que continuaram, que insistiram, que se esforçaram mais, que amavam demasiado o seu país para não darem o seu melhor.

É a história dos estudantes que há 250 anos estavam onde vocês estão agora e fizeram uma revolução e fundaram este país. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 75 anos e ultrapassaram uma depressão e ganharam uma guerra mundial, lutaram pelos direitos civis e puseram um homem na Lua. É a dos estudantes que estavam onde vocês estão há 20 anos e fundaram a Google, o Twitter e o Facebook e mudaram a maneira como comunicamos uns com os outros.

Por isso hoje quero perguntar-vos qual é o contributo que pretendem fazer. Quais são os problemas que tencionam resolver? Que descobertas pretendem fazer? Quando daqui a 20 ou a 50 ou a 100 anos um presidente vier aqui falar, que vai dizer que vocês fizeram pelo vosso país?

As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes."

(Parte do discurso de Barack Obama há dias na abertura do ano escolar numa escola da Virgínia).


A dimensão humana e política desta intervenção e os princípios e valores universais que lhe estão subjacentes - empenho, cidadania, exigência, humildade, responsabilidade - são uma referência que nos deve a todos inspirar nas nossas vidas profissionais, familiares, pessoais.

E servir de estímulo e de suporte aos nossos políticos e próximos governantes para que se centrem no essencial e verdadeiramente importante, em vez de perderem tempo, recursos e oportunidades, com aspectos formais secundários, pretensas reformas e conflitos artificiais que apenas fazem adiar a eficácia, competitividade e qualidade das nossas políticas de Educação e atrasar o País.


25 de setembro de 2009

Malhadinha


Só conhecia os "Monte da Peceguina", tinto e branco, da Herdade da Malhadinha Nova. Os dois óptimos, muito do meu agrado.

Descobri agora o Malhadinha 2006. Um tinto mais complexo produzido com as castas: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Syrah e Touriga Nacional e 15% Vol., de cor granada escuro, brilhante e concentração média. Aroma a fruta (cereja?...) fresca, harmonioso, com toques de especiarias. Na boca sentem-se geleias, cacau e especiarias.

Um vinho "quente", forte, mas suave, de enorme prazer, com preço aproximado de 30€. Óptimo para acompanhar um estufado, um cabrito assado ou qualquer prato de forno. Mais um óptimo alentejano para servir de companhia aos próximos (quentes) paladares de Inverno.

Spianata

O jantar era de um grupo grande, pelo que haverá que dar algum desconto, mas o "Spianata", um restaurante com inspiração (pouca) italiana, situado na Travessa de Santa Quitéria 38, por cima de um supermercado e de um parque de estacionamento, ao pé da Av. Pedro Álvares Cabral, foi uma péssima experiência.

Ambiente pretensioso, comida desinspirada, sem novidade. Garrafeira banal. Serviço fraco, "a armar" e preços, não sendo em si caros, acabam sendo elevados para tão pouco.

Comemos uma "brocheta" com tomate e manjericão, com demasiado azeite e pão pouco tostado. Uma desilusão completa. Passámos para um "penne alla rabiata" com umas folhas de rucula a enfeitar, sem nível, que não deixou memória e terminámos numa "pannacotta" com frutos silvestres que envergonharia qualquer italiano.

O dono da casa esteve muitos anos no "La Trattoria" e depois foi um dos fundadores do "Mezzaluna". Duas boas memórias.

Apesar dos tempos difíceis e do investimento seguramente elevado no local, exigia-me muito mais. Até porque precisamente nestes tempos, cada vez se escolhe com mais cuidado e com mais exigência a ida a um restaurante e ainda mais em grupo.

O melhor acaba por ser uma grande esplanada com uma vista de Lisboa, simpática nestas últimas noites quentes de Outono. Mas que não compensa tudo o resto.

24 de setembro de 2009

O silêncio

O silêncio de Cavaco Silva em relação às escutas e à demissão de Fernando Lima de assessor de imprensa, depois de ter indiciado que só depois das eleições actuaria, prejudica fortemente a eficácia do discurso político do PSD.

