31 de março de 2011

Constança

Ir, vir, charters e China



Quem sabe, sabe. E devemos reconhecer quando alguém, mesmo que não pareça, é visionário.

Guangzhou, no sul da China, é uma das cidades que mais cresce no mundo. O seu dinamismo  tem sido imparável nos últimos 20 anos. Mas, até 2010, as ruas estavam tomadas pelo irritante congestionamento de tráfego e pela enorme poluição. 

O ano passado, a cidade deu passos importantes para reduzir as emissões de carbono, recuperando espaço para as pessoas e lançou um sistema de  novos autocarros rápidos em simultâneo com um sistema de partilha de bicicletas públicas.

O sistema BRT, inaugurado em Fevereiro de 2010, transporta 800.000 passageiros por dia de forma célere e sem grandes problemas de ligação ao metro ou ao sistema de bicicletas, tendo recebido por isso o 2011 Sustainable Transport Award

Parece simples e muito eficiente. E podia servir de inspiração para muitos urbanistas, políticos, e gestores de transportes desinspirados, que por cá temos, que teimam em nos conduzir como cidades do passado. Na China, ganha-se o futuro. Deste ponto de vista, claro...

30 de março de 2011

Villa





Vila Luz Pereira
Travesa do Jordão, 18

Descia a pé pelas ruas únicas da Mouraria, o que adoro, quando vi esta excepcional vila do inicio do século XX, perfeitamente conservada. 
Entrei. 
São duas alas formando um pátio, com 2 pisos e um amansardado. 
Os vãos são em tijolo à vista. 
E tem umas estupendas e seguramente muito necessárias antenas.

Street Etiquette

Out & In (ou melhor, sem e com)



 Projecto: CAS-Arquitectos
Conjunto de prédios de habitação e comércio
Local: Alta de Lisboa
Fotografias: Sgal




Projecto Risco
Altis Belém Hotel, 5 estrelas, 50 quartos, 2 pisos
Local: Belém, Lisboa,
Fotografias: FG + SG




Projecto Group8 
Prédio de 58 de apartamentos e dois pisos comerciais
Local: Genéve, Bairro Chandieu
Fotografias: Régis Golay, FEDERAL studio
 

29 de março de 2011

Os efeitos do chumbo


(Portugal)


(Espanha)

O Governo tem vindo a atribuir  as responsabilidades pelo recente aumento das taxas de juro  (que já vai nos 8,74%) à "crise política" provocada pelo chumbo do PEC IV.

É evidente que o chumbo veio aumentar a incerteza quanto à existência de condições políticas para implementar as medidas de austeridade indispensáveis para garantir a sustentabilidade da dívida. Por isso, os  três partidos responsáveis do país deram garantias que continuam a defender a necessidade de redução do deficit. 

Mas, como se pode verificar por estes quadros as taxas de juro da dívida portuguesa a 5 anos têm vindo a subir desde o principio do ano.

Por oposição, estes quadros demonstram uma descida da dívida pública espanhola no mesmo período. O que parece explicar que a situação de Portugal é sobretudo por responsabilidade própria e não devido à conjuntura internacional.

8h30


3ª feira. chuva. Lisboa. greve do Metropolitano. a pé. dia cinzento. nenhuma bicicleta. EMEL a multar. Marquês de Pombal sem trânsito. fato azul. Frank Sinatra nos ouvidos. voar nos pensamentos.

28 de março de 2011

#005b84

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SEE - 32,6 mil milhões

No principio de 2010, o BPI elaborou um estudo/diagnóstico da situação das contas públicas portuguesas, chamando a atenção para a importância dos compromissos assumidos pelo Estado no âmbito do Sector Empresarial do estado (SEE) e das concessões de serviço público, nomeadamente através das Parcerias Público-Privadas (PPP).

Os resultados a que o estudo chegou apontavam para que a dívida pública consolidada do Estado correspondesse, no final de 2009, a 100% do PIB, resultando de adicionar à divida directa do Estado (82,4%), a correspondente ao SEE (10,7%), a dos municípios, (3,1%), a da RA da Madeira (2,9%) e a da RA Açores (0,6%).

Não é assim novidade a difícil situação financeira do Sector Empresarial do Estado.

