30 de novembro de 2009

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um mês depois...

António Barreto


já tem uns meses, mas vale a pena reler um pensamento lúcido, certeiro, independente, no jornal i :


"Os portugueses querem o máximo, simplesmente não são capazes de fazer o máximo: não têm organização, nem capital, nem empresas, nem experiência, nem treino."

"Mas comparando com países que tiveram recentemente de fazer profundíssimas reformas, como a República Checa, a Polónia, a Hungria, a Eslovénia, dou-me conta de que estão a ir mais depressa e melhor que nós. Estão mais consolidados e, tendo menos anos de democracia, parece que têm mais. Têm melhor cultura, melhor formação e usam muito melhor que nós os meios que têm".

"Parece-me óbvio que há uma falta de empresários, de capitalistas. Será um problema ancestral? Vem da nossa maneira passada de viver e de gastar? Dos desperdícios? Do facto de os ricos portugueses terem vivido à sombra do Estado durante 200, 300 ou 400 anos? De o Estado ter ocupado tudo desde os Descobrimentos? Não quero ir por aí, mas o resultado é este. Há poucos empresários, poucos capitalistas com capitais, as elites são fracas e têm uma noção medíocre do serviço público. É raríssimo encontrar ricos, poderosos, famílias antigas, com um sentimento forte do contributo que podem dar à sociedade."

(...) Mas a nossa justiça está hoje refém, capturada (...) pelos grandes grupos profissionais: o dos magistrados, dos procuradores e dos advogados, que são quem ordena e quem comanda a justiça, os operativos, os agentes. Não sei como lhes chame, mas qualquer nome é bom. Agora até já há sindicatos, que são uma espécie de infantaria avançada de cada um destes grupos. Há evidentemente centenas de juízes fantásticos. Sei que há, e é possível hoje fazer a diferença entre os 100 ou 200 tribunais que funcionam muitíssimo bem e os outros. Só que a sociedade portuguesa contemporânea está essencialmente nas grandes áreas metropolitanas, o resto é paisagem. Não é bem, mas conta muito menos. E o que se passa é que a sua vida privada, familiar, as sucessões, as heranças, os despejos, os contratos de trabalho, os requerimentos... tudo está hoje em causa porque não há justiça, não há recurso para nada nem para ninguém. Se quiser resolver um problema, recorre a quem? À justiça. Há 20 anos os magistrados vinham em primeiro lugar, era o grupo profissional que mais confiança merecia dos portugueses. Estão hoje em penúltimo lugar; abaixo só os deputados. É o grupo mais destituído da confiança dos portugueses. Os portugueses não confiam nos tribunais nem nos magistrados e isto é terrível, mina a alma, mina os sentimentos, mina o coração."

(..) Hoje estamos na "vida normalizada", em que os políticos fazem carreira e ela pode produzir pessoas interessantes, ou não. Não é uma vocação, é uma carreira. Diz-se que muitas pessoas competentes saíram da política mas fizeram-no porque dantes ela era uma vocação que se confundia com uma causa. Hoje há certamente pessoas capazes, o que têm é uma maneira muito diferente de fazer política."

"Porque se fala tanto, há cinco ou seis anos, de um crescendo da propaganda política? Porque a vontade não é que as pessoas participem, mas que se limitem a subscrever, e passivamente. Se se quiser participação, há que respeitar as pessoas, dando-lhes conhecimento, informação e manifestando respeito pelas opiniões contrárias. Participar é isso. Quando não se quer que as pessoas participem faz-se propaganda: exigindo obediência ou impassibilidade."

"(...) Em Portugal quase toda a gente depende do Estado, do governo, das instituições públicas oficiais, dos superiores, dos empregadores. Não há verdadeiros focos de independência. Depende-se de muita coisa: do alvará, de ter autorização, de ser aceite, da boa palavrinha do bom secretário de Estado que diz ao bom banqueiro que arranje uns bons dinheirinhos para fazer o investimento. A dependência é enorme. Não é asfixia, uma vez mais, é dependência. As pessoas têm receio pelo seu emprego, pelo seu trabalho, pelo trabalho da família. Conheço algumas que até têm receio de falar..."

"Há 20 anos havia mais independência em Portugal, nas associações, nas empresas... Durante o marcelismo, por exemplo, não havia mais independência mas as pessoas estavam mais dispostas a correr riscos e nessa altura eles eram bem mais pesados: metia deportação, cadeia, polícia. Hoje há muito menos disponibilidade para o risco porque a dependência é muito, muito forte."

