28 de fevereiro de 2011

PSL

Há certas coisas que me fazem uma impressão doida.

Uma delas é o ódio que Pedro Santana Lopes (PSL) provoca em tanta gente. Há anos que isso acontece e dir-se-á que muitas vezes tem sido por responsabilidade do próprio. A sua vida social e privada durante muitos anos foi excessivamente exposta. A sua incursão pela comunuicação social não foi a de maior sucesso. E a sua passagem por S. Bento não foi, na realidade, muito feliz.
É certo que teve toda a gente contra, desde Sampaio, a Cavaco, passando por Constâncio, Marcelo, Marques Mendes, Ferreira Leite, sem esquecer sondagens fraudulentas, comentadores, jornalistas, catedráticos do inatacável Bloco Central de interesses, banqueiros e bancários. Mas houve erros crassos, desde a falta de legitimação, à escolha de alguns ministros, a discursos despropositados.

No entanto, o seu curriculum na vida pública e a obra feita em tantos lugares por onde passou, são quase imbatíveis. Santana é dos políticos com melhor e mais diversificado percurso político. Foi deputado durante anos, líder parlamentar, eurodeputado, secretário de Estado, por duas vezes, Presidente de duas câmaras, Primeiro Ministro. Além disso, é professor universitário, advogado, consultor jurídico. E tem 55 anos.

Trabalhei com ele duas vezes, num total de cerca de 7 anos. E tenho a visão de um homem criativo, repentista, exigente, explosivo, hábil, de grande capacidade de liderança, com acentuado pragmatismo e coragem. Às vezes sonhadora. Às vezes ingénua. Às vezes inconsequente. Mas indiscutivelmente alguém estimulante. A quem não se fica indiferente.
Foi das pessoas com quem mais gostei de trabalhar. E com quem mais aprendi.
Há muitas coisas em si, nas quais não me revejo. Com as quais não concordo. Que nada têm a ver comigo. Mas não posso deixar de ficar impressionado com as reacções que ele provoca em tanta gente. Há meses que as suas intervenções têm sido pontuais, equilibradas, discretas. Apesar do mandato apagado e sem rasgo que António Costa tem tido em Lisboa, não se têm visto grandes criticas ou bloqueios. E o mesmo relativamente ao PSD ou ao Governo.

Mas esta semana, depois de ter dito o que muitos pensam - que Pedro Passos Coelho ainda não convenceu o país e que tendo em conta a situação caótica em que está Portugal, talvez o povo português se revisse mais em alguém com um perfil mais exigente, maduro e experiente como o de Rui Rio - caiu o Carmo e a Trindade. Foram comentadores, foram políticos, foram politólogos, foram jornalistas e cronistas. Muitos a quem não se conhecem idênticas posições e reacções relativamente a outros intervenientes políticos. E que, por dever de ofício, até devessem ser imparciais. Mas com PSL não conseguem. E atacam, mentem, deturpam, ridicularizam, ficam cegos, batem sem dó nem piedade. Descarregam frustrações, insucessos e traumas.

Para quê? Porquê?

Mesmo que não se goste do estilo, é de inteira justiça reconhecer que foram muitas as coisas positivas que PSL fez por Lisboa e por Portugal.

Por isso, faz-me imensa impressão esta ferocidade critica. Quase sempre gratuita e altamente persecutória. Haveria seguramente muitas outras pessoas que mereceriam ser criticadas com o mesmo estilo. Inconsequente, diga-se, pois PSL já demonstrou, nas suas 7 vidas, que não se impressiona com enxovalhos, rasteiras e golpes baixos. Até, penso, que têm o efeito contrário. E, ou eu me engano muito, ou ainda vamos ouvir falar muito e por boas razões do "menino guerreiro".
O cansativo é que as criticas dos mesmos continuarão a ouvir-se como um eco. E isso não deixa de ser revelador da falta de qualidade e até de carácter que existe na vida pública e numa parte da chamada sociedade civil. Para mal do país. E do debate são, sem preconceitos ou pré-juízos.