Mas se olharmos, para o relatório do 3.º trimestre de 2010 da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, verificamos em concreto que o passivo global (incluindo Parpública, Saúde e Estradas de Portugal) ascende a cerca de 32,6 mil milhões de euros.

É um número impressionante. Que não é de todo sustentável. A nenhum nível. O valor é absurdo, corresponde a uma fatia algo "escondida" das contas pública, nem sempre mencionada e há casos verdadeiramente inaceitáveis, como uma rubrica indiscriminada de "outros" em que se verifica um aumento dos custos operacionais de 8%, correspondendo 5% ao aumento dos custos de pessoal.

Apesar de tudo, há uma ligeira melhoria da situação global, pois houve um decréscimo de 3,3%, para um total de 1.842 M€ do lado dos custos operacionais, que compensou o decréscimo do volume de negócios do lado da receita de 1,9% para um total de 1.660 M€.

Mas há muito muito muito a cortar. Do lado da despesa do Estado. Do lado da gordura, pois a maior parte deste SEE não tem razão de existir: parte deve estar dentro do próprio Estado e parte deve sair do Estado. Só assim, a despesa do Estado ficará mais magra, com mais saúde e assim gerar mais empatia, mais confiança.

Parece evidente, ou não?

Marketing

 

como uma boa imagem faz um mau café ser Global.

27 de março de 2011

...

Lenta manhã de domingo


olhares, jornais, cafés, torradas, scones, sumo de laranjas algarvias
música de Carmen McRae
preocupações pelo estado do país
perplexidade pelo Sporting
boas notícias nos negócios
tristeza perante a atitude de amigos outrora tão próximos
curiosidade, vontade, serenidade, fé, confiança
good feelings pelos próximos tempos.

Winking, Dropping, Raising, Closing, Covering, Placing

24 de março de 2011

...


Auditoria

Ainda não passaram 24 h desde a demissão do Primeiro Ministro e já proliferam comentários nos media, posts na blogosfera, análises de políticos, ex-políticos (se o conceito existe), comentadores profissionais, politólogos, aprendizes de politólogos, sociólogos, filósofos, historiadores, economistas, constitucionalistas e aprendizes de constitucionalistas.

Mesmo aqueles que há muito estão calados perante a situação miserável a que o país chegou, não resistiram e nas últimas horas avançaram com prognósticos, opiniões sobre o futuro, adivinhações, estudos comparados.

O país está mergulhado numa grave crise há mais de 4 anos, que se agravou brutalmente nos últimos 2 anos. A crise não começou ontem. Não começou no discurso do Presidente da República, nem na gaffe do Primeiro Ministro em relação ao PEC IV. Nem é da responsabilidade da "Europa" ou dos "mercados", mesmo que estes para ela contribuam. É uma crise profunda, estrutural e de politicas erradas, que criaram desigualdades inimagináveis e uma falta de confiança inigualável.

Os próximos anos vão ser muito duros. E as próximas semanas, até às eleições que se adivinham, vão ser de mais análises e contra-análises, numa tentativa de condicionar e influenciar a opinião pública, seja para que lado for.

O mais sensato era efectuar-se, sob os auspícios do Presidente da República e do Governador do Banco de Portugal, uma auditoria, mesmo que sumária, ao verdadeiro estado das finanças públicas. O país, assim, ficava a saber com plena consciência, como está a sua "saúde" financeira e poderia ajuizar com mais conhecimento a pertinência e razoabilidade das propostas que lhe serão apresentadas.

Só estando na posse de todos os dados é que o povo português poderá por si mesmo, sem influências de ninguém, tomar posição sobre o seu futuro.

19 de março de 2011

Terrible Love

Uma importante decisão

De acordo com esta decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, o uso de crucifixos nas salas de aulas não viola o direito à educação ou de os pais educarem os seus filhos de acordo com as suas convicções.


A discussão tem-se arrastado desde há anos em Itália, país que deu origem ao processo que culminou agora nesta decisão que não tem recurso, mas também em Portugal, onde a esquerda e, em particular, o Bloco de Esquerda, levantaram a questão, relativamente pacífica há 15 ou 20 anos, de a utilização de símbolos religiosos nas escolas públicas violar o direito a educar de uma forma laica, característica do Estado.