"(...) Entre 1960 e 1995 houve uma verdadeira cavalgada: fomos o país que mais cresceu e se desenvolveu na Europa, com uma mudança demográfica completa, outra nos costumes, algo de absolutamente fantástico! De repente chegámos a 90 ou 95 e percebemos que não tínhamos inovado nem criado muito... Fizemos auto-estradas - qualquer país com um cheque na mão as faz -, mas não fizemos novas empresas, novos projectos, novos produtos. E perdemos muito do que tínhamos: demos cabo da floresta, demos cabo da agricultura, demos cabo do mar. Três coisas imperdoáveis, três erros históricos. E não sei se ainda é possível voltar a prestar atenção à floresta, à agricultura, ao mar..."

" (...) Há coisas que se conseguiram: nas telecomunicações, na organização da banca, um bocadinho na universidade, outro bocadinho na ciência, numa ou outra indústria, na distribuição dos produtos de consumo diário (que está muito bem organizada). Mas são as excepções. No resto, importamos 4/5 do que comemos. Hoje, no produto nacional, 3% ou 4% são agricultura e alimentação, 20% ou 25% são indústria. Ou seja, produtos novos, feitos em Portugal, são 30%, menos de um terço. Que vamos exportar daqui a dez anos? E daqui a 20? Serviços? Quais? Financeiros, bancários, serviços de informações, serviços de quê? Estamos a quilómetros e quilómetros de distância da capacidade de exportação de serviços da Espanha, de Inglaterra, da França, dos Estados Unidos... Novas coisas, novas indústrias, novos projectos, novos planos, novas ideias, fizemos muito pouco."

"(...) Se não houvesse a Europa e se ainda houvesse Forças Armadas, já teríamos tido golpes de Estado. Estamos à beira de iniciar um percurso para a irrelevância, talvez o desaparecimento, a pobreza certamente. Duas coisas são necessárias para evitar isso. Por um lado, a consciência clara das dificuldades, a noção do endividamento e a certeza de que este caminho está errado. Por outro, a opinião pública consciente. Os poderes só receiam uma coisa: a opinião dos homens livres."

Referências


São, infelizmente, cada vez mais raros, advogados e bastonários com a verticalidade, dedicação, respeito pelos Colegas e sentido de Justiça, de homens como Ângelo d' Almeida Ribeiro, com quem tive o privilégio de privar muito de perto no começo da minha carreira, ou Joaquim Pires de Lima, que sempre me entusiasmou.

Por isso, é importante e justo este prémio.

29 de novembro de 2009

I























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"Tiro de novo a fotografia do envelope e ela fixa-se logo em mais realidade na ficção da sua imagem. Está de perfil como sempre a vejo e olho-a tão intensamente. Temo que ela se volte e vá falar – e que é que iria dizer? O nosso encontro é no eterno, meto de novo a fotografia no envelope. Nunca a amei assim. No absoluto da imaginação. No vazio da inexistência. Na pureza do existir que é igual ao seu nada. No amor em si. E a ternura que me toma é tão. Ternura de nada. Absurda estúpida. Na ficção interna, virada para dentro de eu ser terno. E a sua imagem aérea. E a reconstrução súbita de tudo quanto nela aconteceu."

Vergílio Ferreira

Escutas

no meio de tanta desinformação, de tantas opiniões jurídicas, de tanto disparate, que nunca mais acabam, sabe bem reler alguém lúcido, conhecedor e objectivo:


1. 0 país vem sendo sacudido por um terramoto jurídico-político, com epicentro nos problemas normativos e semânticos suscitados pelo regime das escutas telefónicas. Uma discussão em que se fez ouvir um coro incontável de vozes, vindas de todos os azimutes. E todas a oferecer vias hermenêuticas de superação dos problemas. E a reivindicar para si o fio de Ariana capaz de nos fazer sair do labirinto. Foi como se, de repente, Portugal se tivesse convertido numa imensa Escola de Direito.
Mas o lastro que as ondas vão deixando na praia está longe de ser gratificante. Mais do que uma experiência de academia, fica-nos a sensação de um regresso a Babel: se é certo que quase todos falam do mesmo, quase ninguém diz a mesma coisa. Não sendo possível referenciar uma gramática comum, capaz de emprestar racionalidade ao debate e sugerir pontes de convergência intersubjectiva.
Se bem vemos as coisas, uma das causas deste “desastre hermenêutico”, com réplicas tão profundas como perturbadoras no plano político, ter-se-á ficado a dever ao facto de se terem perdido de vista as coisas mais simples. Que, por serem as mais lineares e aproblemáticas, poderiam valer como apoios seguros, a partir dos quais se lograria a progressão nas áreas mais minadas pelas dificuldades e desencontros.
É um exercício neste sentido, feito sobre a margem das coisas simples, que valerá a pena ensaiar.