The Ocean


Oscar


Cary Grant em 1970 (aqui)

27 de fevereiro de 2011

Domingo




Último domingo de Fevereiro com um sol fantástico. Para terminar bem o pior mês do ano. Aquele que quero sempre que passe rápido. Passeio por Lisboa, passo pelo jardim do Arco do Cego. Recordo momentos passados. Sinto que muitas coisas muito boas estão para acontecer. Muitas mudanças, avanços, passos em frente. Bons. Com luz. E paixão.

23 de fevereiro de 2011

Romesco

21h40
Aqueço um pouco de azeite numa frigideira onde refogo uma fatia, com um dedo de espessura, de pão duro e umas quantas amêndoas, mexendo sempre, até que estas comecem a ficar acastanhadas. Adiciono 3 dentes de alho e refogo mais 1 ou 2 minutos. Coloco o conteúdo da frigideira no 1,2,3 e junto alguns ingredientes: sal, o conteúdo de 1 lata de tomates pelados inteiros, dois pedaços pequenos de pimentão vermelho assado que tiro de um frasco, paprika e vinagre de xerez. Trituro tudo até obter um puré homogéneo.
Espalho esse puré num pirex e levo ao forno pré-aquecido a 350°C, uns 15 minutos, até o preparado começar a caramelizar. Deixo arrefecer e raspo tudo para um recipiente para armazenar. Como este Romesco espanhol, uma espécie de "pesto", barrando uma fatia de pão saloio cozido em forno de lenha e bebendo um copo de Grainha, branco 2009.

Vem o sol, vêm as m emórias


Gary Cooper e Audrey Hepburn (a cores)
no filme de Billy Wilder, 1957
Love in the Afternoon /

22 de fevereiro de 2011

Verdades e Mentiras


Sou fã incondicional da série "Lie to me" que passa na Fox. Tim Roth é brilhante. Os casos têm em geral interesse. E o tema é apaixonante. Detectar mentiras através de ligeiras expressões faciais e linguagem não verbal, como uma quase invisível contracção facial, um piscar de olho involuntário, gestos com as mãos, o tom de voz, o contacto visual, o aclarar a garganta e a expressão corporal, é qualquer coisa de fantástico.

Como Advogado sempre foi uma tentação, mais que uma obrigatoriedade, tentar perceber se quem temos à nossa frente está a dizer a verdade num caso em que se jogam interesses, direitos, valores e que pode marcar a vida de alguém. Muitas e muitas vezes enganei-me. Muitas e muitas vezes achei que quem estava à minha frente estava a dizer a verdade e não estava. Pode não parecer nada de especial, afinal acontece a qualquer um. Mas, mesmo assim, e até mesmo reconhecendo que tenho alguma intuição, é desagradável verificar que alguém nos mentiu e nós não nos apercebemos. Na vida do dia-a-dia é uma desilusão que se tem de ultrapassar, na vida profissional as consequências para terceiros podem ser complicadas e nalguns casos, até, inultrapassáveis.

Na série, a descoberta da verdade é rápida, a detecção pela equipa do Dr. Cal Lightman de quem está a mentir é muito mais rápida do que acontece na vida real. Mas isso não faz com que a série seja inverossímil, tanto mais que ela se baseia nas descobertas de Paul Ekman, o maior especialista nesta área, psicólogo americano que estuda as expressões faciais e a linguagem não verbal há mais de 50 anos e que foi considerado pela "Time" uma das pessoas mais influentes de 2009. Ekman é consultor da série e garante que a maioria das coisas que se vê na série é baseada em estudos científicos.

Na série existe ainda outra curiosidade. A personagem Ria Torres (Monica Raymund), que trabalha no "The Lightman Group", uma morena sensual, ex-funcionária de aeroportos, que graças à sua espantosa intuição e sem os estudos do cientifico, doutorado em Oxford, Dr. Lightman consegue, muitas vezes, chegar às mesmas conclusões do mestre. O que induz uma outra discussão apaixonante: a descoberta da verdade, através da observação das expressões faciais e linguagem não verbal, pode ser feita de forma cientifica ou quase cientifica, mas também pode ser feita de forma intuitiva ou quase intuitiva, sem preparação e bases cientificas. E isso é, afinal, um pequeno sinal para todos aqueles que tendo uma intuição especial, a poderem potenciar e utilizar em proveito dos outros, não desperdiçando o que poderá ser um "dom".