Sempre entendi que era uma discussão interessante do ponto de vista intelectual, mas relativamente inconsequente, pois sempre me pareceu uma discussão que não preocupa o comum dos cidadãos no seu dia-a-dia, servindo mais como uma bandeira com objectivos de criar uma fractura social e política, num determinado momento. Além disso, em relação à questão em si, nunca considerei que e existência de crucifixos pusesse em causa a isenção e laicidade do Estado, representando antes um sinal de uma tendência maioritária da sociedade ao longo da sua história.

A decisão agora tomada por 15 juízes, contra 2, vem dar razão ao Governo italiano, que em Janeiro do ano passado tinha apresentado recurso de uma deliberação do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos de Novembro de 2009. Nessa altura, o tribunal tinha dado razão a Soile Lautsi, uma mulher italiana de origem finlandesa, que def
endia que os crucifixos nas escolas violavam o direito a educar os filhos de uma forma laica, mas agora esta decisão entende que ao manter o uso de crucifixos em escolas públicas, a Itália não está a infringir a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e está a actuar dentro dos limites das suas funções na área do ensino.


Entendo ser uma decisão razoável e justa que desmistifica de uma vez por todas o tema e coloca a questão num plano mais de acordo com a tradição que, desde há séculos, vigora de forma relativamente pacífica na Europa, sem grandes traumas ou acusações de discriminação, demonstrando que neste tema, como provavelmente noutros, as questões fracturantes tem seguramente interesse enquanto discussão momentânea na sociedade, mas que na sua essência mais pura não correspondem a nenhuma preocupação significativamente profunda nessa mesma sociedade, nem significam em si mesmas nenhuma violação nem sinal de nenhum preconceito social.

Lembrei-Me e Revi



18 de março de 2011

Autógrafos



Gostei desta "encenação" da Improv Everywhere 
a partir do quadro de Velasquez. 
Aqui há mais informação.

16 de março de 2011

Neutralidade


Em "The Master Switch", Tim Wu, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia, criador  do principio “neutralidade da internet”, defende que a internet corre o perigo de vir a ser controlada por um grande esquema monopolista. O que tem sido uma tecnologia aberta e livre pode-se tornar numa tecnologia controlada e fechada. Wu é conselheiro da Comissão Federal de Telecomunicações americana (AT&T) e tem a missão de garantir que a rede continua neutra de forma a que não seja permitido às grandes empresas de telecomunicações decidir se um site carregará mais rápido do que outro.

O argumento para defender esse risco é forte: nos últimos cento e cinquenta anos aconteceu exactamente o mesmo com todas as principais tecnologias de comunicação - telefonia, cinema, rádio, televisão e, até, com o telégrafo. Todas as tecnologias surgiram com um discurso de liberdade e terminaram monopólios. Começaram como hobby, desenvolvidas por inventores jovens e idealistas, em ambientes altamente criativos e utópicos, até que as grandes empresas começaram a perceber a possibilidade de lucro do novo meio acabando por criar um monopólio da informação.

Wu alerta para não deixarmos o mesmo acontecer com a Internet, pois tal como a TV por Cabo, a Internet pode entrar no que ele chama de "ciclo de aberto e fechado", tornando-se uma plataforma dominada por poucas empresas, guerreando-se pelo controle da internet. Do resultado dessa batalha pode depender a liberdade de expressão no século XXI.

Com efeito, vivemos numa era em que a informação é tudo, pelo que saber de onde vêm as empresas  que controlam a informação é de extrema importância. As empresas de comunicação têm algumas características diferentes de outros tipos de empresas. Uma das principais é que elas vendem o poder da palavra, da comunicação, do saber. Comercializam um produto que afecta a vida humana. O Google, por exemplo, oferece um bom serviço, é fácil de usar e está sempre com novas invenções. É de extrema utilidade. Hoje, todos somos dependentes do Google. O problema pode vir a acontecer no futuro, pois com o tempo, o monopolista é tentado a perpetuar-se, a controlar, a defender-se, a acomodar-se. Por isso, não é indiferente saber-se quais e como são as empresas que dominam ou tentar dominar, controlar.

A principal diferença em relação a outras épocas é que hoje as pessoas estão mais informadas e mais resistentes a um controle centralizado da informação. Mas, talvez não o suficiente para reagirem. Quantos casos não conhecemos de manipulação e centralização (mais ou menos subtil) da informação?