2. Manda a verdade que se comece por sinalizar um primeiro dado: o problema ficou em grande medida a dever-se a uma pequena intervenção no Código de Processo Penal, operada em 2007. Que introduziu no diploma um preceito, filho espúrio do caso “Casa Pia”. E, por sobre tudo, um preceito atrabiliário, obscuro, desnecessário e absurdo. Logo porquanto, a considerar-se merecida e adequada uma certa margem de prerrogativa processual para titulares de órgãos de soberania, então nada justificaria que ela se circunscrevesse às escutas. E se silenciassem outros meios, nomeadamente outros meios ocultos de investigação, reconhecidamente mais invasivos e com maior potencial de devassa (vg. gravações de conversas cara a cara, acções encobertas, etc.). A desnecessidade resulta do facto de, já antes de 2007, a lei portuguesa conter um equilibrado regime de privilégio para aquelas altas instâncias políticas. Já então se prescrevia que as funções de juiz de instrução fossem, em relação a elas, exercidas por um conselheiro do STJ. Assim, a Reforma de 2007 deixou atrás de si um exemplar quadro de complexidade. Nos processos instaurados contra aquelas altas figuras de Estado, há agora um normal juiz de instrução: um conselheiro que cumpre todas as funções de juiz de instrução, menos uma, precisamente a autorização e o controlo das escutas. Ao lado dele intervém um segundo e complementar juiz de instrução, o presidente do STJ, entrincheirado num círculo circunscrito de competência: só se ocupa das escutas. Isto não obstante os problemas das escutas serem, paradigmaticamente, actos de instrução; e, pior do que isso, não obstante aquele primeiro juiz de instrução ter competência para todos os demais actos de instrução, inclusivamente daqueles que contendem com os mais devastadores meios de devassa que podem atingir os mais eminentes representantes da soberania.
Manifestamente, o legislador (de 2007) não quis ajudar. Mesmo assim, nem tudo são sombras no quadro normativo ao nosso dispor. Importa, para tanto, tentar alcançar uma visão sistémica das coisas. E agarrar os tópicos mais consolidados e inquestionáveis, convertendo-os em premissas incontornáveis do discurso. E, por vias disso, fazer deles pontos de partida, lugares obrigatórios de passagem e de regresso, sempre que pareça que as sombras se adensam e as luzes se apagam.

3. A começar, uma escuta, autorizada por um juiz de instrução no respeito dos pressupostos materiais e procedimentais prescritos na lei, é, em definitivo e para todos os efeitos, uma escuta válida. Não há no céu - no céu talvez haja! - nem na terra, qualquer possibilidade jurídica de a converter em escuta inválida ou nula. Pode, naturalmente, ser mandada destruir, já que sobra sempre o poder dos factos ou o facto de os poderes poderem avançar à margem da lei ou contra a lei. Mas ela persistirá, irreversível e “irritantemente”, válida!
Sendo válida, o que pode e deve questionar-se é - coisa radicalmente distinta - o respectivo âmbito de valoração ou utilização. Aqui assoma uma outra e irredutível evidência: para além do processo de origem, ela pode ser utilizada em todos os demais processos, instaurados ou a instaurar e relativos aos factos que ela permitiu pôr a descoberto, embora não directamente procurados (”conhecimentos fortuitos”). Isto se - e só se - estes conhecimentos fortuitos se reportarem a crimes em relação aos quais também se poderiam empreender escutas. Sejam, noutros termos, “crimes do catálogo”.
De qualquer forma, e com isto se assinala uma outra evidência, a utilização/valoração das escutas no contexto e a título de conhecimentos fortuitos não depende da prévia autorização do juiz de instrução: nem do comum juiz de instrução que a lei oferece ao cidadão comum, nem do qualificado juiz de instrução que a mesma lei dispensa - em condições de total igualdade, descontada esta diferença no plano orgânico-institucional - aos titulares de órgãos de soberania. De forma sincopada: em matéria de conhecimentos fortuitos, cidadão comum e órgãos de soberania estão, rigorosamente, na mesma situação. Nem um, nem outro gozam do potencial de garantia própria da intervenção prévia de um juiz de instrução, a autorizar as escutas.