É certo que a líder do PSD não está envolvida no caso, mas depois da escolha, no mínimo discutível de António Preto para deputado, e depois dos seus discursos em relação ao tema, esta "história ainda por contar" induz um sentimento de descrença e de desmotivação que conduz à ideia, cada vez mais enraizada, de que os políticos "são todos iguais".

Se nem no Presidente se vê um político acima de toda a política, um político "à prova de bala", um político confiável, diferente, então o melhor talvez seja nem votar. E essa desmobilização, a confirmar-se, penalizará mais o PSD, tendo em conta que grande parte da imagem e do discurso da presidente do PSD se tem baseado na política de verdade.

Mas mesmo os que votem no próximo domingo, votarão com algum desalento acrescido em relação aos partidos e aos políticos, o que fere mais uma vez a credibilidade da política e, sobretudo, a credibilidade de uma das instituições mais respeitadas pelos portugueses.

Por várias razões, a Presidência tem sido vista pelo eleitorado como estando acima da política.

É certo que tanto Soares como Sampaio, sobretudo nos segundos mandatos, foram nalguns casos demasiado activos politicamente, usando os seus poderes para influenciar a formação dos governos e o poder do executivo. Às vezes até demais. Mas a verdade é que as percentagens de confiança na figura tutelar do Presidente sempre foram mais elevadas que em relação aos outros cargos políticos.

Na prática, este silêncio, este novo tabu, faz de Cavaco Silva um dos principais e mais inconclusivos temas desta campanha eleitoral, desviando as atenções de outros temas, fere o estatuto do Presidente da Republica e prejudica, para já, a presidente do PSD. E, muito provavelmente, beneficiará quem menos se esperaria que beneficiasse.

São demasiadas consequências para um simples silêncio. Numa altura em que há cerca de 1 milhão de portugueses que está indeciso em relação em quem votar, ou mesmo votar, nas próximas eleições.


Inadmissível

A eleição para director-geral da UNESCO não prestigiou o Estado Português e consistiu um momento politicamente inadmissível, a que foi dada pouca (ou nenhuma...) relevância, quer pela imprensa, quer pelos nossos políticos em campanha.

Por razões seguramente muito nobres, o Estado Português resolveu apoiar para tão alto cargo de cultura o egípcio
Farouk Hosni, um homem polémico que prometeu queimar livros da biblioteca de Alexandria e é conhecido por ser um defensor da censura. Uma escolha no mínimo discutível que não foi devidamente justificada.

Mas a recusa do
nosso embaixador na UNESCO, Manuel Maria Carrilho, em votar no Ministro da Cultura do Egipto há 22 anos (!...), preferindo a búlgara Irina Bokova, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros e actual embaixadora da Bulgária em França, no Mónaco e na própria UNESCO, que acabou por ser eleita e Portugal representado por um outro funcionário, é que é inadmissível.

Como é possível um embaixador recusar-se a acatar uma orientação do Estado Português?

Ninguém entende a opção do Governo Português e poder-se-á dizer que se tratou para Carrilho de uma questão de consciência e, até, que a razão estava do seu lado.

Mas um embaixador representa (é...) o Estado fora de fronteiras. E o Estado não pode ter duas cabeças, duas sentenças.

Tratando-se de uma matéria da maior relevância, uma matéria de fundo que se prende com a escolha da liderança da própria organização, e sendo a sua escolha para o cargo, uma escolha "política", se não concordava com a opção de Portugal, que representa, só restava a Carrilho a demissão. O que não fez.

Ao desautorizado Estado Português (leia-se Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Cultura, Primeiro Ministro...) só resta agora demiti-lo.

Obviamente.

Por razões políticas e de autoridade evidentes.

E por uma muito simples: que confiança terá Portugal e o Estado Português no futuro no embaixador Manuel Maria Carrilho?

22 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade


Para homenagear o homem que "libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra", foi lançado um site, com informações sobre a sua vida e obra.
Basta clicar e
navegar... é bom...muito bom...

Amar
(1960 - ANTOLOGIA POÉTICA)

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)

Cidades felizes

O Rio de Janeiro lidera a lista das dez cidades mais felizes do mundo, segundo uma lista divulgada este mês pela "Forbes".
O segundo lugar é de Sydney, o terceiro de Barcelona, seguida pela capital holandesa, Amsterdão, depois Melbourne, Madrid, São Francisco, Roma, Paris e Buenos Aires.

