31 de dezembro de 2010

O ano do coelho

Como será 2011, ano do coelho no Zodíaco chinês?


Astrologicamente, prevê-se um ano calmo, muito bem vindo após o ano feroz do Tigre. Um ano para apagar alguns pontos, curar feridas e começar com algum descanso após todas as batalhas do ano precedente. 


Economicamente, é quase certo que vai ser muito difícil: estagnação dos salários, retracção do investimento, aumento do desemprego, ausência de incentivos estatais, aumento dos impostos, sobretudo do IVA, que vai abanar a vida das pessoas, prejudicar o comércio e ferir de morte a concorrência.


Policamente não vai ser melhor. Governo moribundo, sem capacidade de reagir ao ciclo adverso, gasto, sem competência para relançar o país. Oposição pouco consistente, sem chama para galvanizar. Presidente num segundo mandato mais interventivo, mas ainda sem despertar paixões ou empatia. Forças e agentes sociais sem expressão ou interesse.


A que acrescerão muito provavelmente ajustamentos no modelo europeu, que vem sendo desenhado desde o pós-guerra e que terá de mudar, de sofrer adaptações. Esses ajustamentos terão consequências seguramente complexas e muito imprevisíveis para os países mais frágeis e que pior souberam adaptar-se, como é o caso de Portugal. E isso obrigará o país a voltar-se mais para dentro, para uma vida mais modesta, menos dependente de subsídios e apoios externos.


Em termos estruturais, com repercussões imensas a nível social, político e económico vai subsistir um grande problema: a Justiça que não funciona desde há anos e que se degrada cada vez mais, conduzindo a que hoje os agentes da justiça estejam tão desacreditados como os políticos e fazendo alastrar um sentimento geral de impunidade, que induz a corrupção.


Apesar deste panorama, pessoalmente, vai ser o melhor ano dos últimos. Consolidação, novos projectos, crescimento, diversidade, inovação. Passos seguros, mas audazes. Prudentes, mas criativos. 


O mais importante é que haja saúde. O resto virá, seguramente.

the last good day of the year

27 de dezembro de 2010

Comte Armand - Auxey Duresses


Uma amiga ofereceu-me este Chardonnay de Auxey-Duresses, uma vila no vale do Saint-Romain, na Côte de Beaune, na Borgonha. Excelentes as duas garrafas bebidas com patés num almoço prolongado a seguir ao Natal, altura em que nos apetece algo diferente. Acidez perfeita, aroma frutado, sem ser em demasia, e frescura correcta. As duas garrafas foram bebidas com curiosidade, enorme prazer e alguma surpresa. Souberam pela vida, como diz alguém especial. E ficou uma imensa vontade de ir até à Borgonha, sentir no local tudo o que estas duas garrafas proporcionaram e fizeram ansiar.
 

26 de dezembro de 2010

Then I knew the sign I had asked for was not a little thing, not a passing nod of recognition. And a phrase came back to me from my childhood, of the veil of the temple being rent from top to bottom.



Domingo, 26 de Dezembro, dia vivido como há muito não acontecia.
Revejo o último episódio de Brideshead Revisited (1981),  a extrema-unção de Lord Marchmain e o seu sublime e misterioso sinal da cruz. Como Charles Ryder vê esse gesto. Cena memorável, perfeita na representação e encenação, de um simbolismo enorme. 
Para mim, a reconciliação com Deus, a procura da paz, do último amor. Um passo enorme.

Vejo esta cena e sinto-me bem por ter fé, acreditar em Deus e sentir que Ele existe.  Mesmo que, por vezes, não me reveja na Igreja, sinto que sou um privilegiado. Por muitas razões e, também, por sentir essa aproximação.

Que é muito difícil sentir.

O Natal é cada vez mais para mim um encontro com essa paz, com esse mistério. E cada vez menos uma festa. Os meus filhos ajudaram e a vida conduziu a isso. E sinto-me bem com esse caminho. 
Se não fosse assim, não sei como seria, mas seria seguramente pior. 

Disso, tenho certeza.

24 de dezembro de 2010

Feliz Natal



Um dos meus clássicos de Natal favoritos -
“Have Yourself a Merry Little Christmas” 
do filme "Meet me in Saint Louis”, de 1944.
 Um filme que vou rever com os meus filhos, uma musica eterna, uma voz perfeita. 
Um Feliz Natal.

13 de dezembro de 2010

Racionamento




Este video de racionamento durante a 2ª Guerra Mundial, tem para mim um interesse especial depois da minha última visita a um dos museus mais interessantes que conheço.


