30 de junho de 2010

Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco. 
Os outros são monstros que não falam, 
Tigres e ursos que amarrei aos remos, 
E o meu desprezo reina sobre o mar. 

Gosto de uivar no vento com os mastros 
E de me abrir na brisa com as velas, 
E há momentos que são quase esquecimento 
Numa doçura imensa de regresso. 

A minha pátria é onde o vento passa, 
A minha amada é onde os roseirais dão flor, 
O meu desejo é o rastro que ficou das aves, 
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo. 

Sophia de Mello Breyner

28 de junho de 2010

Tobis Portuguesa


Tomo conhecimento pela imprensa, através de declarações do José Pedro Ribeiro, da decisão de privatizar a Tobis Portuguesa.

Há muitos anos que esta empresa, criada em 1932 com o intuito de apoiar e fomentar o desenvolvimento do cinema português, bem como criar uma uniformidade de processos ao nível do som e imagem, na Europa, de forma a combater o poderio norte-americano, se deparava com imensas dificuldades financeiras. Passei há mais de 15 anos pela Administração da Tobis, era presidente, José Fonseca e Costa, numa altura em que as dificuldades já eram muitas. Sobrevivia, à época, graças à empresa de Carlos Cruz (!) que lá filmava nos famosos estúdios, o 1,2,3. E também graças às receitas com a venda dos clássicos do cinema português, decisão tomada nesses tempos. A maior parte dos produtores portugueses não pagava os serviços que a Tobis proporcionava, nomeadamente, ao nível dos seus laboratórios.

Recordo as divergências que existiram entre nós em relação à forma de equilibrar as contas da empresa e as discussões que essas divergências de opinião proporcionaram. Foram acesas, muito mesmo, agressivas, até. Inesquecíveis...

Face à escassez da produção cinematográfica nacional, a busca de nichos de negócio alternativos era imprescindível. Mas aceitar a perpetuação de dívidas dos principais produtores nacionais era, obviamente errado, só tolerado porque se tratava de uma empresa detida pelo Estado. Em nenhuma empresa privada isso seria admissível. Sempre divergi dessa posição complacente.

Passaram muitos anos, e agora é finalmente tomada a decisão de privatizar. Parece-me,  a melhor e, muito provavelmente, a única hipótese de salvação desta histórica empresa nacional.

27 de junho de 2010

Brasil, Portugal, Espanha, bom senso, experiência



Esta fantástica fotografia foi tirada durante o jogo Portugal-Brasil e representa sul africanos assistindo a partida num subúrbio de Johanesburgo. Pertence ao fotojornalista espanhol Emilio Morenatti, da Associated Press, de 40 anos, que perdeu o pé esquerdo numa explosão no Afeganistão em agosto de 2009. Aqui pode-se ver mais fotos deste brilhante e corajoso fotógrafo.


No mesmo jogo Brasil-Portugal, uma jornalista portuguesa de um canal de televisão, aproxima-se de um taxi que circula pelas ruas de Lisboa e pergunta ao taxista por que razão está ele ali a ouvir o relato pela rádio, e não diante da televisão: "Porque está aqui e não a ver o jogo? Está a trabalhar, é?". 


Demonstrativo da falta de bom senso, imaturidade, leveza, que se vê cada vez mais nos nossos meios de comunicação social. Falta "escola", preparação, coordenação e experiência. Faltam jornalistas séniores, como vemos na televisão italiana, francesa, americana ou brasileira. Na RAI, na TF1, na CNN, na CBS, ou na Globo, habituamo-nos a ver, anos e anos, os mesmos jornalistas e apresentadores de noticiários. Por cá, abdicou-se desses jornalistas seniores, tirando Mário Crespo, que é a demonstração inequívoca que vale a pena apostar mais em jornalistas experientes, com memória, cultura, coragem, "calo". 


São aspectos que, em muitos casos, são decisivos para se fazer a diferença, para vencer e atingir os objectivos.

22 de junho de 2010

Like This




Tilda Swinton e o seu novo perfume: "Like This" um nome inspirado em Alice no País das Maravilhas
Curiosidade imensa. Tudo é inspirador e com um charme tão especial.

19 de junho de 2010

Salada de beterraba



Gosto muito de beterraba e agora no tempo quente em altura de Mundial de futebol apetece "picar" uma salada fria de beterraba com cenoura que aprendi no Elvira's Bistrot.