Sejam Advogados, ou não.

21 de fevereiro de 2011

Cover


Solo

Um artigo publicado a semana passada no “El País semanal”, intitulado “Aquí vivo solo” relembrou uma realidade assustadora, relacionada com o imobiliário. Milhares e milhares de casa vazias por vender em bairros meio construídos. É em Espanha, podia (é) em Portugal.

A descrição é impressionante: casas novas para mais 3,5 milhões de compradores (!), 565.000 casas prontas à venda, 290.000 em construção, 360.000 com obras paradas, 1.073.670 em projecto. Urbanizações projectadas para 30.000 pessoas ocupadas por mil.  Infra-estruturas que suportariam a vida de uma enorme concentração de gente suspensas, transportes, escolas, tv cabo, recolha do lixo, tudo o que se dá como garantido quando se compra uma casa nova num bairro anunciado como um oásis numa "nova" centralidade.

Centenas de famílias, sobretudo jovens, com as vidas condenadas, empatadas com créditos gigantescos,  que agora estão a meio do nada, sem perspectiva, sem outra solução a não ser abandonar tudo e começar de novo, endividados, desanimados, mais pobres, com muito menos sonhos.

Cidades fantasma, memória de um enorme pesadelo e prova da loucura colectiva que, em poucos anos, arruinou países e vidas, graças às ilusões de uns, à ganância de outros e à complacência de tantos.

Durante anos, o embuste foi sendo alimentado e as ilusões mantidas com habilidade. Crédito muito fácil. Especulação. Miragem. Para hoje se estar numa situação miserável, precária, frágil, dependente de planos que não saem do papel como o Programa Local de Habitação em Lisboa, vivendo de oportunidades momentâneas, sem estratégia, e de expedientes. Como o da empresa pública Estamo que parece ter sido a maior fonte de receitas do Estado português em 2010, tendo comprado "solo" mais de metade dos imóveis que o País vendeu o ano passado, no valor de 290 milhões de euros, o que implicou uma redução do défice orçamental em cerca de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

Expediente primário que volta a iludir e que faz esquecer por momentos que foi preciso chegar ao ponto que se chegou para todos acordarmos e pararmos para pensar. E isso devia servir de lição. Pelos vistos, não.

19 de fevereiro de 2011

Obama & Tech Execs

(Obama, à sua esquerda Steve Jobs e à direita Mark Zucerkberg)




O Presidente dos EUA promoveu um jantar privado na 5ª feira passada em Silicon Valley com alguns dos maiores nomes da tecnologia, que incluiu os lideres da Apple, Google e Facebook. O jantar visou encontrar novas formas do governo e o sector privado poderem trabalhar juntos para melhorarem a economia, promoverem o crescimento e criarem empregos nos Estados Unidos. Por cá, é o que se sabe...




17 de fevereiro de 2011

A Londres de Fergus Henderson













 muito e muito, sempre mais e mais, num dos meus locais favoritos, que até são dois, pois há um restaurante e um outro de petiscos. obrigatórios, fabulosos, de comida inglesa única, de um chef inglês apaixonado por França, com vinhos franceses e que agora também é hotel, em Londres

a quem interessar










numa das próximas viagens adorava levar este par de malas art deco da Hermes, uma de 1930 e outra de 1935, que terão sido feitas para a escritora dinamarquesa Karen Blixen, autora do famoso Out of Africa, publicado em 1937, oferecer ao seu amante, caçador e piloto, Denys Finch Hatton.

as malas contêm todos os artigos possíveis e imagináveis, alguns em prata e tartaruga, para uma viagem a África: múltiplos compartimentos, caixas de couro, acessórios de fumo, instrumentos de escrita, frascos de perfume, cosméticos, jogos de cartas, jóias, pequenas ferramentas, artigos de costura, pincéis, etc., etc., etc..

este par de malas parece que nunca chegou ao Quénia, onde Blixen estabeleceu uma plantação de café no sopé dos montes N'gong, nem ao seu destinatário, uma vez que Denys Finch Hatton, morreu num acidente de avião em 1931, e Blixen deixou  no mesmo ano África regressando à Dinamarca, onde morreu em 1962.

hoje em dia, as malas estão num museu da Hermes, mas a famosa marca afirma que fará um par idêntico para quem se mostrar interessado e, claro, tenha os recursos necessários.

pode ser que alguém se lembre de mim.