Pequeno, sem grandes apoios, sem grandes mecenas, mas sempre com imensas crianças e jovens e onde vi uma exposição fantástica. O museu é o Imperial War Museum, em Londres, e nessa exposição fazia-se um interessantíssimo paralelismo entre as campanhas feitas na altura da 2ª Guerra pelo governo inglês para ajudar as pessoas a terem uma alimentação racional, correcta, selectiva, em tempo de guerra, apostando no cultivo de legumes em casa, em pequena escala, para consumo próprio (o governo distribuía sementes para o efeito), no não desperdício, nas vantagens do leite, das cenouras, do arroz, e as campanhas que hoje devem existir para uma alimentação equilibrada, assente em produtos naturais, sem aditivos artificiais, sem exageros, de forma a combater a obesidade, nomeadamente a infantil, o colesterol, as doenças cardiovasculares.

A exposição simples e assente sobretudo em filmes de época e postais com os slogans das campanhas inglesas é de uma actualidade talvez surpreendente e seguramente preocupante. Mas de uma pertinência impressionante.

O video que escolhi é fascinante.

3 de dezembro de 2010

Professor Doutor Hernâni Rodrigues Lopes

Um homem de carácter, corajoso, vertical, isento, digno, grande. 
Um cidadão exemplar, a quem o país muito deve e que não soube ouvir, respeitar e merecer devidamente. 
Um economista com enorme visão que não subordinava os princípios económicos  que defendia  a  qualquer ideologia. 
Um excelente Ministro que soube com coragem e rigor aplicar as medidas  em que acreditava e que eram as necessárias para o país.
Um fantástico pedagogo, pela visão, pluridisciplinariedade, consistência e profundidade das suas orientações, quer na SAER, quer nas suas conferências, palestras e aulas na Universidade Católica Portuguesa.

Curvo-me respeitosamente perante a sua grandeza e presto a minha mais profunda homenagem ao homem que simbolizava, para mim, o melhor do nosso país e um modelo a seguir. Foi o meu melhor professor e dos que mais me marcou. 

Se o país tivesse mais homens como o Professor Hernâni Lopes, seria um pais maior. 
As saudades vão ser imensas e a sua falta muito sentida.


30 de novembro de 2010

Amici Miei



O realizador Mario Monicelli, de tantos e tantos filmes da minha memória, suicidou-se aos 95 anos. Teria um cancro na próstata.

Recordo os fantásticos Amici Miei, os seus epísódios delirantes de I Nuovi Mostri e La Grande Guerra, filmes que vi em inesquecíveis tardes com minha mãe e meu irmão. E que boas que eram.

Chegávamos a ir todos os dias ao cinema e, até, a ver dois filmes no mesmo dia. No Roma, Império, Estúdio, Avis, Eden, Estúdio 444, Londres, Star, Monumental, Satélite, Quarteto. Todos já desaparecidos. Pelo menos nos moldes em que existiam. 
Hoje vamos ao El Corte Inglês (os meus filhos obrigam-me a não me esquecer do El), ao Campo Pequeno, ás novas salas do Monumental.

De todos os filmes de Monicelli (incluindo muitos com ToTò), os que consegui rever e são dos meus filmes preferidos, são os Amici Miei, (houve mais que um...) que contam a história de um grupo de amigos de escola (um arquitecto, um jornalista, um nobre falido, um proprietário de um bar e um médico) que se juntam ocasionalmente, matam saudades e pregam partidas. Muitas, continuo a ter vontade de imitar.

Há coisas eternas. Filmes, imagens, memórias, sentimentos.

28 de novembro de 2010

...



«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. »


Sophia de Mello Breyner Andresen na Entrega do Grande Prémio de Poesia,1964

27 de novembro de 2010

Tonight The Streets Are Ours

Fome

Chegam à AMI, à Caritas, às Misericórdias, a certas IPSS e pedem comida, pedem ajuda. Para pagar a mensalidade da casa, a conta da farmácia, os livros para os filhos. Mas, pedem também, que não se divulgue o seu nome, porque nunca se imaginaram na posição em que estão. Não são sem-abrigo, idosos e desempregados crónicos, são pessoas de classe média, professores, advogados, engenheiros, que ainda há poucos anos tinham vidas folgadas. Muitos têm pouco mais de 40 anos.

A procura de ajuda por estas pessoas aumentou nos últimos tempos entre 200 a 250 %. Nos centros Porta Amiga, da AMI, 7026 pessoas pediram apoio social no primeiro semestre de 2010. Cerca de 75 por cento do total de 2009.

Mas o mais grave, são aqueles, muitos, que têm vergonha e não pedem ajuda e em casa passam fome.

Este é um Portugal actual, que vivemos e muitas vezes queremos esquecer. As razões para esta tragédia são múltiplas e variadas: anos de endividamento, de viver acima das possibilidades, de facilitiismo na concessão de crédito, de mentiras dos Governos, medidas erradas, má gestão... São tantas que surpreendem como não foram detectadas e corrigidas a tempo. 