Coloca-se o sumo de um limão, um fio de azeite, mel, cominhos, sementes de coentros, meia malagueta e um pouquinho de flor de sal no fundo de uma saladeira. Bate-se muito bem até obter um molho homogéneo. Reserva-se.
Ralam-se duas beterrabas grandes e uma cenoura média (se possível biológicas...). Transfere-se as beterrabas e a cenoura raladas para a saladeira. Polvilha-se com salsa picada e envolve-se delicadamente. Deixa-se no frigorifico 20 minutos.

Serve-se com crackers de centeio com sementes de abóbora e sésamo e acompanha-se com um Quinta de la Rosa, Branco 2009.

Harmen de Roop





Gosto das intervenções no espaço público de Harmen de Hoop.  São arrojadas, despojadas, irónicas, desconcertantes. Animam a vida nas cidades. Esta chama-se Artificial Plants Replaced.

15 de junho de 2010

Pensar

Pensar e a ter uma atitude crítica sobre o que se passa no nosso País faz cada vez mais falta.

Cada vez mais, a informação está acessível, à distância de um clic, mas sente-se que é pouco estruturada e muitas vezes dispersa, parcial e pouco rigorosa.

Para ter sentido crítico é preciso conhecer a realidade. Uma opinião pública bem informada, capaz de fazer o contraditório da informação das fontes oficiais, infelizmente inevitável, será uma opinião pública mais exigente.

A melhoria do debate político, a revitalização dos partidos políticos, a mudança do tipo de político e de políticas que temos, só é possível se todos formos capazes de exercer uma pressão esclarecida. Se pensarmos por nós.
É neste contexto que se insere a Fundação Francisco Manuel dos Santos, cuja colecção de ensaios que será lançada sobre temas fundamentais, tem como desígnio principal: pensar livremente.

É tão simples como excepcional e merece toda a nossa atenção e esperança.

13 de junho de 2010

Santo António



Sou afilhado de Santo António. Baptizei-me por vontade própria aos 20 anos, quando andava na faculdade. 
Meus pais sempre consideraram que essa devia ser uma opção que me devia caber e eu e o meu irmão decidimos fazê-lo na mesma altura, na Igreja de S. Domingos, na Baixa por detrás do Rossio. Uma Igreja em ruína, destruída por um incêndio, mas com um magia especial e que na altura tinha um carismático capelão.

A escolha do padrinho não foi difícil. Santo António sempre foi o Santo preferido da minha mãe e em casa sempre convivemos com essa devoção e sempre gostámos do que ela representava.

Não me lembro de não gostar de Santo António. A sua seriedade, exigência, coragem, a sua vertente de achador de coisas perdidas e os seus dotes retóricos sempre me interessaram, ainda mais gostando eu especialmente de argumentar e persuadir.  

Mas, sobretudo, sempre me fascinou a sua vertente casamenteira. Não há nada mais fascinante que um Santo relacionado com as questões do coração. Que orienta, une e apadrinha a união entre duas pessoas.

Sinto-me bem com um padrinho assim. É um apoio, uma cumplicidade e uma ligação que me acompanha. Tenho um filho António que foi baptizado faz hoje 7 anos.

8 de junho de 2010

Um casamento de t-shirt


Dois casais homossexuais uniram-se pelo civil no dia em que entrou em vigor a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Teresa e Helena, às 09.40, em Lisboa e dois homens, na 4.ª Conservatória do Registo Civil do Porto, por volta das 15.00.

A lei promulgada pelo Presidente da República, Cavaco Silva, a 17 de Maio, entrou ontem em vigor fazendo de Portugal o oitavo País do mundo a permitir as uniões gay.

Helena e Teresa, que celebraram a cerimónia na 7.ª Conservatória de Lisboa, casaram rodeadas de câmaras de televisão e um batalhão de jornalistas, como convinha.

Não faz sentido este espalhafato todo numa altura como esta. Não faz sentido tanta notícia, tanta preocupação, tanta opinião, tanto show mediático.

Há uma inversão tão grande dos valores. Do que é essencial e do que é acessório. Do que vale a pena lutar e do que não vale a pena perder um minuto.

No meio de tudo, estranhei a forma "discreta" como as noivas iam vestidas. O casamento costumava ser um dia em que os noivos caprichavam, se aperaltavam, punham o melhor de si. Queriam que o dia de casamento, em pequenos pormenores, ficasse marcado, fosse único, memorável, exclusivo. Ainda mais, naqueles casos em que o casamento era muito desejado, como é o caso.

Agora, até isso é diferente no casamento lésbico.