Er(r)os

Penso cada vez mais na importância que o erro, a dúvida e a critica têm nas nossas vidas. Sempre gostei de questionar, de ouvir um bom argumento, de perceber o porquê. Odeio que me digam: porque sim, porque sempre foi assim. Ou que se critique e não se apresente alternativa. 

Incuto aos meus filhos o prazer da dúvida, a força da argumentação, a importância da objecção. E procuro cada vez mais ter consciência do erro. Dos meus erros.  Mas também  dos erros dos outros. Por vezes é difícil. Sobretudo, se os erros são uma constante. Reiterados. Sem emenda. Ou são de alguém que nos diz muito e tudo, então, ainda se torna mais complexo.

Há uns tempos, li um artigo do Prof. João Caraça, em que ele dizia que a tão necessária "inovação" é um erro no sentido que só aparece a partir de um dado momento, sendo por isso um erro em termos de existência anterior. Dizia ele que a natureza copia, copia sempre, replicando-se continuamente e de vez em quando acontece um erro qualquer. Umas vezes, esse erro funciona, outras não. Esse erro é a inovação. É uma visão muito curiosa.

O que me parece pacífico, é que só erra quem faz. Até, mesmo, sabendo que há possibilidade de errar. Mas, mesmo assim, faz. Quem hesita, hesita, quem tem medo de errar, muitas e muitas vezes não faz. É evidente, por outro lado,  que o erro evidencia a importância da dúvida, pois só dúvida quem sabe ou quer saber...E nessa vontade de saber mais, às vezes, erra. 

É muito importante duvidar, objectar, questionar, criticar, argumentar e, naturalmente, errar. Mas também, claro, procurar aprender com os erros. Para não os repetir. Para avançar, saltar, prosseguir.

No exercício da cidadania, no processo cientifico, na democracia, no processo de criação artística, no amor, na paixão, é determinante errar, objectar, questionar e aprender com os erros.  Criticar sem bases, sem fundamentos, é fácil, é escasso, é redundante. Infelizmente, muitas vezes confunde-se as coisas e critica-se, comenta-se, opina-se e especula-se, pelo prazer de criticar, de criticar gratuitamente, pelo prazer da retórica pura e se não apresenta alternativa. E fica-se em circuito fechado, às voltas. Errando, errando e não apreendendo, não criando, não saltando.

15 de fevereiro de 2011

Love's been good to Me

12 de fevereiro de 2011

Uma imagem não vale mil palavras

Lisboa, 1956

"Ao contrário de Fernando Pessoa, Gérard Castello-Lopes não tem heterónimos, tem vidas. Várias e sucessivas." António Barreto in revista Indy de 23 de Outubro de 1998, Jornal Independente."

Morreu um dos homens mais carismáticos que conheci.

Uns dias depois

de uma derrota humilhante do candidato presidencial apoiado em conjunto pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Socialista, o fanático revolucionário Louça aparece em grande forma, não retirando nenhuma consequência daquela derrota e esquecendo que nessa eleição defendia o mesmo que o partido que agora quer ver censurado.
não interessa a situação do país, não interessa a imagem que a sua decisão pode ter, não interessa deixar o país em suspenso um mês, nada. o que interessa é chegar primeiro que o partido comunista.
uma demonstração de pequenez, receio do partido concorrente, demagogia e irresponsabilidade. própria  de quem nunca mudará. e que não olha a meios fazer a sua política.
como é que se sentirão hoje os socialistas que estiveram ao lado do Bloco na recente campanha eleitoral e noutras discussões  socialmente "fraturantes"?
como é que sentirá Manuel Alegre?
como se sentirão os apoiantes, militantes e simpatizantes do Bloco, muitos deles com forte intervenção e participação na sociedade, nomeadamente nos media e no meio académico, sempre tão rápidos em caricaturar outros políticos e gestores?

se o PSD ainda tiver o mínimo de bom senso e sentido de responsabilidade, demarca-se o mais rapidamente possível desta atitude trotskyana, como muitas outras, que têm prejudicado inapelavelmente o país.
chega de trapalhadas!