Há, seguramente, muitas dessas razões que não se podiam prever. Mas há muitas e muitas que são previsíveis há muito. E que podiam ser diferentes. Se houvesse mais coragem para dizer a verdade, para não iludir e enfrentar as dificuldades de frente. E se houvesse menos demagogia, mais rigor e menos medidas vistosas do ponto de vista político e social, que trazem votos áqueles que as invocam em nome da igualdade, mas que, na realidade, acabam muitas vezes por criar desigualdades inaceitáveis.

Isabel Jonet, a grande mentora deste fantástico projecto em Portugal, que é o Banco Alimentar Contra a Fome, dizia há semanas numa entrevista ao Expresso: "Num bairro social que conheço, bem vejo imensas mulheres que vivem do Rendimento Social de Inserção, mas a quem nem sequer é exigido que limpem o seu próprio bairro. Há uma desresponsabilização total" .

Com mais rigor, coragem, verdade e competência, há muitas situações que se vivem actualmente em Portugal que poderiam mesmo ser diferentes. Isso é algo que hoje, dia em que decorre mais uma recolha de alimentos para o Banco Alimentar Contra a Fome, tenho presente e não me conformo. 


Não podemos continuar assim.

22 de novembro de 2010

We are family

A edição de Novembro da Monocle traz um curioso artigo (Culture Report: We are family - Global) sobre as empresas de origem familiar, o que funciona bem, o que funciona mal, como são geridas, como devem ser geridas. Traz vários exemplos, todos com uma abordagem muito interessante.
 
É um tema curioso. Actual. E para mim, particularmente, caro.
 
O artigo (disponível on-line apenas para assinantes) mostra como a presença do dono, e não apenas de accionistas, pode fazer a diferença nos negócios. No sentido positivo. Não mostra o oposto. Como por vezes é negativa essa presença. Não é esse o objectivo. A abordagem da Monocle é positiva. Como, aliás, deve ser.

No nosso país, são vários os casos de empresas familiares, grandes e pequenas, de sucesso, com regras, formas de actuar e valores que também podem servir de exemplo.

Num momento em que, em termos profissionais, tenho decisões importantes a tomar exactamente numa empresa familiar, este artigo provocou em mim reacções contraditórias. Mas que me ajudaram a tomar uma decisão.

19 de novembro de 2010

Beaujolais




O Beaujolais tem um carácter próprio, suave e elegante, revelando uma mistura de frutas e de terra que é cada vez mais raro no mundo de hoje e que vale a pena explorar. Tenho boas memórias deste vinho por muitos mal amado. Ontem foi o dia dele no Clube dos Jornalistas e a noite estava excelente. 

14 de novembro de 2010

A Ratatouille






inesquecível A Ratatouille saboreada em companhia muito feminina. 
acompanhou, ou foi acompanhada, por uma Tartine deliciosa.
jantar requintado com um prato rústico, francês, típico da Provence com beringelas, pimentos, tomates, courgettes, cebola, alho, azeite, sal, pimenta e ervas aromáticas, paciência e suavidade. 
primeiro ainda houve, umas bolinhas de farinheira com coentros e umAs de morcela com ananás e sementes de sésamo, umas bolachas de azeitona que barrámos com doces caseiros e manteiga açoreana e umA massa folhada com queijo camembert. 

acompanhámos com Monte d'Oiro Lybra, belissímo Syrah e único elemento gastronómico do sexo masculino presente, que tentou vingar perante a força e qualidade das outras intervenientes.
terminámos com uma tarte de café e mousses de chocolate after eight.

tudo com entusiasmante dialéctica, charme, surpresa e amizade.

um jantar com mulheres, no feminino, com pratos do sexo feminino, muito estimulante 
e muito reconfortante.


Voilà!

12 de novembro de 2010

Dirty Night Clowns

a propósito da China



6 dias foi o tempo que demorou a construir este hotel de 15 andares em Changsha,  na China,  completo (só as fundações estavam feitas), resistente a terramotos, à prova de som e com isolamento térmico.

Maravilhas das técnicas de construção com módulos pré-fabricados que seguramente em breve veremos em Portugal ...

10 de novembro de 2010

O antiséptico

fotografia descoberta aqui.

Há mais de 25 anos que, por sugestão de meu pai, que o utiliza desde jovem, descobri LIisterine. Uso-o desde sempre e fico doente quando acaba. Durante anos, trazia das nossas viagens grandes frascos deste poderoso antiséptico oral que tentava durassem até à próxima viagem. Depois, passou a ser vendido por cá, em pequenas embalagens, mas durante muito tempo continuei a trazer os grandes frascos.

O Listerine faz parte da história da minha família. É  eficaz, demolidor, perfeito. O melhor.