4. Uma outra e complementar evidência soa assim: as escutas podem configurar, no contexto do processo para o qual foram autorizadas e levadas a cabo, um decisivo e insuprível meio de prova. E só por isso é que elas foram tempestivamente autorizadas e realizadas. Mas elas podem também configurar um poderoso e definitivo meio de defesa. Por isso é que, sem prejuízo de algumas situações aqui negligenciáveis, a lei impõe a sua conservação até ao trânsito em julgado. Nesta precisa medida e neste preciso campo, o domínio sobre as escutas pertence, por inteiro e em exclusivo, ao juiz de instrução do localizado processo de origem. Que, naturalmente, continua a correr os seus termos algures numa qualquer Pasárgada, mais ou menos distante de Lisboa. Um domínio que não é minimamente posto em causa pelas vicissitudes que, em Lisboa, venham a ocorrer ao nível de processos, instaurados ou não, aos titulares da sobrasnia. Não se imagina - horribile dictum - ver as autoridades superiores da organização judiciária a decretar a destruição de meios de prova que podem ser essenciais para a descoberta da verdade. Pior ainda se a destruição tiver também o efeito perverso de privar a defesa de decisivos meios de defesa. Por ser assim, uma vez recebidas as certidões ou cópias, falece àquelas superiores autoridades judiciárias, e nomeadamente ao presidente do STJ, legitimidade e competência para questionar a validade de escutas que, a seu tempo, foram validamente concebidas, geradas e dadas à luz. Não podem decretar retrospectivamente a sua nulidade. O que lhes cabe é tão-só sindicar se elas sustentam ou reforçam a consistência da suspeita de um eventual crime do catálogo imputável a um titular de órgão de soberania. E, nesse sentido e para esse efeito, questionar o seu âmbito de valoração ou utilização legítimas. E agir em conformidade. 0 que não podem é decretar a nulidade das escutas: porque nem as escutas são nulas, nem eles são taumaturgos. O que, no limite e em definitivo, não podem é tomar decisões (sobre as escutas) que projectem os seus efeitos sobre o processo originário, sediado, por hipótese, em Pasárgada, e sobre o qual não detêm competência.

5. É o que, de forma muito concentrada, nos propomos, por ora, sublinhar. Quisemos fazê-lo com distanciação e objectividade,
sine ira et studio. Mantendo a linha, o tom e a atitude de anos de investigação e ensino votados à matéria. E sem outro interesse que não o de um contributo, seguramente modesto, para a reafirmação e o triunfo da lei. Pela qual devemos bater-nos “como pelas muralhas da cidade” (Heraclito). E certos de que, também por esta via, se pode contribuir para o triunfo das instituições. E, reflexamente, para salvaguardar e reforçar o prestígio e a confiança nos titulares dos órgãos de soberania cujos caminhos possam, em qualquer lugar, cruzar-se com os da marcha da Justiça."

Manuel da Costa Andrade
Professor de Direito Penal na Universidade de Coimbra

28 de novembro de 2009

live on Mars

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O silêncio dos livros

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Horace Bristol [ Young Silk Worker Reading on a Break ] 1947

Descobri um blog bonito, aprazível, com uma construção de imagens cuidada, com muito bom gosto: O Silêncio dos Livros.

Estimulante.
É de Francisco Rogido, um brasileiro que trabalha na Biblioteca do Congresso, em Washington.

Muhammad Ali vs. Cleveland Williams

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ando a redescobrir o boxe...
o amador, o profissional, a solidão que o envolve, os fortes valores, as muitas regras que não nos apercebemos existirem, o enorme sacrifício

adoro esta fotografia de Neil Leifer tirada a 80 metros de altura na Houston Astrodome,
em 1966, ilustra bem o boxe

Muhammad Ali sempre foi forte, inteligente, carismático, uma inspiração para muitos
e dos poucos "boxers" que o mundo conheceu melhor


"My Ali vs. Liston KO picture is the one I will be remembered for, but for me the Ali vs. Williams picture will always be my best." - Neil Leifer

27 de novembro de 2009

Gemelli

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Para premiar um dia estimulante, um jantar no italiano Gemelli, na Rua de S. Bento, no primeiro andar do mercado municipal que, há anos, alojou o Restaurante Zutzu, de boa memória. O espaço é moderno, um pouco frio, incaracterístico. A música alta e de gosto duvidoso. A iluminação deficiente. A mesa era boa, junto à janela de onde se podia ver o jardim em frente ao Palácio de São Bento. Chovia.

Augusto Gemelli é um chefe da cozinha criativa de autor, italiano, de Milão, conhecido por ter garra e talento nas suas criações culinárias.
Não nos deixámos tentar pelos menus de degustação e preferimos escolher à lista, até porque decorria a quinzena dos cogumelos bravos e as propostas eram aliciantes.