Das dez cidades, 5 são europeias e duas espanholas...

21 de setembro de 2009

Porsches...


Na próxima sexta-feira tem início a primeira edição da Porsche Parade Itália. É em Riccione, na Riviera Adriática, perto de Bolonha e termina domingo de manhã, permitindo assim regressar ainda a tempo de votar...
Prevê-se a participação de 250 carros da casa de Estocolmo vindos de toda a Europa e um evento único.
A não perder para os entusiastas da velocidade, da mobilidade e da Porsche. E um óptimo pretexto para conhecer uma região fantástica.

(não resisti...)

20 de setembro de 2009

Av. Santos e Castro - atrasos e desculpas

.
(Av. Santos e Castro a vermelho e Eixo N/S a azul)
imagem do Movimento Cívico Viver na Alta de Lisboa


A Av. Santos e Castro é uma infraestrutura rodoviária essencial para Lisboa, permitindo a circulação entre a 2ª circular e o Eixo Norte-Sul, fazendo depois ligação à CRIL, o que possibilita uma alternativa bastante mais fluida que a Calçada de Carriche. Mas é também fundamental para diminuir a utilização das vias internas da Alta de Lisboa.

Com um comprimento de 3,6 Km e três faixas de rodagem para cada lado, encontra-se junto ao aeroporto, dispõe de nós desnivelados, é iluminada a partir do separador central e os passeios, com 2,5 metros de largura, são revestidos em calçada de vidraço, mantendo o estilo típico das calçadas de Lisboa.

Depois de muitos anos de impasses e discussões sobre qual seria o seu traçado (se iria ter duas ou três faixas...), começou finalmente a ser construída no mandato de Pedro Santana Lopes, em 2004, depois de elaborado o projecto, aprovada a declaração de utilidade pública e adquiridas muitas parcelas de terreno que pertenciam a privados e ao aeroporto.

As obras avançaram rapidamente e ficou quase construída. Mas há anos que está parada. Tem candeeiros, separadores, passeios, placas de sinalização, pinturas. Está quase... pronta. Mas falta terminar.

Quando António Costa chegou à Câmara de Lisboa decidiu suspender a execução da Porta Sul, que é uma grande rotunda junto à Segunda Circular, por detrás do Hospital Júlio de Matos, onde a Av. Santos e Castro vai desaguar e que estava a começar a ser construída, decidindo voltar a estudar o projecto e reiniciando todo o processo, que também tinha ficado aprovado com Pedro Santana Lopes, além de igualmente ter suspendido as negociações que havia com os privados ainda detentores de alguns terrenos.

Desde então, praticamente nada foi feito para melhorar a vida das cerca de 30.000 pessoas que já habitam a Alta de Lisboa e que assim continuam a enfrentar todos os dias filas intermináveis de trânsito. Além de se ter prejudicado em muito o desenvolvimento, a valorização e a atractividade da zona.

Foram feitas exposições à Câmara, recolhidos abaixo-assinados, escritos posts nos principais blogs, colocadas questões pelos munícipes, mas de nada adiantaram. Era preciso tempo... Mais estudos... Melhores soluções...

No entanto, agora, em campanha, António Costa resolveu responder ao mais importante movimento de cidadãos da Alta de Lisboa, o "Viver", conforme se pode ver aqui.

Mas a resposta de António Costa sobre o porquê dos atrasos da Av. Eng. Santos e Castro revolta qualquer pessoa ou organização da Alta de Lisboa que tenha tentado interagir com a CML nos últimos 2 anos e que sempre esbarrou na indefinição, além de pretender explicar o inexplicável, recorrendo à falta de rigor e à falta de verdade, invocando para isso um conjunto de falsos argumentos e de coxas justificações para tentar explicar porque... não fez.

Nos 2 últimos anos, a CML não adquiriu as parcelas em falta e optou por mais estudos e soluções provisórias em vez de decisões definitivas, atrasando ainda mais a Alta de Lisboa. Se tivesse respeitado as opções e decisões anteriores, que cumpriam totalmente a legalidade e eram decisivas e oportunas, em vez de procurar encontrar desculpas e argumentos, a Av. Santos e Castro já estaria concluída.