É o antiséptico!

Foi criado em 1879 por médicos americanos, inicialmente para ser utilizado em procedimentos cirúrgicos e chegou a ser vendido como desodorizante, loção anti-caspa e pós-barba e servindo até para limpar o chão. Mas com o tempo, descobriu-se que era excelente para matar germes bucais e acabar com o mau hálito.
Os anúncios do produto mostravam casais jovens, ansiosos por casar, mas que perdiam essa vontade diante do hálito dos seus parceiros. Na década de 30 ficou famosa a campanha publicitária “Always a bridesmais, Never a bride”.
Nos anos 80, mudou de posicionamento perante o público, passando a ser vendido também para combater a formação de placas (reduzindo-as em 52%) e gengivite (reduzindo-a em 21%), tornando-se o primeiro medicamento sem prescrição médica a ser reconhecido pela Associação Americana de Dentistas.
Em 1994, o produto, que sempre tinha sido vendido em fantásticos  frascos de vidro, passou para embalagens plásticas, conhecidas como PET, que são usadas ainda hoje. 
Em 2006, a gigante Johnson & Johnson adquiriu a divisão de produtos de cuidados pessoais dos laboratórios Pfizer que incluía a marca Listerine.  

Lembrei-me disto tudo porque hoje de manhã acabou o Listerine lá em casa... Não me posso esquecer.

o pai natal vai estar ocupado

Este estudo mostra as tendências das decisões de compra que os consumidores europeus vão tomar no próximo Natal.

Revela, nomeadamente, que os portugueses vão ser mais criteriosos nas decisões de compra, procurando produtos de "marca própria" e oferecendo presentes com valor utilitário, por considerarem que a economia está em recessão, que o seu poder de compra foi reduzido em 2010 e por estarem pessimistas para 2011. Até aqui nada de novo. Poder-se-ía dizer que era expectável face ao quadro actual.

No entanto, a redução face a 2009 será, de acordo com o estudo, de apenas 6,5% e que, embora menos, muitos irão recorrer ao crédito. Comparando com gregos e com irlandeses, que reduzirão 21% e 11%, verifica-se que continuamos "a viver o momento", gastando mais do que devíamos e não percebendo verdadeiramente a gravidade da situação.

Mas mais, os portugueses irão gastar mais que alemães e holandeses. O que é inacreditável, embora, talvez, não surpreendente.

Perante este curioso estudo, apetece dizer que, por estes lados, o pai natal vai estar bem mais ocupado do que ele próprio pensaria.

9 de novembro de 2010

Books for Cooks


a minha livraria preferida: a Books for Cooks em Notting Hill, Londres. 
mistura de livraria, cafetaria, bistrot.
sempre cheia. vivida. barulhenta. quente.
todos os anos edita um pequeno e delicioso livro com as melhores receitas publicadas nos livros que mais vendeu nesse ano.
sinto-me num filme. bom. divertido.
gostava de a ter por perto.

3 de novembro de 2010

A reforma na educação (americana)

Uma das matérias de maior impacto a ser decidida nos próximos anos nos Estados Unidos é a "reforma" na educação. Considerada essencial, foi uma das bandeiras da Administração Obama, mas tem estado envolta em alguma polémica e poderá estar comprometida se os novos eleitos decidirem dificultar ou mesmo recusar a sua implementação.

O próximo Congresso terá de reautorizar o Elementary and Secondary Education Act, também conhecido por No Child Left Behind (NCLB), mas essa reautorização não vai ser fácil, pois durante a campanha eleitoral foram muitos os candidatos que já anunciaram estar contra e que, a ser eleitos, não a implementarão.
 
Os "novos" governadores e funcionários da educação estadual também terão de decidir se devem ou não dar seguimento a uma mudança radical da educação e que está prevista no Common Core Standards Initiative. E é sabido que os estados têm o direito de decidir o que vai ser ensinado e  nem sempre escolhem o mesmo conteúdo e o mesmo nível de rigor uns dos outros, pelo que o debate vai ser vivo.

Os críticos deste programa dizem que as diferenças de estado para estado tornam impossível garantir que os estudantes recebam uma educação padrão, nacional, consistente e de alta qualidade e que se torna necessário, por isso, comparar e avaliar quais os estados que estão realmente a concretizar o programa e se o estão a fazer como deve ser, apoiando aqueles que precisem.

Houve muitos estados com menos capacidade financeira que aderiram ao programa e o começaram a concretizar, quando a administração Obama anunciou que os estados que concordassem em adoptar o Common Core Standards podiam ter mais probalidades de vir a receber o apoio disponível de 4 mil milhões de dólares para o Race to the Top. Mais de 40 estados assinaram o contrato para implementar esses padrões nacionais, mas isso poderá mudar com a nova agenda política resultante destas eleições e muito centralizada no controle local. Mesmo este ambicioso Race to the Top poderá estar comprometido se o congresso do próximo ano, se recusar a continuar a financiá-la.