Devo estar a ficar velho e conservador, mas nada disto me convence. Eu nunca casaria com uma mulher de t-shirt.

Mercat Santa Caterina



É fácil apaixonarmo-nos por Barcelona. Um dos destaques da cidade é o fabuloso Mercat Santa Caterina. harmonia da arquitectura moderna misturada com as bases tradicionais tornam este mercado um destino obrigatório.

A reconstrução de Santa Caterina não foi fácil, mas valeu a pena. Demorou e custou bastante dinheiro, mas graças à persistência e ao talento de Enric Miralles (entretanto falecido) e de Benedetta Tagliablue, Barcelona tem hoje um mercado de frutas e produtos espanhóis que para além de ser obrigatório para os locais, ainda é uma atracção turística.

Barcelona tem sempre uma personalidade, uma capacidade de concretização e uma magia muito especiais. Verdad?

A actual crise é mais grave do que as anteriores

O Professor Jacinto Nunes, economista, governador do Banco de Portugal, em 1983, diz ao  Público que a actual crise é mais grave do que as anteriores e mostra-se preocupado com as soluções que estão a ser postas em prática pelas autoridades.

Retirei alguns excertos, que revelam uma lucidez e pertinências indesmentíveis:

"Conheceu de perto a crise de 1983. Como é que a compara com a actual?

Esta crise é diferente da de 1983, que não foi tão grave. O que vivemos em 1983 foi uma crise de pagamento. A actual situação é de gravidade quase idêntica à de 1929, mas de natureza diferente. A de 1929 era de insuficiência da procura e por isso surgiu o keynesianismo como doutrina para compensar a insuficiência de procura. Esta é uma crise de crédito.

(...)

Então, se fosse primeiro-ministro, que medidas adoptaria? Não apostaria no investimento público?


A propósito de investimento público, está a fazer-se uma confusão. Eu sou um partidário de investimento público, mas sou completamente contra as grandes obras que não são reprodutivas. E até admito que possa existir uma grande obra que tenha retorno. O TGV para passageiros não acredito, mas penso que quando houver condições é fundamental desenvolver o porto a sul de Sines, para acabar com aquele buraco, e outro a norte, em Leixões ou Aveiro, e fazer uma linha de alta velocidade para a Europa, mas só quando a Espanha fizer a ligação a França. O que é que vamos fazer até Madrid? Ou aquela infantilidade de dizer que os espanhóis vêm cá tomar banho... Só por brincadeira se admite uma afirmação destas. Eu não sou contra o investimento público, e penso até que temos de o fazer. Com mais de 600 mil desempregados e com o acesso ao subsídio de desemprego a ser ainda mais limitado, isto vai reflectir-se na insuficiência de procura líquida. Depois quem é que dos privados vai investir num clima destes? Temos que ir buscar alguma compensação ao investimento público, mas ao pequeno investimento público. É claro que aquilo que o primeiro-ministro citou na última entrevista à RTP está certo, ele falou de creches, de escolas, da qualificação urbana. Mas lá acrescentou o TGV, o que é uma tolice... já lhe chamam o TGV do Alentejo.

Uma das diferenças em relação a 1983 é que havia a expectativa de que a economia ia recuperar. Mas hoje não temos essa expectativa. Preocupa-o?

Por isso é que digo que, quando Jorge Sampaio disse que havia vida para além do défice, naquela altura a frase não era apropriada, mas hoje, reinterpretada, é apropriada. Porque vamos chegar a 2013, se estas medidas de contenção de facto chegarem, numa situação económica má. E em 2014, começam as PPP e vamos outra vez apertar o cinto e sem recuperação à vista. E o que é que vai melhorar a situação da economia nacional? O TGV? O aeroporto? Não. Temos que ir fazendo alguns investimentos privados e temos que ir tomando medidas estruturais. Não custa dinheiro fazer a reforma da Justiça, do código penal e do código civil. Como é que vamos atrair o investimento estrangeiro se ele sabe que, se tiver um problema da justiça, demora oito anos a resolvê-lo? Porque não fazemos a reforma da educação? Estas reformas não custam nada, mas não se fazem. Agora só se pensa no défice. Por isso digo que agora faz sentido dizer que há vida para além do défice. E qual é essa vida? Um conjunto de medidas de reformas estruturais da administração pública e outras.

Critica este Governo pela situação em que estamos?