A começar pão variado de excelente qualidade, azeite igualmente bom e pedaços de parmeggiano Grana Padano (não o reggiano...) que não deslumbrou.
Como entrada, provou-se a tempura de cogumelos “cantharellus” aos coentros com creme de mozzarella, que estava surpreendentemente salgada e sem grande imaginação.
Como "primi piatti", optou-se pelo “Risotto” de uva branca, avelãs e cubos de foie gras salteados, que estava bastante bom.
Dos "secondi piatti" elegeu-se roast-beef de lombo de javali e risoto falso de couve-flor e laranja. Sem muita graça, que não entusiasmou.

A carta de vinhos é muito boa, tendo a escolha recaído no excelente CARM AMICO 2003, do Douro, à base das castas Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca.

O serviço é de bom nível. Os preços dentro do patamar em que se enquadra o restaurante. Mas, em termos gerais, a experiência foi um pouco decepcionante, não convencendo. A cozinha italiana, que aprecio particularmente, é bem mais inspirada. E seguramente Augusto Gemelli deve saber fazer bem melhor.

A noite, apesar de tudo, terminou bem, animada e cúmplice.

26 de novembro de 2009

Guilherme d' Oliveira Martins


Toma hoje posse, para um novo mandato de 3 anos como Presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d' Oliveira Martins.

Num País, em que há cada vez menos protagonistas de qualidade, a destacarem-se pela positiva, ver alguém manter ao longo dos anos, independentemente das funções que desempenha, uma enorme serenidade, seriedade e independência, associadas a uma reconhecida competência, é qualquer coisa que deve ser registada com satisfação.

Oliveir
a Martins foi meu professor no 3.º ano da faculdade e habituei-me, desde essa altura, a vê-lo como uma pessoa simpática, competente, discreta, educada, sensata, aliando posições politicamente equilibradas, com uma concepção jurídica consistente.
Além disso, sempre apreciei a sua vertente mais cultural, nomeadamente, como responsável pelo Centro Nacional de Cultura, sucedendo bem a Helena Vaz da Silva.

Sinto, cada vez mais, uma enorme desconfiança em relação a muitos altos responsáveis do País que se perpetuam em lugares de topo, saltando de cargo em cargo, muitas vezes por serem (apenas) próximos do partido que ocupa o poder, seja ele qual for.
Sinto que Portugal tem demasiados responsáveis pouco empenhados, sem iniciativa, sem brilho, sem garra, brio e competência, comprometidos politicamente. Em cargos públicos e privados.
Sinto cansaço, como penso, muitos portugueses, de ver sempre os mesmos rostos, os mesmos intervenientes, as mesmas elites. Na política e na sociedade. Há anos e anos. Mas, a verdade é que a política atrai cada vez menos. É mal paga, sujeita a grande desgaste e mediatismo. É o que é... E a sociedade, essa, é cada vez menos empenhada, interventiva, animada, interessante.
O pensamento, a abordagem, o estudo, o relato da nossa sociedade é também, em geral, pouco estimulante e vivo.

Guilherme d' Oliveira Martins, enquanto Presidente do Tribunal de Contas, tem dignificado o cargo. Tem sido isento, competente, com posições tecnicamente bem sustentadas. Tem sido diferente de muitos. Uma garantia de isenção e rigor que sabe bem destacar e, infelizmente, é cada vez mais rara.

O fim?

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Fotografia sem data,
produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983


Durante o mês de Dezembro, vai realizar-se uma liquidação total dos "stocks" existentes na extinta Livraria Buchholz, na R. Duque de Palmela, também conhecida como Livraria Alemã, com livros a partir de 1 euro.

Depois, não se sabe.

25 de novembro de 2009

Outono

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Fotografia de Fernando Martinez Puzel
(Arquivo Municipal de Lisboa)


São tão impessoais os novos assadores de castanhas em aço inox. São assépticos, frios, iguais.
São a imagem do nosso País: sem estilo, sem diferenciação, sem personalidade, sem chama, sem alma, supostamente moderno, vanguardista, mas sempre pequeno, normativo, confuso, habilidoso, complexado.

Tenho saudades dos antigos homens das castanhas, dos tradicionais, dos improvisados, dos da Baixa ou do que estava em frente ao antigo cinema Monumental, das castanhas embrulhadas em jornais. De me apetecer comprar castanhas num e não noutro. Por qualquer razão. Porque aquele é que é.

O cheiro destes até me parece diferente.