É algo que ficaremos a saber em breve.

31 de outubro de 2010

Uma imagem que vale por 1001 palavras


Nem sei bem o que dizer desta imagem e do que ela representa. Se desilusão, se sarcasmo, se desespero, se tristeza, ou se esperança. Depois de argumentos apresentados em tom altivo e desafiante, de negociações informais e pouco formais, de esperas de horas, de suspense, de puxões de orelhas da Europa (sim da Europa), de anúncios de acordo e não acordo, eis que surge o "acordo" que viabiliza o Orçamento de Estado para 2011. Assinado em casa de Eduardo Catroga (atenção ao simbolismo dos copos e do jarro de água em cima da mesa e de uma laranja que espreita o acordo...).

Pouco importam os termos do mesmo, se ele representa uma vitória do PSD e de Eduardo Catroga e, claro, de Passos Coelho, ou do Governo. Ou de Cavaco. Ou de nenhum deles.

Há acordo! E os mercados respiram, as taxas não sobem muito e os portugueses acreditam. Ou querem acreditar. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, podem não vir a ser tão más como alguns dizem, que podem melhorar.
Mas não podem. Infelizmente. É tudo demasiado mau para não se temer o pior.

Esta fotografia ilustra o ridículo que têm sido estes últimos dias. Melhor: os últimos anos.

26 de outubro de 2010

Um novo modelo: 3 regras

O estudo elaborado por Augusto Mateus e João Seixas, a pedido da Câmara de Lisboa, é muito mais do que mais um estudo, é uma proposta irrecusável para criar um novo modelo de organização administrativa e de governação da cidade.

Todas as reformas em Portugal são difíceis. E as que mexem com interesses instalados, em particular os partidários, ainda mais e propondo um novo mapa de freguesias, reduzindo as actuais 53 para cerca de metade, seguramente algum partido perderá e algum outro ganhará. 

Mas a oportunidade é única e não se pode perder. O mapa actual está desactualizado. Urge alterá-lo, eliminando freguesias e criando outras, sob pena de Lisboa comprometer de forma irreversível o seu futuro. São Nicolau, por exemplo, que tem 1200 habitantes, não tem sentido existir como tal, enquanto Telheiras, o Parque das Nações, ou mesmo a Alta de Lisboa, devem ter expressão administrativa, devem ser freguesias autónomas e não partes de outras.

A falta de escala do actual mapa das freguesias de Lisboa tem custos inconciliáveis com o actual cenário económico. Por isso, a sustentabilidade económica deve ser a regra número 1. A gestão de um equipamento educativo, cultural ou desportivo se este for de pequenas dimensões, faz todo o sentido ser gerido por uma freguesia, mas se for grande, não faz. 

A regra número 2 deve ser uma verdadeira e eficaz descentralização de competências da administração central para as câmaras e destas para as juntas. Não a actual, mas uma efectiva descentralização. Com unidades de gestão com poderes delegados da Câmara e dos vários Vereadores que ficam com a obrigação de traçar políticas diferentes para cada uma dessas unidades territoriais. Porque gerir Alvalade é diferente de gerir Chelas, e a administração não deve ser indiferente a isso. Essas unidades, de acordo com o modelo proposto, terão competências e responsabilidades em diferentes áreas e uma estratégia concreta para este território.

Considero este estudo essencial e uma oportunidade única para Lisboa, podendo contribuir para reduzir o número de serviços e de funcionários que são excessivos e criar meios mais eficazes e actuais de gerir uma cidade. Mas do que me apercebi faltará a regra número 3: a escala. Lisboa tem de ter uma estratégia concertada com outras cidades à volta. Uma estratégia metropolitana para toda a região. O que hoje não acontece. Nem Autoridade Metropolitana de Transportes existe ainda, quanto mais uma estratégia política e administrativa concertada de emprego, de oferta cultural, desportiva e de ensino. 

Sem isso, Lisboa continuará a marcar passo, sem dinâmica, sem alma, sem meios, sem futuro.

20 de outubro de 2010

Limit To Your Love


James Blake, 22 anos

Resistir, sempre!

Nos últimos dias, tenho andado a pensar na capacidade de resistência que é preciso ter para enfrentar a situação que estamos a viver no país. Por um lado, é a situação actual, já de si, muito difícil, mas, por outro, e sobretudo, o que aí vem.