É isso que se espera de um decisor. É assim que se avança. É assim que se honra os compromissos e respeita os cidadãos.

19 de setembro de 2009

Um passo em frente

O grande teste para as nossas convicções e julgamentos sobre os outros e, até, sobre nós próprios, é muitas vezes o teste da ocasião. Costuma dizer-se que a "ocasião faz o ladrão". E muitas vezes é perante um caso concreto, a necessidade de tomar uma decisão, uma experiência, que "cai a máscara" e as coisas, as personalidades, os instintos se revelam.

É muito fácil debitar opiniões e grandes doutrinas, defender em teoria modelos e comportamentos, criticar os outros por fazerem de determinada forma. Na política, nos nossos empregos, na amizade, na vida.

Mas, mais dia menos dia, todos somos postos à prova e surge a ocasião para provar de que "raça" somos feitos. E muitas e muitas vezes assistimos à tentação de renegar tudo o que foi dito e ajuizado sobre um tema ou alguém. E vemos negar o que precipitadamente, se disse. E até assistimos, nalguns casos, aos críticos impolutos passarem para o lado dos que anteriormente criticavam. Por ser mais fácil, mais cómodo, mais conveniente.

E aí aparecem os argumentos, as desculpas, as justificações, os alibis, para sustentar o que antes se dizia ou pensava.

É precisamente a dificuldade, a necessidade de optar, de escolher, de resistir, de permanecer firme, que revela a grandiosidade das convicções e do carácter. E é exactamente por isso que ficamos suspensos de ver agir, num determinado momento em que é preciso escolher, os que nas nossas vidas nos servem de referência.

A vida é por vezes dura. Muito dura. Às vezes, até, cruel.

E por isso, ao longo dos anos, vamos tornando-nos mais prudentes, mais cautelosos, mais selectivos nas amizades, nos amores, nas escolhas profissionais e políticas que fazemos. Vamos decantando a nossa vida, eliminando o que nos desilude.

Mas quando vemos alguém manter-se firme, alguém decidir, escolher, optar, agir correctamente num caso difícil, não pré-ajuizar sem bases, agir na prática como defende em tese, renovamos o nosso orgulho e percebemos o quanto vale a pena acreditar nos que, apesar das circunstâncias, assim agem. É estimulante ver alguém ir à luta, correndo riscos, expondo-se.

Por vezes, nesses testes da vida, nesses acontecimentos que põem à prova os princípios de cada um, vemos caír, quase sem luta, aqueles com quem contávamos, em quem acreditávamos. E desiludimo-nos. Com os amigos, com os colegas, com os políticos, com os nossos heróis...

Por isso, com defeitos e qualidades, com decisões certas e erradas, com mais ou menos certeza, com mais ou menos glória, cada vez estou mais convencido que o mais importante é firmeza nas convicções, força de carácter, capacidade de decisão e sobretudo ausência de desculpabilizações para não fazer, para não agir.

É que, se assim não for, se as justificações servirem de pretexto e forem aceites, deixando passar incólume quem falhou, essa pequena vitória será injusta e significará um passo atrás.

Numa altura em que tanta gente se desilude com a política, em que há tantos jovens sem utopia política, que não se revê em nenhum político, em que há tão poucos heróis, é preciso perceber o que é essencial e o que é acessório e quem é mais sincero, mais verdadeiro, mais forte, mais convicto, com mais carácter.

Talvez por isso, o mundo se entusiasmou tanto com Obama. Em Portugal, em breve escolheremos quem pensamos ser melhor para o País e para a nossa cidade. É boa altura para ser coerente. E dar um passo em frente.