24 de novembro de 2009

Espionagem política

Os investigadores, magistrados e delegados de Aveiro, aparentemente fizeram tudo bem feito, descobriram uma complexa teia de tráfego de influências, a prova foi de tal forma convincente que há já vários arguidos, conseguiram que não houvesse fugas para a imprensa, impossibilitando violações grosseiras do segredo de justiça - embora se estivesse em ano de eleições - só erraram no que diz respeito ao primeiro-ministro...
Estranho?

20 de novembro de 2009

Dois novos protagonistas

A União Europeia escolheu o seu primeiro presidente. É Herman Rompuy, primeiro-ministro da Bélgica, 62 anos, democrata cristão, católico, economista, bastante respeitado no seu país, conhecido por ser um exímio negociador, que fez com que a Bélgica conseguisse reduzir a sua enorme dívida pública para poder adoptar o euro.

A escolha de um político desconhecido para ser o líder europeu no cenário mundial, mostra que a França e a Alemanha, as principais potências do continente, não estão dispostas a abrir mão da sua capacidade de moldar a posição da UE em termos de política externa.

Sensação reforçada pela escolha para Alta Representante da UE para a política externa e segurança, da britânica Catherine Ashton, de 53 anos, muito próxima do primeiro-ministro Gordon Brown, actual comissária europeia de Comércio da Comissão Europeia, baronesa de Ashton de Upholland, membro do Partido Trabalhista e ex-presidente da Câmara dos Lordes, que ocupou vários cargos intermédios no Governo de Brown nos ministérios de Educação, Direitos Humanos, Justiça e Igualdade, mas quase não tem experiência em questões de política internacional.

Tony Blair teve, assim, de se retirar da disputa.

Beaujolais

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bej-noveaux2S.jpg

Como manda a tradição, o vinho
Beaujolais Nouveau já chegou às lojas. É um vinho tinto jovem, leve, para beber ligeiramente gelado ou à temperatura ambiente. Eu acabei de comprar a minha.

Tetro

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Estreia hoje, em Portugal, o mais recente filme de Francis Ford Coppola, Tetro, que conta a história da viagem de Bennie (Alden Ehrenreich) a Buenos Aires, tentando reencontrar o irmão desaparecido, Tetro (Vincent Gallo), uma referência e um modelo para si. Em Buenos Aires, depara-se, contudo, com uma realidade inesperada que o vai ajudar a encontrar-se, e ao mesmo tempo, contribuir para que Tetro também se encontre.

Durante o filme, descobrimos, tal como as personagens dos dois irmãos, a importância marcante que o pai, um famoso, carismático, egocêntrico e excêntrico maestro de origem argentina (klaus Maria Brandauer), teve nas suas vidas. Condicionando-as fortemente. Quase, irreversivelmente.

É um filme fotografado a preto e branco, digital, excelente, com uma óptima banda sonora e fantásticas interpretações. Inspirado, sensível, contido, profundo, quase mágico, do sempre fantástico Francis Ford Coppola.


19 de novembro de 2009

Nova fase


Em Bruxelas, os chefes de governo da UE procedem hoje à nomeação do primeiro Presidente permanente do Conselho Europeu, do Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança e do Secretário‑Geral do Conselho.

São três cargos essenciais na construção política europeia. Cargos importantes. Representativos. Sendo vários os candidatos, pois não foram conseguidos acordos de "bastidores". A especulação é muita em relação a quem vai ocupar esses três cargos. A expectativa imensa.

O ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, de 56 anos, pode ser o primeiro presidente da Europa. O que, pessoalmente, considero que seria estimulante.

O Tratado de Lisboa, que entra em vigor no próximo 1 de Dezembro, prevê a criação do cargo de Presidente da Europa, com um mandato de dois anos e meio e passível de uma reeleição. É uma nova fase do velho continente, numa altura em que os EUA igualmente vivem um novo período e diferentes políticas.

É um momento carregado de simbolismo e de importância.

18 de novembro de 2009

23 anos


Gosto da profundidade e da qualidade das fotografias de Kyle Ferino que tem apenas 23 anos. E gosto do site, simples e despretensioso.

ok ... ko

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Apesar de alegadamente estar "suspenso de funções", em virtude dos factos relacionados com a "Face Oculta", Armando Vara continua, segundo parece, a receber 30 mil Euros por mês e a manter-se na presidência do Millenium Angola.

Ao mesmo tempo, o país discute as escutas e o casamento de homossexuais. Distrai-se com a euforia benfiquista e a gripe A. Estranha o silêncio de Cavaco Silva e aceita resignado uma conjugação de forças que politicamente visa salvaguardar fortes interesses instalados.