Gosto por natureza de desafios, de fixar metas e de as ultrapassar. Estimula-me.  E em momentos de crise, em momentos difíceis, a fixação de objectivos e a prossecução dos mesmos é ainda mais necessária e estimulante. Mas com este panorama é realmente difícil. Para onde quer que nos voltemos só se vê dificuldades, aumento de impostos e aumento de preços, incluindo de bens essenciais (os óleos alimentares, as margarinas, os produtos lácteos, as conservas, os sumos de frutas vão ver aumentada a taxa de IVA) e só se ouve falar em crise, em Orçamento, em despedimentos, em fecho de empresas.

Há muito tempo que tudo isto se adivinhava. Há muito que penso e digo que estamos a ser mal governados, mal geridos, mal representados. No país, na capital do país, e em muitos sectores da sociedade. São os mesmos há muito tempo, que se perpetuam, e que não trazendo nada de novo, conduziram o país a um estado miserável. São os mesmos políticos, os mesmos comentadores (quase todos comprometidos politica, financeira e ideologicamente com o sistema), os mesmos gestores, os mesmos dirigentes da administração pública.

Quem tenta mudar alguma coisa, quem ousa discordar da corrente maioritária, rapidamente é "linchado". 

- Quem ouvir, nos últimos dias, a discussão surreal centrada na posição do PSD sobre a aprovação do Orçamento de Estado para 2010, em que  não se ouve a assumpção de responsabilidades de quem conduziu a este estado;
    - Quem consciencializar que apesar de tanta preocupação com a imagem de Portugal nos mercados internacionais, o Governo entregou na Assembleia da República um Orçamento de Estado incompleto, o que aconteceu pela primeira vez;
      - Quem ouvir o Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa e a sua vereadora da Habitação a defender a necessidade de mais habitantes para Lisboa e depois verificar que as taxas de ocupação de subsolo para se ter gás em casa vão aumentar;
        - Ou ainda, quem perceber que depois de tanta discussão sobre o terminal de contentores de Lisboa e da defesa da sua necessidade, afinal o porto de Sines tem  actualmente capacidade para receber os maiores e mais sofisticados porta-contentores da última geração;

        Verificará que a situação é mesmo absurda, volátil, preocupante.

        Mas, de repente, parece que chegou finalmente a consciência aguda da incerteza. O país parece que acordou ou começa a acordar. E muito ao nosso jeito ficámos deprimidos, ansiosos, angustiados. E, mesmo sendo optimista, é mesmo razão para isso.

        Quando as coisas correm bem, tendemos a atirar as coisas para trás das costas, vivendo o presente e não assimilando, ou fingindo não assimilar, a realidade. Todos nós somos assim. Quando estamos bem, esquecemos muita coisa que noutras alturas valorizamos mais. E somos mais tolerantes com certas coisas, do que seríamos noutras alturas.
        Quantos de nós não desculpamos e ultrapassamos coisas quando estamos bem, motivados, felizes, vibrantes? Desculpamos a amigos que desaparecem, a amigos que afinal não são amigos, e relevamos  traições, infracções e contradições.

        Mas há coisas, realmente, incompreensíveis. Um amigo meu, que abriu há meses um  novo  escritório em Lisboa, dizia-me triste, entre dois copos de Altas Quintas, 2007,  que o sucesso tem sido grande, apesar da crise, mas que são poucos os amigos com quem pode contar. Desapareceram. Evaporaram-se. Respondi-lhe que é mesmo assim. Que há coisas que os amigos fazem, que não se percebem. Que magoam e não se esquecem, mas com as quais tem de se viver. Que é em alturas difíceis que se vê as pessoas. E que, realmente, é mais fácil superar as dificuldades quando estamos bem e motivados, do que quando estamos em baixo.

        E disse-lhe (dizendo para mim mesmo) que por tudo isso é cada vez mais importante ter capacidade de resistência para enfrentar a situação que estamos a viver politica e economicamente no país. E na sociedade. É preciso acreditar, definir metas, reduzir gastos e enfrentar as dificuldades com imaginação e criatividade. Vai ser difícil, muito difícil mesmo, sobretudo se não houver uma mudança revolucionária  (não apenas política) no país, o que é absolutamente necessário, mas vai ser óptimo ultrapassar e vencer essas dificuldades.

        Com ou sem ajuda, com mais ou menos amigos, com mais ou menos decisões acertadas, mas com estímulo e dignidade. Resistindo, sempre.

        15 de outubro de 2010

        Maçussa









        Almoço excelente no Baile, em Maçussa, perto do Cartaxo. Adolfo recebendo como só ele sabe.
        Por momentos esquecendo tudo e vivendo o momento. Muito bom.