10 de fevereiro de 2011

...

Estereótipos e fobias

Estou cansado de estereótipos: as louras são estúpidas, os advogados aldrabões, as enfermeiras insensíveis, os polícias estúpidos, os gordos cansam-se mais, os políticos são todos mentirosos, os ciganos vivem à custa dos outros, o amendoim é afrodisíaco, os italianos "do it better", os empresários são exploradores, os partidos de esquerda defendem os trabalhadores, os de direita são reaccionários, Berlusconi é um tonto, Fidel um mito.

O que motiva o estereotipo varia: preconceito, capricho, educação, burrice, atraso, pequenez, influência marxista (que olha para a sociedade e a politica como um jogo de distribuição, em que uns perdem e outros ganham e ganham à custa dos outros), influência religiosa (pecado), influência dos media. E muitas vezes, é mesmo uma questão de principio, de maneira de ver a vida.
O que é certo, é que muitas vezes esses estereótipos levam a situações socialmente complicadas, a discriminações, perseguições, a atrasos, a consequências económicas desastrosas, a simples anedotas.

Devemos ser dos países europeus com maior número de estereótipos. Em Portugal, quem tem sucesso é gay, ou Opus Dei, ou maçon, ou do "partido x", ou aldrabão, explorador, corrupto. Ou tudo junto. A esquerda é progressista e defende o Estado Social, a direita conservadora, quer privatizar tudo. Louça é inteligente, integro e fala muito bem. Portas é um "beto", a querer ter ar de inglês, mas que não pode ter poder, pois é perigoso. Santana é mulherengo, populista, preguiçoso, não leva nada até ao fim. Sócrates é vaidoso e habilidoso. Alegre é um republicano, corajoso. Cavaco não tem mundo e é rancoroso. Soares um bon vivant. Sampaio um homem sério. Constâncio seríssimo. Roseta preocupa-se com a habitação.

Estou cansado destes estereótipos. Acho que criei, mesmo, uma fobia a este género de generalizações com que vivemos, com que somos governados, que ouvimos todos os dias. Destas banalizações cansativas que nos rodeiam.
É sempre estimulante descobrir que se tem uma nova fobia. E, seguramente, é importante perceber que se tem uma. Há quem não tenha essa sorte e quem nunca perceba que tem uma fobia. Uma que seja, para amostra.
Eu tenho algumas. Odeio ver cuspir na rua, ver palitar os dentes, passar por debaixo de uma escada, de raparigas com 40 anos que se auto-intitulam pós-modernas, de juízes que se acham mais importantes que os advogados, de jornalistas que dão opinião sobre tudo, de comentadores não isentos, intelectuais de esquerda, do "vocês", de prepotentes, manipuladores, violadores, pedófilos, cobardes, de filmes do César Monteiro, da música do David Fonseca, de... estereótipos. Tudo isso me faz arrepios. Me transtorna, me cansa, me deixa fora de mim. Me persegue e não consigo evitar. Cada vez mais. Não sei porquê.

kiss the rain




Yiruma

9 de fevereiro de 2011

Presidentes


A Costa do Marfim tem 2 presidentes desde Novembro. Os dois candidatos, que se defrontaram nas eleições, reclamaram vitória e tomaram posse como presidente(s). Laurent Gbagbo, no poder desde o ano 2000, foi indigitado por decisão do Conselho Constitucional, dirigido por um dos seus apoiantes e o seu rival, Alassane Ouattara, que de acordo com a contagem da comissão eleitoral independente teve a maioria de votos, com 51,4 por cento dos votos, indigitou-se a ele mesmo num hotel, anunciando, desde logo, que a sua primeira medida tinha sido nomear um novo primeiro-ministro Guillaume Soro – um antigo guerrilheiro que ocupara o cargo no governo de Gbagbo, do qual se demitiu para apoiar Ouattara.