Portugal continua a viver sob uma enorme, gigantesca e tentacular união de forças, que envolve jornalistas, fazedores de opinião, políticos, grandes grupos económicos - nomeadamente bancos e empresas de construção - responsáveis pelas ordens profissionais, sindicatos, institutos de sondagens, presidentes de entidades fiscalizadoras e reguladoras, presidentes de importantes instituições, as mais altas figuras da hierarquia judicial, que se situam todas no mesmo espectro político e pretendem manter o status quo, resistindo à mudança e opondo-se ferozmente a quem ouse alterar "o sistema". Quem ousa, é malhado e rapidamente posto K.O.

Aceito que pode parecer uma visão simplista e redutora do país. E politicamente não completamente isenta.

Mas quando todos os dias se tem conhecimento de factos que são vergonhosamente encobertos, escamoteados e desvalorizados com a imposição de uma agenda paralela de importância menor, quando todos os dias se tem notícia da "tragédia" dos nossos indicadores macro-económicos, que evidenciam que não se resolvem os verdadeiros problemas do país, que são enormes e que, ano após ano, década após década, se perpetuam, vem ao de cima, inevitavelmente, nalguns espíritos inconformados, como o meu, a ideia de que tudo isto não pode ser meramente coincidência. Afinal, não somos assim tão maus, tão atrasados, tão pequenos.

Ok... é, assumidamente, a tese (talvez gasta, mas saborosa) da teoria da conspiração.

Mas é que chega a ser escandalosa a nossa capacidade de não discutir o mais importante, de não reformar, mudar e modernizar o país, não definindo e executando uma estratégica política mobilizadora e eficaz que nos faça crescer como país e como nação. Passando nós, ao invés, o tempo todo, a discutir temas "fracturantes" e laterais face ao estado do país. O desemprego é o que é, o PIB o que se sabe, o crescimento inexistente e o nosso afastamento da Europa cada vez maior. Mas isso é "secundário"... Afinal, há tanta coisa "mais importante"...

Cada vez mais periféricos, cada vez mais longe, mas sempre felizes e contentes a manter tudo na mesma. Tudo o.k... tudo k.o...

E, em vez de se contrariar este estado de alma, de lutar contra o sistema, de denunciar os silêncios coniventes, há, cada vez mais gente, que desiste de resistir e adere à onda. É mais fácil, mais cómodo e mais útil. É quase inevitável...

Por tudo isto, não pretendo perder um minuto, a discutir o casamento de homossexuais e a possibilidade de adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Sou a favor. De ambas as situações. E não vejo necessidade de referendo sob o tema, embora considere que seria mais sensato.

E, daqui a uns tempos, quando se lançar a discussão sobre o não menos importante tema da poligamia, sobre a possibilidade de casamento de um homem com várias mulheres e de uma mulher com vários homens, um tema seguramente interessantíssimo e essencial ao país, também serei a favor.

Afinal, é tudo uma questão de tolerância e modernidade. E de não perder tempo em assuntos laterais, face às enormes dificuldades da vida de todos os dias. É que há tantas coisas mais importantes a fazer.

E em Lisboa?



17 de novembro de 2009

regresso




ao fim de vários meses, ao Chão do Prado, de que já se falou aqui.

o dia estava lindo, Bucelas convidativa, as videiras pujantes e o cheiro a Outono. Mafalda recebeu-nos, como sempre, com enorme simpatia e atenção, confirmando a óptima anfitriã que é. A comida estava perfeita. Primeiro, pão e azeitonas, depois uns ovos mexidos com farinheira muito saborosos e para completar uma alheira de excelente nível. Bebemos a habitual Colheita Tardia, um néctar deliciosamente estimulante. A rematar um pouco de gelado e café.

o almoço, num longo e preenchido dia, foi o intervalo perfeito e um excelente pretexto para matar saudades e fazer projectos para o futuro. Muitos.


Raro



"Posso ser criativa sem gastar um euro". Zélia Moraes, 26 anos, brasileira, vencedora para Portugal da medalha de prata no Festival de Publicidade de Cannes.

Bird Gehrl





Antony and the Johnsons

16 de novembro de 2009

Haja pudor II


O facto da autópsia já realizada ao feto de Portalegre concluir que terá havido morte súbita, demonstra que as "notícias" da manhã, relacionando a morte com a gripe A, eram precipitadas, demonstrando uma enorme falta de pudor, rigor e bom senso.

Estamos cansados de tanta incompetência ou má fé em tantas áreas. Estamos cansados de tantos erros repetidos, silêncios coniventes e solidariedades interesseiras.