        14 de outubro de 2010

        Sabe bem


        No meio de tanta notícia negativa, tanto disparate, tanta má gestão, tanta miséria e incompetência, a eleição de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas é uma excelente notícia. Não vai mudar nada em relação ao estado calamitoso das nossas finanças públicas, não vai proporcionar mais bom senso a estes politicos e comentadores que nas últimas semanas falam do Orçamento de Estado e da sua aprovação quando este ainda nem sequer foi apresentado, não vai aumentar o nosso rendimento ao fim do mês, mas é uma notícia que sabe bem. Depois da inauguração do Centro da Fundação Champalimaud, um projecto a todos os titulos notável, que serve de inspiração, sabe bem esta nomeação que nos prestigia. E nós precisamos de boas notícias. Parabéns à diplomacia portuguesa.

        1 de outubro de 2010

        Depois da recente apresentação das medidas do Governo

        penso como se sentirão: Campos e Cunha, Bagão Felix, Manuela Ferreira Leite, Medina Carreira, Hernani Lopes, Silva Lopes, António Barreto, Guilherme de Oliveira Martins, muitos outros políticos e analistas e alguns portugueses ainda lúcidos. 


        Interrogo-me como estarão as consciências de José Sócrates, Teixeira dos Santos, Victor Constâncio, Manuel Pinho, dos jornalistas, politólogos e fazedores de opinião que propagandearam durante anos a recuperação e capacidades deste governo, dos manipuladores de sondagens e dos cidadãos que se calaram e acomodaram, quando há muito, tudo isto era previsível.

        Constato que, mais uma vez, quem vai ajudar o país, é a classe média, os funcionários públicos, quem não consegue fugir aos impostos e quem não colabora com o "sistema". Enfim, os mesmos do costume.


        Pasmo com a arrogância do Governo e da maior parte dos dirigentes do PS (vide Almeida Santos), que consideram que o povo tem de sofrer como o governo, que mantêm a argumentação da influência na nossa situação catastrófica da crise internacional, do aparecimento de despesas inesperadas (vg os famosos submarinos, cujo concurso foi lançado há 3 governos, adjudicado há 2 e pagos pelo actual, mas que mesmo assim é uma despesa inesperada...) e que insistem que quem tem de provar onde é possível cortar nas despesas é quem não defende aumento de impostos e diz ser possível reduzir a despesa. 


        Rio, para não chorar, com a medida mirabolante de transferir o fundo de pensões de uma empresa privada, cotada em Bolsa, como a PT, para o Estado, com o fim exclusivo de aumentar a receita e reduzir ficticiamente o défice, o que configura um abuso, um acto de gestão grosseira, uma fraude política e um risco financeiro para os contribuintes, cujos impostos terão que suportar eventuais oscilações que levem à insuficiência dos capitais fundeados para pagar aos pensionistas. 

        E recordo que era este o Primeiro Ministro que em tempos idos criticava o recurso às receitas extraordinárias e jurava que nunca as iria utilizar.


        A vida dá muitas voltas, mas há coisas que não mudam, há erros que inacreditavelmente se repetem, há argumentos que mesmo falaciosos se reinventam e há consequências há muito esperadas que se confirmam.
        Qualquer cidadão minimamente informado, qualquer funcionário público atento, qualquer politico interessado, qualquer pessoa que intervenham socialmente, qualquer português integro, sabe que é possível reduzir muita despesa supérflua, eliminar muita obra desnecessária, acabar com muita burocracia e ineficácia e produzir muito mais.


        Sem grande esforço, competência ou imaginação, é possível: 
        1. Reduzir o número de membros do Governo existente, nomeadamente Secretários de Estado;
        2. Reduzir do número de deputados, dos actuais 230;
        3. Reduzir o número de institutos públicos;  
        4. Reduzir tantas e tantas fundações públicas, privadas e as que não se sabe se são públicas se privadas, mas sempre alimentadas com dinheiros públicos, como  a Fundação José Saramago ou a Fundação Berardo; 
        5. Reduzir o sector empresarial público; 
        6. Eliminar as benesses e mordomias que administradores de empresas públicas e dirigentes dos mais variados níveis de administração central e autárquica possuem, nomeadamente, carros, ajudas de custo e despesas de representação; 
        7. Reequacionar os "direitos adquiridos" daqueles que, trabalhando metade do tempo que muitos de nós, desta geração, trabalham, garantiram há anos uma pensão muitas vezes superior áquela que esta actual geração auferirá um dia; 
        8. Eliminar o financiamento público aos partidos políticos; 
        9. Reduzir o apoio do Estado a empresas públicas, nomeadamente, Estradas de Portugal, empresas de transportes e de televisão; 
        10. Reduzir a participação do país e dos nossos militares em missões no estrangeiro; 
        11. Suspender sine die grandes obras públicas, incluindo TGV e novo aeroporto, mas também auto-estradas, vias rápidas e quaisquer alargamento das existentes;
        12. Eliminar burocracias e burocracias que fazendo perder tempo, reduzem a produtividade
        13. Acabar com os falsos concursos internos da Administração que, em virtude do congelamento das admissões e das progressões há muito impostas, apenas visam ardilosamente conseguir que haja essas mesmas progressões, mas encapotadas e apenas para "boys".
        Podiam ser apresentadas muitas e muitas outras singelas propostas. Mas não é preciso. 
        O que tudo isto demonstra é que o Governo assumiu, finalmente, que existe uma factura a pagar pelo que não fez, o que no meio disto tudo é muito pouco. Mas é o que merecemos.