1 ano Urbano

17 de setembro de 2009

Durão Barroso


Durão Barroso foi reconduzido na presidência da Comissão Europeia. Numa votação concorrida no Parlamento Europeu (718 em 736 eurodeputados), Barroso obteve 382 votos a favor, 219 contra e 117 abstenções. O que traduz um apoio de 53 por cento.
A votação de ontem permite-lhe cumprir os requisitos do Tratado de Nice, ainda em vigor, segundo o qual o presidente da Comissão precisa de maioria relativa dos votantes -360 votos neste caso - para ser eleito, e do Tratado de Lisboa, que poderá entrar em vigor até ao fim do ano se os irlandeses o ratificarem no referendo de 2 de Outubro, que exige uma maioria absoluta dos eurodeputados (369 votos em 736).
Entre os socialistas, Durão Barroso contou com o voto favorável de seis portugueses (a excepção foi Ana Gomes) e 21 espanhóis.
Uma eleição muito importante para Portugal, que honra o nosso País e prestigia o percurso profissional e pessoal de Durão Barroso.

15 de setembro de 2009

Colombo na The New Yorker



A próxima capa da imperdível The New Yorker vai ser assinada, pela segunda vez, pelo designer e ilustrador português Jorge Colombo, reproduzindo uma imagem desenhada num iPhone através da aplicação "Brushes" (pincéis), em que o visor se transforma numa tela e o pincel é o dedo do utilizador. O resultado são imagens digitais que se assemelham a uma pintura impressionista.
Jorge Colombo nasceu em Lisboa em 1963, mas vive há vinte anos nos Estados Unidos e há onze em Nova Iorque, que tem sido o cenário eleito para dezenas de desenhos, centrados em pormenores quotidianos de uma cidade com uma dinâmica única.

14 de setembro de 2009

...


“Estava numa posição difícil. Não tinha nada a perder, acho eu...”, Roger Federer após a meia-final do US Open que venceu.

13 de setembro de 2009

Os jovens e a política

Debate interessante entre José Sócrates e Manuel Ferreira Leite. Cada um conseguindo manter o seu eleitorado. Um esteve melhor nuns pontos, o outro, noutros. Ambos foram iguais a si mesmos. Com tudo o que isso tem de positivo e de negativo. Foi um debate correcto e necessário. Num cenário de aparente empate técnico que há um ano era impensável, pois o PS tinha cerca de 10% de vantagem nas sondagens.
Mas seguramente não haverá muitos eleitores, que estando indecisos ou que pensavam não votar, terão decidido mudar de opinião depois deste último debate.
E desse ponto de vista o debate não entusiasmou e não terá sido decisivo.
Nem este, nem nenhum em geral. O que poderá ter influenciado mais uma tomada de decisão, mesmo assim, terá sido o de Sócrates e de Louça. Mas creio que nem mesmo esse.
Nas próximas eleições legislativas vai haver 700 mil novos eleitores nos cadernos eleitorais, 98% dos quais abaixo dos 24 anos.
E não se tem visto um grande esforço de nenhuma força política, e em particular de Sócrates e de Ferreira Leite, para atrair este novo eleitorado.
Nem o BE, que tem sempre essa preocupação muito clara nas suas propostas, o terá conseguido depois do debate de Louça com Sócrates.
Os 700 mil novos eleitores correspondem a 400 mil jovens que entretanto alcançaram a idade mínima para votar e mais 300 mil que foram recenseados automaticamente através do novo cartão do cidadão, e destes, 288 mil têm menos de 24 anos.
As próximas legislativas serão assim um óptimo teste para confirmar, ou não, o divórcio cada vez maior entre os mais jovens e a política. E aparentemente ele manter-se-á.
Por responsabilidade dos políticos.
Os números mais recentes foram apurados em 2008 pelo estudo "Os jovens e a política", encomendado pelo Presidente da República e ilustram bem que as gerações mais novas lideram a insatisfação geral da sociedade com a política. Mais de 23% das pessoas com menos de 24 anos não se interessam "nada" pela política, nunca votando, e 49,2% respondem que o entusiasmo é "pouco".
É certo que os jovens são uma audiência difícil, pois estão menos inseridos na vida activa, estão em muitos casos ainda fora do mercado de trabalho e do pagamento de impostos, têm cada vez menos filhos e têm, em geral, a percepção de que não há grandes diferenças no discurso político. Mas os políticos, como se viu no debate "decisivo", têm mesmo um discurso pouco direccionado para os jovens. Pouco entusiasmante. Muito cinzento... Muito direccionado para quem já vota.
Mantendo-se com isto o fosso entre os jovens e a política e entre gerações.
Recorde-se que a idade média dos 230 deputados que cessam funções é de 50 anos e em relação a ministros e secretários de Estado é de 53 anos. E pelo que se conhece dos candidatos a deputados e dos programas apresentados e, até, do próprio discurso político, isso não mudará na próxima legislatura.
O que infelizmente, tudo somado, não entusiasmará estes novos eleitores. Não entusiasmará os jovens para a política. Dificultará as decisões do eleitorado. E tornará sempre muito falíveis quaisquer estudos e até sondagens sobre opções e intenções de voto.
Com isso, só beneficiando a abstenção e a falta de motivação e de confiança. Não a política e não o País.