Melhor, estou cansado!

Haja pudor


Os noticiários televisivos e os jornais on line, desde manhã bem cedo, "noticiam" que "Uma grávida de 34 semanas perdeu o bebé no sábado, três dias depois de ter sido vacinada contra a gripe A(H1N1)."

Onde está o bom senso? Por onde anda a Entidade Reguladora da Comunicação Social? Será que só o ex-Jornal da TVI de Moura Guedes é que é motivo de preocupação pela falta de rigor jornalístico?

Há dias, os media, durante 2 dias, antes de se conhecer o resultado preliminar da autópsia que apontaria para a existência prévia de uma cardiopatia,
anunciaram sensacionalista e precipitadamente que uma criança tinha morrido devido à gripe A. O que se veio a demonstrar com a autópsia não ser verdade.

Mas, o barulho mediático teve inevitavelmente como consequência o pânico generalizado durante uns dias.


Seria mais profissional, mais correcto e, até, mais decente, que também neste caso de hoje, os media esperassem pela autópsia antes de potenciarem suspeitas que, até ver, são perfeitamente infundadas.

Todo este fenómeno da gripe A tem contornos muito delicados, mas não tenho dúvidas que tem mostrado à evidência a incompetência, falta de profissionalismo e de bom senso, em geral, dos nossos media.

Haja pudor!

15 de novembro de 2009

domingo


o som da chuva, a vontade de ficar em casa, quente, tranquilo, com o mac, os meus filmes, livros de Direito para actualizar, revistas e jornais, um "croque-monsieur", acompanhado de um copo de Redoma, Reserva, 2008, um dos melhores brancos de Dirk Niepoort, de cor amarela palha, aroma intenso, a lembrar limão e laranja e ameixas, encorpado, pujante, equilibrado, com tudo.
como o dia. típico de domingo de outono. bommm.

Arquitectura de Norte Júnior

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impressiona-me a arquitectura deste grande arquitecto que marcou Lisboa no princípio do século XX, apaixona-me a sua obra, os detalhes, o bom gosto, a força.

são também obras suas de raiz ou parciais:

- Café A Brasileira, no Chiado - 1905
- Casa Museu Anastácio Gonçalves, na Av. 5 de Outubro, n.ºs 6-8 - Prémio Valmor de 1905
- Villa Sousa, na Alameda das Linhas de Torres, n.º 22 - Prémio Valmor de 1912
- Moradia na Av. Fontes Pereira de Melo, nº 28 - Prémio Valmor de 1914
- Edifício na Av. da Liberdade, nºs 206 a 218 - Prémio Valmor de 1915
- Edifício na Av. Duque de Ávila, n.ºs 28-30
- Pensão Tivoli - Hotel Liz, na Av. da liberdade, n.ºs 176-180 - Prémio Valmor de 1927, hoje conserva-se apenas a fachada, integrada no Hotel NH Liberdade
- Café Nicola, no Rossio - 1929

sobre a obra fantástica de Norte Júnior: "As Avenidas Novas de Lisboa, 1900-1930", Raquel Henriques da Silva, Lisboa 1986 (Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à FCSH/UNL, policopiada)

Lauren Bacall, The Big Sleep (1946, Howard Hawks)

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"She was worth a stare. She was trouble.
She was tall and rangy and strong-looking. She had a good mouth and a good chin. There was a sulky droop to her lips and the lower lip was full. She had a drink. She took a swallow from it and gave me a cool level stare over the rim of the glass."

Raymond Chandler, The Big Sleep


12 de novembro de 2009

Tentações


A caminho do almoço, no agora mais famoso Tentações de Goa, no Martim Moniz, na Rua S. Pedro Mártir, 23, o segundo melhor restaurante goês de Lisboa, depois do Cantinho da Paz (e da Casa de Goa, igualmente, do meu amigo Sebastião Fernandes), relembro tantos almoços especiais ali passados, ao longo dos anos.

A rua é estreita, mourisca, os aromas variados, esquecendo por momentos Lisboa.
Chamuças de camarão, bajhi puri e chouriço. Tudo excelente, em particular o chouriço, que há anos não comia e que estava soberbo, picante, apurado, forte. As circunstâncias e a companhia especial justificavam uma incursão mais arrojada.
Acompanhámos com a obrigatória cerveja em copo metálico gelado e rematámos com uma bebinca.

Um espaço que tem conseguido manter a mesma qualidade e simpatia, desde a primeira hora, e que redescubro ciclicamente sempre com expectativa.