30 de novembro de 2010

Amici Miei



O realizador Mario Monicelli, de tantos e tantos filmes da minha memória, suicidou-se aos 95 anos. Teria um cancro na próstata.

Recordo os fantásticos Amici Miei, os seus epísódios delirantes de I Nuovi Mostri e La Grande Guerra, filmes que vi em inesquecíveis tardes com minha mãe e meu irmão. E que boas que eram.

Chegávamos a ir todos os dias ao cinema e, até, a ver dois filmes no mesmo dia. No Roma, Império, Estúdio, Avis, Eden, Estúdio 444, Londres, Star, Monumental, Satélite, Quarteto. Todos já desaparecidos. Pelo menos nos moldes em que existiam. 
Hoje vamos ao El Corte Inglês (os meus filhos obrigam-me a não me esquecer do El), ao Campo Pequeno, ás novas salas do Monumental.

De todos os filmes de Monicelli (incluindo muitos com ToTò), os que consegui rever e são dos meus filmes preferidos, são os Amici Miei, (houve mais que um...) que contam a história de um grupo de amigos de escola (um arquitecto, um jornalista, um nobre falido, um proprietário de um bar e um médico) que se juntam ocasionalmente, matam saudades e pregam partidas. Muitas, continuo a ter vontade de imitar.

Há coisas eternas. Filmes, imagens, memórias, sentimentos.

28 de novembro de 2010

...



«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. »


Sophia de Mello Breyner Andresen na Entrega do Grande Prémio de Poesia,1964

27 de novembro de 2010

Tonight The Streets Are Ours

Fome

Chegam à AMI, à Caritas, às Misericórdias, a certas IPSS e pedem comida, pedem ajuda. Para pagar a mensalidade da casa, a conta da farmácia, os livros para os filhos. Mas, pedem também, que não se divulgue o seu nome, porque nunca se imaginaram na posição em que estão. Não são sem-abrigo, idosos e desempregados crónicos, são pessoas de classe média, professores, advogados, engenheiros, que ainda há poucos anos tinham vidas folgadas. Muitos têm pouco mais de 40 anos.

A procura de ajuda por estas pessoas aumentou nos últimos tempos entre 200 a 250 %. Nos centros Porta Amiga, da AMI, 7026 pessoas pediram apoio social no primeiro semestre de 2010. Cerca de 75 por cento do total de 2009.

Mas o mais grave, são aqueles, muitos, que têm vergonha e não pedem ajuda e em casa passam fome.

Este é um Portugal actual, que vivemos e muitas vezes queremos esquecer. As razões para esta tragédia são múltiplas e variadas: anos de endividamento, de viver acima das possibilidades, de facilitiismo na concessão de crédito, de mentiras dos Governos, medidas erradas, má gestão... São tantas que surpreendem como não foram detectadas e corrigidas a tempo. 


Há, seguramente, muitas dessas razões que não se podiam prever. Mas há muitas e muitas que são previsíveis há muito. E que podiam ser diferentes. Se houvesse mais coragem para dizer a verdade, para não iludir e enfrentar as dificuldades de frente. E se houvesse menos demagogia, mais rigor e menos medidas vistosas do ponto de vista político e social, que trazem votos áqueles que as invocam em nome da igualdade, mas que, na realidade, acabam muitas vezes por criar desigualdades inaceitáveis.

Isabel Jonet, a grande mentora deste fantástico projecto em Portugal, que é o Banco Alimentar Contra a Fome, dizia há semanas numa entrevista ao Expresso: "Num bairro social que conheço, bem vejo imensas mulheres que vivem do Rendimento Social de Inserção, mas a quem nem sequer é exigido que limpem o seu próprio bairro. Há uma desresponsabilização total" .

Com mais rigor, coragem, verdade e competência, há muitas situações que se vivem actualmente em Portugal que poderiam mesmo ser diferentes. Isso é algo que hoje, dia em que decorre mais uma recolha de alimentos para o Banco Alimentar Contra a Fome, tenho presente e não me conformo. 


Não podemos continuar assim.