        28 de setembro de 2010

        Risotto de bacalhau com flores de courgette


        Para experimentar um branco para a MC, fiz um risotto de bacalhau com flores de courgette.
        Preparei um caldo simples e reservei, depois alourei duas cebolas e um dente de alho em azeite, juntei o arroz, deixei uns minutos, mexendo e comecei a deitar o caldo. Mais tarde juntei o bacalhau e só quase nos fim as flores de courgette. Temperei de sal e pimenta moída na hora e reguei com mais azeite. Antes de servir polvilhei com salsa picada.
        Foi excelente para acompanhar (ou terá sido o inverso...) uma garrafa de Quinta das Carrafouchas, um vinho da região de Lisboa, recomendado por mão amiga e que surpreendeu.


        24 de setembro de 2010

        O Fotógrafo



        André Boto, 25 anos, natural de Lagos,  Fotógrafo Europeu do Ano, pela Federação Europeia de Fotógrafos.


        20 de setembro de 2010

        CinéBus




        talvez um dia tenha uma Bedford destas (que em 1967 eram utilizadas para cinema itenerante) adaptá-la e durante uns tempos andar por aí.

        Glória



        Com barba de 15 dias, decido ir a um pequeno barbeiro no nº 71 da Rua da Glória, bem perto do abandonado Ritz Club. Experiência fantástica com o Sr. Miguel, barbeiro há mais de 60 anos. Pelas suas mãos passaram em Santarém e em Lisboa, ao longo de uma vida, muitos homens e também muitas senhoras. Teve momentos de sucesso e de glória. Fala com orgulho dos cortes "à Beatriz Costa" em que era especialista. Hoje trabalha com o filho, que também seguiu o mesmo caminho. Mas disse-me que o especialista em barbas era ele. Entreguei-me tranquilamente nas suas mãos. 

        Foi um momento que não vou esquecer.

        Fotografias de 1898-1908 do Arquivo Municipal de Lisboa

        16 de setembro de 2010

        Em estudo

        A história conta-se em meia dúzia de linhas: 

        1. Alguém resolve fazer obras sem licença num prédio da Rua de S. José onde está situada  a fantástica Drogaria Oliveirense que existe desde 1895. 
        2. O presidente da Junta de Freguesia da Lapa, denuncia a realização das obras ilegais.
        3. A presidente em exercício da CML, Helena Roseta, que detém o pelouro da Habitação, embarga a obra.
        5. O imóvel aguarda classificação municipal desde 2008, por iniciativa dos Cidadãos por Lisboa, de Helena Roseta, que propuseram que fosse feito o levantamento das lojas de comércio tradicional para as incluir na carta do Inventário Municipal de Património e eventualmente abrir um processo de classificação.
        6. Pediam, ainda, que fossem estudados apoios.

        Conclusão: a proposta de 2008, de extrema necessidade e validade, ficou a "marinar" com responsabilidades acrescidas para quem depois de a propor, nada fez, mesmo detendo o pelouro da habitação. Mas o destino é cruel: foi a quem propôs e nada fez, que coube fazer o embargo.
        Como é que se sentirá hoje Helena Roseta?
        Seguramente bem e de consciência tranquila pelas palavras que terá dito no momento do embargo: “Não deitem abaixo os interiores destas lojas, que são fantásticos”.

        Muito típico desta geração de políticos palavrosos, diletantes, sonhadores, proponentes, mas completamente ineficazes. Onde está o famoso Plano Local de Habitação? Onde está a política de apoio aos jovens? Onde está o levantamento e o estudo das lojas tradicionais? Onde está o novo Plano Director Municipal?

        Em estudo, claro. Profundo e amplamente participado, seguramente.

        10 de setembro de 2010

        a gente ouve isto e não se afoba mesmo

        Sem novidade



        Este quadro, retirado deste relatório do Fórum Económico Mundial, segundo o qual Portugal desceu este ano três lugares no ranking de competitividade, passando para a 46ª posição, mostra o que se sabe há muito:


        - B
        urocracia ineficiente do Estado;
        - Restritivas leis laborais;
        - Instabilidade política;
        - Impostos.

        O tempo passa, as explicações sucedem-se, mas continuamos sem resolver estes problemas estruturais crónicos que nos enfraquecem e que as crises internacionais pioram.