A Costa do Marfim, onde os portugueses chegaram no século XV, iniciando o comércio de marfim e  escravos, é um país dividido não só geograficamente (Norte vs Sul), como religiosamente (muçulmanos vs cristãos). A confusão decorrente das eleições é o espelho dessa divisão.

As Nações Unidas, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional têm considerado Alassane Ouattara o “legítimo vencedor”, não reconhecendo a posse de Laurent Gbagbo, que por sua vez tem criticado a “ingerência política” de países estrangeiros, frisando que não precisa dos líderes internacionais para lhe darem posse.

O mandato de cinco anos de Laurent Gbagbo expirou em 2005, mas o presidente foi-se mantendo no poder. Depois de sucessivos adiamentos, o acto eleitoral foi marcado para o final do ano passado, tendo sido a primeira vez que Alassane Ouattara, um antigo economista do Fundo Monetário Internacional e primeiro-ministro de 1990 a 1993, foi autorizado a candidatar-se. Ontem nas ruas, havia confrontos e violência. Uma guerra cívil.

Por cá, o nosso Presidente, e pela primeira vez desde que tomou posse em 2006, devolveu ao Governo, sem promulgação, o diploma que prevê a obrigatoriedade de indicação do nome genérico.
Confesso que não percebo qual o problema num médico, em vez de  me prescrever Ben-u-ron, prescrever paracetamol. A isso creio chamar-se denominação comum internacional (DCI) e nada parece impedir que na farmácia a partir dessa DCI, eu escolha a marca A em detrimento da marca B. Se for eu a pagar, nem se fala, mas se tiver comparticipação da Segurança Social ou da ADSE, também parece pacifico, e nesse caso que tenha de pagar a diferença entre o valor do genérico e o da Marca. Estou a ver mal?

Há coisas que custam a perceber. Tão absurdas.... Que são de outra dimensão. Que me escapam. E, então, com presidentes...

8 de fevereiro de 2011

Chapéu-de-Chuva



nada como um bom chapéu-de-chuva (prefiro a guarda-chuva e, claro, a sombrinha). dizem que os mais antigos que se conhecem terão sido da Mesopotâmia (mais ou menos o actual Iraque), um dos berços da civilização, que nos deixou, por exemplo, algo fantástico e que me lembro cada vez mais: o  Código de Hamurabi. 
no Egipto os chapéus-de-chuva tinham significado religioso 
e na Grécia e em Roma eram um objecto exclusivamente feminino. 
no século XVIII, graças à teimosia de um comerciante inglês Jonas Hanway, passaram a ser considerados dignos de um gentleman.
um bom chapéu-de-chuva protege mesmo da chuva, dura, dura, dura, 
dá indiscutivelmente um certo estilo 
e é útil mesmo quando ameaça, mas não chove,
como hoje.
não vivo sem o meu, preto, com um cabo lindo
e um tecido que seca em poucos minutos.

1 de fevereiro de 2011

Penso, acredito, defendo, que

 
1. Não importa quem somos e que ideologia política temos, cada um de nós é parte de algo maior, algo mais consequente do que um partido ou preferência política - uma nação, uma nação valente, imortal, como diz o nosso hino e  por isso penso, acredito, defendo que o nosso futuro cabe a nós definir. Governar nesta altura tem ser uma responsabilidade partilhada por partidos e por quem não se revê em partidos,  por políticos e por cidadãos, sozinhos ou em movimentos, pois os desafios que enfrentamos são maiores do que esses partidos, interesses partidários, ou quaisquer outros.

2. O progresso do nosso país, independentemente de outros indicadores seguramente importantes,  deve ser medido pelo sucesso do nosso povo, pelo emprego e qualidade de vida que o trabalho proporcione, pelas perspectivas de alguém que sonha em transformar uma boa ideia numa empresa próspera. Pelas oportunidades de uma vida melhor que passaremos aos nossos filhos. 