22 de novembro de 2010

We are family

A edição de Novembro da Monocle traz um curioso artigo (Culture Report: We are family - Global) sobre as empresas de origem familiar, o que funciona bem, o que funciona mal, como são geridas, como devem ser geridas. Traz vários exemplos, todos com uma abordagem muito interessante.
 
É um tema curioso. Actual. E para mim, particularmente, caro.
 
O artigo (disponível on-line apenas para assinantes) mostra como a presença do dono, e não apenas de accionistas, pode fazer a diferença nos negócios. No sentido positivo. Não mostra o oposto. Como por vezes é negativa essa presença. Não é esse o objectivo. A abordagem da Monocle é positiva. Como, aliás, deve ser.

No nosso país, são vários os casos de empresas familiares, grandes e pequenas, de sucesso, com regras, formas de actuar e valores que também podem servir de exemplo.

Num momento em que, em termos profissionais, tenho decisões importantes a tomar exactamente numa empresa familiar, este artigo provocou em mim reacções contraditórias. Mas que me ajudaram a tomar uma decisão.

19 de novembro de 2010

Beaujolais




O Beaujolais tem um carácter próprio, suave e elegante, revelando uma mistura de frutas e de terra que é cada vez mais raro no mundo de hoje e que vale a pena explorar. Tenho boas memórias deste vinho por muitos mal amado. Ontem foi o dia dele no Clube dos Jornalistas e a noite estava excelente. 

14 de novembro de 2010

A Ratatouille






inesquecível A Ratatouille saboreada em companhia muito feminina. 
acompanhou, ou foi acompanhada, por uma Tartine deliciosa.
jantar requintado com um prato rústico, francês, típico da Provence com beringelas, pimentos, tomates, courgettes, cebola, alho, azeite, sal, pimenta e ervas aromáticas, paciência e suavidade. 
primeiro ainda houve, umas bolinhas de farinheira com coentros e umAs de morcela com ananás e sementes de sésamo, umas bolachas de azeitona que barrámos com doces caseiros e manteiga açoreana e umA massa folhada com queijo camembert. 

acompanhámos com Monte d'Oiro Lybra, belissímo Syrah e único elemento gastronómico do sexo masculino presente, que tentou vingar perante a força e qualidade das outras intervenientes.
terminámos com uma tarte de café e mousses de chocolate after eight.

tudo com entusiasmante dialéctica, charme, surpresa e amizade.

um jantar com mulheres, no feminino, com pratos do sexo feminino, muito estimulante 
e muito reconfortante.


Voilà!

12 de novembro de 2010

Dirty Night Clowns

a propósito da China



6 dias foi o tempo que demorou a construir este hotel de 15 andares em Changsha,  na China,  completo (só as fundações estavam feitas), resistente a terramotos, à prova de som e com isolamento térmico.

Maravilhas das técnicas de construção com módulos pré-fabricados que seguramente em breve veremos em Portugal ...

10 de novembro de 2010

O antiséptico

fotografia descoberta aqui.

Há mais de 25 anos que, por sugestão de meu pai, que o utiliza desde jovem, descobri LIisterine. Uso-o desde sempre e fico doente quando acaba. Durante anos, trazia das nossas viagens grandes frascos deste poderoso antiséptico oral que tentava durassem até à próxima viagem. Depois, passou a ser vendido por cá, em pequenas embalagens, mas durante muito tempo continuei a trazer os grandes frascos.

O Listerine faz parte da história da minha família. É  eficaz, demolidor, perfeito. O melhor.

É o antiséptico!

Foi criado em 1879 por médicos americanos, inicialmente para ser utilizado em procedimentos cirúrgicos e chegou a ser vendido como desodorizante, loção anti-caspa e pós-barba e servindo até para limpar o chão. Mas com o tempo, descobriu-se que era excelente para matar germes bucais e acabar com o mau hálito.
Os anúncios do produto mostravam casais jovens, ansiosos por casar, mas que perdiam essa vontade diante do hálito dos seus parceiros. Na década de 30 ficou famosa a campanha publicitária “Always a bridesmais, Never a bride”.
Nos anos 80, mudou de posicionamento perante o público, passando a ser vendido também para combater a formação de placas (reduzindo-as em 52%) e gengivite (reduzindo-a em 21%), tornando-se o primeiro medicamento sem prescrição médica a ser reconhecido pela Associação Americana de Dentistas.
Em 1994, o produto, que sempre tinha sido vendido em fantásticos  frascos de vidro, passou para embalagens plásticas, conhecidas como PET, que são usadas ainda hoje. 
Em 2006, a gigante Johnson & Johnson adquiriu a divisão de produtos de cuidados pessoais dos laboratórios Pfizer que incluía a marca Listerine.  