12 de setembro de 2009

Monsanto

Uma das melhores coisas que aconteceu em Lisboa nos últimos anos, foi a recuperação de Monsanto e a sua aproximação aos lisboetas.
As medidas para retirar a prostituição, o "novo" parque infantil do Alvito, o fecho ao trânsito de algumas zonas, o policiamento, transformaram Monsanto num local mais aprazível, mais atractivo, mais convidativo, com mais gente. Foi uma das boas medidas que genericamente se atribui ao mandato de Pedro Santana Lopes.
Há muita coisa a fazer ainda no local, como a recuperação do Restaurante Panorâmico, que falámos aqui, mas indiscutivelmente Monsanto melhorou, nessa altura.
A ligação por ciclovia, que está em curso, também constitui uma medida que visa aproximar os lisboetas do seu maior parque e, nesse sentido, deve ser destacada.
É por isso que ninguém entende a construção de uma subestação eléctrica pela REN (Redes Energéticas Nacionais), numa área de 5.305 metros quadrados (!) que, nomeadamente, vai obrigar ao abate de 200 árvores.
É um exemplo claro de uma medida negativa, absurda e de legalidade duvidosa, que tem motivado fortes criticas e, até, uma queixa da associação "Plataforma por Monsanto", que reúne várias organizações ambientalistas, ao Comissário Europeu para o Ambiente, contra a suspensão do Plano Director Municipal de Lisboa.
A suspensão do PDM, por um período de dois anos prorrogável por mais um, que visa permitir a execução da obra, foi determinada em Junho pelo Governo, apesar da Câmara Municipal de Lisboa ter chumbado a proposta, com os votos contra de toda a oposição, e a favor... do PS e de José Sá Fernandes.
Ou seja, tentou-se, através do actual executivo camarário, o recurso à suspensão do PDM para permitir uma construção num parque florestal. A medida foi chumbada. Mas, o Governo foi em frente e declarou a utilidade pública da transferência da parcela de terreno em causa do domínio municipal para o Estado e autorizou a posse administrativa da mesma.
O chumbo da maioria dos vereadores também não impediu a assinatura, em Agosto, de um Protocolo, entre a Câmara, representada pelo seu presidente, António Costa, e a REN, representada pelo presidente do Conselho de Administração, José Penedos, no qual se estipula que a escritura de transferência de propriedade deverá ser efectuada "no prazo máximo de 90 dias", fixando-se em 1,4 milhões de euros o valor a pagar "para minimização dos impactos causados sobre o Parque Florestal de Monsanto, como compensação dos prejuízos directos e indirectos causados com a construção desta infra-estrutura, nomeadamente no que diz respeito ao corte de árvores necessário".
Valor esse que será pago "em espécie, em execução de obras a definir pela CML"...
Acresce, que se desconhece qualquer estudo de impacte ambiental e qualquer estudo de alternativas credíveis, o que, para além de tudo o mais, configurará quase seguramente uma grosseira violação da "Lei de Bases da Política Florestal".
Mas o mais grave e fortemente condenável é o recurso à suspensão do PDM. Recorrer-se à suspensão temporária de uma norma jurídica deve ser uma medida de gestão excepcional, muito rara e muito ponderada. Significa que durante um período de tempo, não vai haver uma determinada regra ou conjunto de regras. Não vai haver lei. Permitindo-se fazer algo que num momento anterior... era ilegal.
O actual executivo camarário tem recorrido, por diversas vezes, a este mecanismo por forma a autorizar construções que, numa situação normal, sem suspensão da lei, não poderiam ser realizadas.
É um procedimento criticável.
Ao invés de terminar a revisão do PDM, iniciada no mandato de Pedro Santana Lopes, opta por recorrer reiteradamente à sua suspensão. Não se entende.
Se se considera que o PDM está errado, (e poderá estar, ou não...) o melhor e mais sensato é alterá-lo. Não suspendê-lo.
Da mesma forma, é fortemente condenável o recurso pelo Governo ao mesmo mecanismo, e depois da Câmara o ter inviabilizado. É a velha máxima: se não se consegue a bem, consegue-se a mal.
Perante esta clara afronta à gestão municipal e perante uma medida de legalidade, no mínimo, muito duvidosa, o que fez a Câmara de Lisboa para travá-la?
Nada...
Apesar dos serviços jurídicos da Câmara terem entendido que a construção seria ilegal, por violação da Lei de Bases da Política Florestal, concluíram (!) que a Câmara de Lisboa não teria bases para avançar com uma providência cautelar, para travar a subestação eléctrica, porque os serviços camarários ouvidos, incluindo a Divisão de Matas, se pronunciaram favoravelmente, pelo que não seria possível provar em juízo a lesão ao Parque Florestal de Monsanto.
Extraordinário...
A medida é negativa, sacrifica 200 árvores, foi chumbada pela Câmara, demonstra uma enorme falta de respeito pelo poder autárquico, pela vontade da maioria dos eleitos na CML e pelo lisboetas, é ilegal, mas... Nada. Celebra-se um Protocolo (em Agosto...) com condições muito discutíveis e segue-se em frente.
O que pensará Helena Roseta e os Cidadãos por Lisboa de tudo isto, o que pensará o Comissário Europeu a quem foi dirigida a queixa, e sobretudo, o que pensarão os lisboetas?