3. Para isso ser possível, precisamos desafiar o que se tem mantido inalterável há décadas. O mundo mudou, as regras mudaram. Numa única geração, as revoluções tecnológicas transformaram a maneira como vivemos, trabalhamos e fazemos negócios. As fábricas, que há 20 ou 30 anos precisavam de 1.000 trabalhadores, podem agora fazer o mesmo trabalho com 100. Hoje, praticamente qualquer empresa pode abrir uma escritório ou loja, contratar trabalhadores e vender os seus produtos com uma ligação à Internet. A competição é real e isso deve desafiar-nos a mudar a filosofia da legislação laboral que temos. Mas mudar, mesmo.

4. E fazer da celeridade e da confiança na Justiça um objectivo sem limites. Reduzir lei, códigos, normas, simplificar muito, mas muito, processos, penalizando expedientes dilatórios, atrasos, faltas. É preciso ter Juízes e representantes do Ministério Público mais bem preparados. Ter Advogados mais dignos. Um país sem Justiça ou em que as pessoas não confiam nela, não tem sentido. Um país em que as pessoas fogem da Justiça, não é um país.  Uma Justiça lenta não é Justiça. Os rostos da Justiça são os mesmos em Portugal há uma década: representantes das classes, sindicatos (!) interlocutores, legisladores, bastonários, Juízes, Advogados. E a Justiça está como está. É preciso uma mudança radical.

5. Cada um de nós merece uma oportunidade para construir o seu próprio destino. Mas para chegar lá, não podemos simplesmente ficar parados, temos de agir. Precisamos inovar, educar e construir. E precisamos que de uma vez por todas seja assumida a reforma do nosso sistema político. Só assim o País vai prosperar. Só assim vamos ganhar o futuro. Este sistema, estes partidos, estes políticos, estes jogos de interesses, não podem continuar. Não devemos ter um Governo que é simpático, ou que trabalha bem a propaganda, devemos ter um Governo que é competente e eficiente. Não podemos vencer o futuro com uma organização politico-administrativa do passado. Nós vivemos e fazemos negócios na era da informação, mas o nosso sistema politico é da era da televisão a preto e branco. Há diferentes órgãos que lidam com os mesmos assuntos. isso não faz sentido. Temos de trabalhar para reconstruir a fé das pessoas no Estado, um Estado do século XXI, aberto e competente, que vive dentro dos seus meios.

6. O passo decisivo é ter a certeza de que não continuamos a nos afogar em dívidas, pois estamos a viver com um legado de déficit, que começou há décadas. Temos que encarar de uma vez por todas que o nosso sistema gasta mais do que tem e isso é insustentável. Todos os dias, as famílias portuguesas fazem sacrifícios para viver dentro das suas possibilidades. Elas merecem um Estado que faça o mesmo. Por isso é obrigatório eliminar tudo o que  o Estado se poder dar ao luxo de prescindir, cortando o excesso de peso. A única maneira de enfrentar o nosso défice é emagrecer e cortar gastos excessivos onde quer que haja. Para ajudar as nossas empresas a competir, temos que derrubar as barreiras que se interpõem no caminho do seu sucesso. É preciso simplificar o sistema e que este se livre das brechas. É preciso desbravar a burocracia.

7. Ninguém pode ter a certeza de qual é a chave do sucesso e qual o ramo de negócio que terá sucesso daqui a uns anos - há 30 anos, não podíamos saber que algo chamado Internet conduziria a uma revolução económica. O que podemos fazer é apostar e acreditar na nossa criatividade. Temos de nos reinventar e fazer com que sejam estimuladas e apoiadas as histórias de sucesso. Chega de deitar abaixo e para baixo quem tem sucesso! Precisamos ir atrás da inovação e tirar partido dela.

8. Para isso, temos de acabar com os milhões que são dados a quem não precisa, a bancos e empresas do Estado eternamente devedoras, subsidios de desemprego e rendimentos de inserção a quem não quer trabalhar. Dinheiro mal gasto. Se queremos inovação para gerar empregos, temos de  pensar melhor e educar melhor os nossos filhos. Nos próximos anos, o emprego irá exigir conhecimentos e educação que vai muito além do ensino obrigatório. A qualidade do nosso ensino de matemática, ciências ou de música está atrás de muitos outros países, nomeadamente da antiga Europa de Leste. Temos de inverter isso. Os nossos alunos devem não apenas memorizar, mas pensar. Temos de investir na ciência, na pesquisa biomédica, nas tecnologias de informação, nas artes, em energias limpas.