As coisas boas deste Governo foram a reforma da Segurança Social e a politica energética. Mas houve erros que levaram a este défice enorme e um deles foi a redução do IVA. Outro foi dar 2,9 por cento aos funcionários públicos num ano em que a inflação é negativa. Para quê 2,9 por cento? Eu até sou tolerante ao ponto de dizer vamos dar qualquer coisa, um por cento, porque a política tem que ser tida em conta. Não sou um técnico surdo, cego e mudo à realidade política. Mas 2,9 por cento? O terceiro erro, dos mais graves, teve a ver com os certificados de aforro. Foram cortar os juros das pessoas que tinham títulos. Foram centenas de milhões de euros de poupanças que saíram para os bancos. Quem é que os vai adquirir agora?

(...)

Portanto, acha que o Governo vai ter de adoptar medidas mais duras do que as que foram anunciadas...


Sim, penso que será inevitável."

7 de junho de 2010

Não faz qualquer sentido

A ideia (não chega sequer a ser proposta...) de surgir um candidato presidencial mais à direita de Cavaco Silva, não faz qualquer sentido.
 
Não faz pelo principal argumento invocado - a promulgação da lei sobre o casamento gay -, pois a Cavaco Silva não restava outra alternativa que não fosse essa promulgação. Além disso, o Presidente explicou e ficou claro o que pensava do ponto de vista moral e até jurídico. Era contra.

Se vetasse a lei, ela seria de novo aprovada e apenas se teria pedido tempo. O país não pode perder tempo. Juridicamente não se deveria chamar casamento, mas o legislador assim não o entendeu e vai ficar com esse ónus. Cavaco não é responsável por isso.

Mas também não faz sentido, porque qualquer candidato mais à direita só vai prejudicar Cavaco Silva, não vai prejudicar Alegre, nem Nobre, nem o candidato do PC.

E vale a pena, esse debate ideológico e político, esse combate, que apenas vai prejudicar Cavaco? Para quê? Cavaco Silva vai mudar?

Não. Há anos que Cavaco Silva traça o seu caminho calculisticamente, fazendo apenas as rupturas, sejam elas quais forem, que mais lhe convêm.

Sou de opinião, que se Soares fosse Presidente e o Primeiro Ministro do PSD, Soares já tinha dado um murro na mesa.

Cavaco Silva, não. Apesar de ser economista (e excelente) e saber perfeitamente o estado do país e a necessidade de mudar de políticas e de o Governo se convencer que assim não dá, nada têm feito.

Já toda a gente percebeu, que Sócrates acabou e que o próximo Primeiro Ministro se chama Pedro Passos Coelho. Para o bem e para o mal...
Apenas estamos todos à espera que Cavaco seja reeleito e Sócrates cai no chão KO e com ele o País.

Também por isso, não percebo porque razão deveria surgir um candidato à direita. Em nada mudaria este cenário de espera. Apenas o prolongaria e dificultaria.

Finalmente, outro dos argumentos que têm vindo a público, é que um candidato à direita seria a forma de propor um governo de "salvação nacional", a única forma de salvar o país. Tenho as maiores dúvidas. Do modelo e que para isso seja necessário aparecer um candidato à direita. Tenho as maiores dúvidas que Paulo Portas queira isso... E que essa proposta reúna consenso.

Não faz qualquer sentido. O que fazia sentido, sim, era o Presidente "apertar" de uma vez por todas o PM. O que fazia sentido era haver uma articulação maior entre PM e Presidente. O que fazia sentido era haver outras políticas. O que fazia sentido era haver mais união entre os vários órgãos de soberania. E entre as várias forças políticas.

Mas isso, não vai ser resolvido com um candidato de direita. Seja ele qual for...

Infelizmente.

1 de junho de 2010

Umas semanas depois...

Alguém sabe qual foi a sanção para o deputado que furtou (não roubou...) os dois gravadores?
Alguém indica outro país ocidental em que um deputado furta dois objectos de outrém, havendo provas inequívocas do facto, e nada, rigorosamente nada, acontece?

Dia da Criança

Do muito que podemos e devemos transmitir aos nossos filhos, do muito amor que lhes devemos dar, da cumplicidade que deve estar sempre presente, dos valores que lhes devemos doar, o mais importante de todos é a gratidão.

Trabalhar muito, nunca desistir, ser solidário, ser verdadeiro, frontal, honrado, terno, solidário é seguramente muito importante. Essencial. Mas, creio, que ser grato por aquilo que se tem, ser grato a quem nos ajuda, ser grato por tanto, é decisivo.

O meu beijo hoje de manhã aos meus filhos foi muito grande, sentido, comovido e foi de profunda gratidão.