10 de setembro de 2009

S.O.S.



(fotos Lisboa SOS)

Uma excelente causa a apoiar esta: Capela de Santo Amaro: uma causa Lisboa SOS.
A lindíssima Capela do século XVI está no estado que se pode ver nesse excelente blog sobre Lisboa. A incúria e o abandono a que a foi deixada envergonha-nos a todos e envergonha a nossa Cidade.

baby I'm a fool



Melody Mardot

9 de setembro de 2009

Breves

- Gostei do novo Portal da Cultura que pode ser visitado em www.culturaonline.pt.

Parabéns ao Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, que depois da boa ideia do cheque obra, que permitirá recuperar o nosso património, nomeadamente, o Palácio de Queluz, a Torre de Belém, o Museu de Arte de Antiga e as muralhas de Evoramonte, com a afectação de uma percentagem do valor das empreitadas públicas, termina o seu mandato de dois anos em grande, depois de algumas intervenções menos conseguidas.
De acordo com o programa cheque-obra, as empresas às quais o Estado ou um concessionário público adjudique uma obra pública de valor igual ou superior a €2.500.000,00, obrigam-se a prestar, em obra, um valor equivalente a 1% do preço total dessa empreitada, num projecto de recuperação de património classificado.
O portal é esteticamente agradável, abrangente, tem aspectos inovadores e alguns muito interessantes como as visitas virtuais.
Duas medidas de importância diferente, mas muito positivas.

- Gostei do debate de ontem à noite. Vivo, estimulante, com força, ao ataque. Com um José Sócrates bem preparado, irónico, demolidor. Conseguindo pôr em evidencia a demagogia, lirismo e inexequibilidade de grande parte das medidas do BE. E passando por cima dos assuntos que lhe são mais prejudiciais como o Terminal de Contentores. Francisco Louça procurou explicar-se muito, perdendo tempo, ritmo e força. Ficou claro que se o BE algum dia for Governo o País ficará muito pior.
Um excelente debate político. Para variar.

- Gostei de saber que hoje, praticamente à mesma hora do jogo da selecção contra a Hungria, Pedro Santana Lopes apresenta no Clube Nacional de Natação, na Rua de S. Bento, o seu Programa para a Mobilidade, Transportes e Estacionamento para Lisboa. Uma boa ideia. Original e corajosa. Que desperta o interesse por conhecer o Programa.
Lisboa bem precisa de um bom programa para esta área.