Lembrei-me disto tudo porque hoje de manhã acabou o Listerine lá em casa... Não me posso esquecer.

o pai natal vai estar ocupado

Este estudo mostra as tendências das decisões de compra que os consumidores europeus vão tomar no próximo Natal.

Revela, nomeadamente, que os portugueses vão ser mais criteriosos nas decisões de compra, procurando produtos de "marca própria" e oferecendo presentes com valor utilitário, por considerarem que a economia está em recessão, que o seu poder de compra foi reduzido em 2010 e por estarem pessimistas para 2011. Até aqui nada de novo. Poder-se-ía dizer que era expectável face ao quadro actual.

No entanto, a redução face a 2009 será, de acordo com o estudo, de apenas 6,5% e que, embora menos, muitos irão recorrer ao crédito. Comparando com gregos e com irlandeses, que reduzirão 21% e 11%, verifica-se que continuamos "a viver o momento", gastando mais do que devíamos e não percebendo verdadeiramente a gravidade da situação.

Mas mais, os portugueses irão gastar mais que alemães e holandeses. O que é inacreditável, embora, talvez, não surpreendente.

Perante este curioso estudo, apetece dizer que, por estes lados, o pai natal vai estar bem mais ocupado do que ele próprio pensaria.

9 de novembro de 2010

Books for Cooks


a minha livraria preferida: a Books for Cooks em Notting Hill, Londres. 
mistura de livraria, cafetaria, bistrot.
sempre cheia. vivida. barulhenta. quente.
todos os anos edita um pequeno e delicioso livro com as melhores receitas publicadas nos livros que mais vendeu nesse ano.
sinto-me num filme. bom. divertido.
gostava de a ter por perto.

3 de novembro de 2010

A reforma na educação (americana)

Uma das matérias de maior impacto a ser decidida nos próximos anos nos Estados Unidos é a "reforma" na educação. Considerada essencial, foi uma das bandeiras da Administração Obama, mas tem estado envolta em alguma polémica e poderá estar comprometida se os novos eleitos decidirem dificultar ou mesmo recusar a sua implementação.

O próximo Congresso terá de reautorizar o Elementary and Secondary Education Act, também conhecido por No Child Left Behind (NCLB), mas essa reautorização não vai ser fácil, pois durante a campanha eleitoral foram muitos os candidatos que já anunciaram estar contra e que, a ser eleitos, não a implementarão.
 
Os "novos" governadores e funcionários da educação estadual também terão de decidir se devem ou não dar seguimento a uma mudança radical da educação e que está prevista no Common Core Standards Initiative. E é sabido que os estados têm o direito de decidir o que vai ser ensinado e  nem sempre escolhem o mesmo conteúdo e o mesmo nível de rigor uns dos outros, pelo que o debate vai ser vivo.

Os críticos deste programa dizem que as diferenças de estado para estado tornam impossível garantir que os estudantes recebam uma educação padrão, nacional, consistente e de alta qualidade e que se torna necessário, por isso, comparar e avaliar quais os estados que estão realmente a concretizar o programa e se o estão a fazer como deve ser, apoiando aqueles que precisem.

Houve muitos estados com menos capacidade financeira que aderiram ao programa e o começaram a concretizar, quando a administração Obama anunciou que os estados que concordassem em adoptar o Common Core Standards podiam ter mais probalidades de vir a receber o apoio disponível de 4 mil milhões de dólares para o Race to the Top. Mais de 40 estados assinaram o contrato para implementar esses padrões nacionais, mas isso poderá mudar com a nova agenda política resultante destas eleições e muito centralizada no controle local. Mesmo este ambicioso Race to the Top poderá estar comprometido se o congresso do próximo ano, se recusar a continuar a financiá-la.

É algo que ficaremos a saber em breve.