9. Nos últimos anos foi feita uma importantissima recuperação do parque escolar, dos edifícios, como se impunha. Mas a grande questão é saber se estamos dispostos a fazer o necessário para dar a cada criança uma chance de sucesso. E essa responsabilidade não começa nas escolas, mas em nossas casas. É a família que ajuda a despertar o desejo de aprendizagemIdolos,  que merece ser comemorado, mas também, a existência de um prémio Nobel português. Que o sucesso não é em função da fama, mas do trabalho, da criatividade e da disciplina. É a familia o cerne da educação.

10. Claro, que as nossas escolas partilham essa responsabilidade, pois quando uma criança entra numa sala de aula, ela deve sentir que entra num lugar de expectativas elevadas, rigor e alta performance, e nesse sentido temos de valorizar e recompensar os bons professores e preparar novos e bons professores nos domínios do português, das ciências, das tecnologias, da engenharia e, sobretudo, da matemática. É preciso que esta geração e a próxima percebam a diferença na vida do nosso país de haver muitos jovens cujo sonho é serem professores. O país precisa de bons professores e todos sabemos que na última década, muitos professores foram-no porque não tiveram outra hipótese noutra profissão.

11. E porque as pessoas precisam de ser capazes de ter novos empregos e carreiras nesta economia em permanente mudança, é fundamental revitalizar muito, mas muito as escolas técnicas. Há muito a fazer nesta área.

12. Para nos colocar em terra firme,  devemos  igualmente encontrar uma solução pluripartidária e partilhada para fortalecer a segurança social para as gerações futuras. E devemos fazê-lo sem colocar em risco os aposentados actuais, os mais vulneráveis, ou  as pessoas com deficiência, sem cortar benefícios para as gerações futuras. E obrigar quem mais tem a pagar mais. Não é uma questão de punir o seu sucesso. trata-se de permitir a sobrevivência do sistema  de forma que os nossos filhos, como os nossos pais, tenham alguma segurança, quando não poderem trabalhar.

13. E, apesar do defice,  precisamos de simplificar o sistema tributário e reduzir a carga fiscal, nomeadamente, o IRC e o IVA sobre as empresas. Tem de haver mais incentivos directos e indirectos para ajudar a vender mais produtos internamente e no exterior, porque quanto mais vendermos e exportarmos, mais empregos criamos. Como estão, as nossas empresas não conseguem ser competitivas, não conseguem crescer, não conseguem sobreviver. Perdem para quem em Espanha, França, Holanda, Bélgica, Itália, tem condições melhores. Os nossos produtos têm de ser mais conhecidos. Temos produtos de qualidade excepcional que o mundo não conhece.
14. O nosso sucesso neste mundo em permanente mudança exige uma economia impulsionada por novos conhecimentos e ideias e exige reformas, responsabilidade e inovação. Não devemos ter ilusões. Reformar a legislação laboral, a Justiça, o sistema político, acabar com os "interesses",  apostar na educação, na inovação e na cultura, reduzir o défice - nada disto é fácil. Tudo isso vai levar tempo. E vai ser difícil. Mas o nosso destino depende da nossa escolha.

15. Podemos ter diferenças políticas, mas todos amamos o nosso país e sofremos por o ver moribundo. Todos acreditamos nos direitos consagrados na nossa Constituição. Todos ficamos comovidos quando vemos a nossa bandeira e ouvimos o nosso hino. Podemos ter opiniões diferentes, mas todos sabemos que podemos fazer coisas grandes. E não apenas no futebol. Portugal tem de acreditar, de ousar sonhar. Temos de ser um povo que diz: "eu tenho uma boa ideia para o meu país, tenho uma ideia para uma nova empresa, posso não saber quais são as dificuldades, quais são os problemas, quem precisa de ajuda, mas acho que consigo ultrapassar isso tudo e  fazer, colaborar, e ajudar quem precisa". 
Se pensarmos assim, teremos futuro. Eu procuro pensar.