8 de setembro de 2009

Literacia

Cerca de 75 milhões de crianças em todo o mundo continuam sem acesso ao ensino. Em Portugal, nove em cada cem portugueses continuam sem saber ler nem escrever, apesar de nos últimos dez anos o número ter baixado ligeiramente. Mas os dados conhecidos continuam a ser impressionantes para um país europeu. E se comparada com os países nórdicos, a realidade ainda é mais chocante.

O dia 8 de Setembro tem sido designado como o Dia Internacional da Literacia. Associada a esta comemoração, a Organização das Nações Unidas decidiu, em 2003, instituir a Década da Literacia, que está a decorrer até 2012. Estas comemorações têm como objectivo salientar a importância da literacia na vida das pessoas e das sociedades.
De acordo com as definições mais modernas, a literacia é a capacidade para identificar, compreender, interpretar, criar, comunicar e usar as novas tecnologias, de acordo com os diversos contextos, envolvendo um processo contínuo de aprendizagem que capacita o indivíduo a alcançar os seus objectivos, a desenvolver o seu conhecimento, de modo a poder participar de forma completa na sociedade.
A literacia é um dos recursos mais importantes de uma sociedade. Hoje é, pois, um bom dia para se reflectir sobre a importância da leitura. De como é possível melhorar as estatísticas que nos envergonham.
Um bom dia para procurar compreender os erros. Para reconhecer que a promoção da leitura é do interesse de todos enquanto parte essencial de um esforço em direcção à troca de conhecimentos num mundo globalizado.
E que há pequenas coisas que podem ser feitas e que significam muito. E que não se percebe porque não são uma realidade.
Dois exemplos: o primeiro, é o reaproveitamento dos manuais escolares.
Todos os anos, a compra dos manuais escolares, nesta altura, constitui para as famílias portuguesas um pesadelo. São livros, livros e mais livros.
Apesar do aumento do número de famílias abrangido pela acção social escolar, a verdade é que a maioria enfrenta grandes dificuldades para fazer face ao custo do material escolar, que todos os anos aumentam de preço bem acima da inflação. Este ano, por exemplo, num cenário de taxa de inflação nula, o agravamento dos preços pode ir até aos 5%. Há, até, bancos com linhas de crédito especiais para a aquisição de material escolar.
Porque não, então, promover a reutilização dos manuais escolares, contribuindo para ajudar as famílias a resolverem um problema concreto e, em simultâneo, pedagogicamente incutindo nos jovens a necessidade de pouparem e combaterem o desperdício.
Antigamente era assim. Havia a preocupação de os irmãos herdarem os livros dos irmãos mais velhos. Havia a preocupação de preservar e poupar os livros porque a sua utilidade prolongava-se por mais de um ano lectivo.
Hoje não é assim, damo-nos ao luxo de gastar e de desperdiçar. Sendo raros os casos de reaproveitamento de livros.
O segundo exemplo: é a criação de mais bibliotecas itenerantes. Seria uma forma relativamente barata e bastante eficaz de completar a oferta das bibliotecas municipais.
Em Lisboa, por exemplo, existem cerca de uma dúzia de bibliotecas municipais. Algumas a precisar urgentemente de obras, como a de Alvalade. E nos últimos anos não surgiu nenhuma nova, de raiz. A última terá sido a Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras, que constitui um caso de sucesso em Lisboa. Mas foram paradas, por este executivo camarário, as iniciativas e os projectos para a Biblioteca de Alvalade e para a nova Biblioteca e Arquivo Municipal Central em Chelas, de que falámos aqui, que constituiria seguramente um novo pólo cultural numa zona de Lisboa a precisar de uma forte e determinada intervenção.
As bibliotecas iterantes poderiam servir de pólo de atracção, fomentando a troca de livros através da proximidade. Uma verdadeira política de bairros (como agora tanto se fala...) com bons hábitos de leitura.

Tem sido feito um excelente esforço pelo
Plano Nacional de Leitura e em concreto por Isabel Alçada, para inverter os hábitos de leitura. Mas há ainda muito a fazer. Basta pensar no exemplo da capital do País. A última biblioteca nova é de 2003 e projectos de novas e modernas bibliotecas que podiam dinamizar os hábitos de leitura foram interrompidos. Diz muito.