Por isso, o alerta deste livro é muito pertinente e pode ajudar a abrir os olhos para que a Internet, ela própria, se mantenha livre e aberta, ao contrário de outros meios de comunicação e de circulação da informação muito controlados política e economicamente.

14 de março de 2011

Isto hoje sabe tão bem!!




"I want every child in this country to head back to school in the fall knowing that their education is America’s priority. Let’s seize this education moment. Let’s fix No Child Left Behind." Barack Obama

Rabanetes com manteiga e flor de sal



Uma das vantagens de um merceeiro é poder ter produtos frescos de qualidade à disposição. Estes rabanetes biológicos foram produzidos por um casal de pequenos produtores, que há dois ou três anos resolveu comprar um pequeno terreno na Moita e começar a produzir apenas produtos biológicos. Certificaram-se e iniciaram o desafio, grande desafio, e a concretização de um sonho. A produção é em pequeníssimas quantidades, mas o que fazem respeita completamente o ciclo da natureza e é tudo, mas tudo, delicioso.

Lavei bem os rabanetes, mantive-os inteiros e servi-os com manteiga sem sal, à temperatura ambiente, com a textura adequada e umas pitadas de flor de sal. Acompanhei com pão de centeio ligeiramente torrado e um copo de Rovisco Garcia, 2009, um branco da Herdade do Monte Novo e Conqueiro, a oeste do concelho de Avis, Alentejo, cuja acidez me pareceu perfeita para acompanhar os rabanetes.

Plano? Estabilidade? Crescimento?

Março de 2010: PEC 1 e indicação que não seria necessário mais aumento de impostos e mais medidas restritivas.

Junho de 2010: PEC 2 e indicação que não seria necessário mais aumento de impostos e mais medidas restritivas.

Outubro de 2010: PEC 3 e indicação que não seria necessário mais aumento de impostos e mais medidas restritivas.

Dezembro de 2010: integração na Segurança Social do Fundo de Pensões da PT.

Fevereiro de 2011: o Governo anuncia que as contas públicas de Janeiro são um êxito.

Março de 2011: o Governo anuncia que as contas públicas de Fevereiro confirmam o êxito de Janeiro.

Março de 2011: PEC IV, que entre outras medidas, alarga o congelamento das pensões, mesmo as de sobrevivência, a 2012 e 2013, e aumenta o IVA, mesmo de bens essenciais, mas mantém TGV, não reduz o número de institutos públicos, de PPP, de despesas supérfluas (quantos Grupos de Trabalho para o Património Imaterial a gastar € 290.000 sem fazer nada, nem reunir, existirão?) e anuncia uma "Agenda das Reformas Estruturais" que choca de tão pouco "estruturais".

(...) Política de acaso, política superficial, política de expediente...








13 de março de 2011

Mais

Não pude ir à manifestação, porque estava a trabalhar. Num projecto que em muitas coisas se identifica com alguns dos objectivos de muitos daqueles que se uniram numa afirmação de revolta, de oposição, de recomeço. Na agitação do dia, senti que também eu estava naquele mar de gente. Era mais um dos muitos que foram.

A manifestação foi um enorme grito. Um "Grito do Ipiranga". Um sinal de libertação. De que não dá mais para aguentar. Depois de tudo, do “jamais”, da história do sucateiro, da licenciatura ao domingo, do caso PT/TVI, dos PEC's, das medidas aos solavancos, da descricionariedade, da situação caótica a que se conduziu o país, das injustiças, da Justiça, do desemprego, do corte das pensões, dos congelamentos, do clientelismo, do discurso de Cavaco Silva, do anúncio do último pacote de medidas sem avisar ninguém, nem Presidente da República, nem Assembleia da Republica, nem PSD (o qual é preciso para aprovar mais medidas), o povo resolveu dizer que chega. Basta. Fim. Assim, não dá mais. Fim de ciclo. E manifestou-se de uma forma emocionante. Ecléctica, diversificada política, social e etariamente. Através de um sinal inequívoco, pacífico, libertador.

Agora, falta que cada um aproveite a energia que demonstrou para melhorar a sua vida e o futuro de Portugal. Não apenas depositar essa esperança nos partidos políticos ou no Estado como a entidade que vai resolver todos os problemas. Há políticas públicas erradas e que precisam de ser corrigidas. Há desigualdades que não têm de acontecer. Mas o que se deve exigir é que o Estado se redimensione e deixe de asfixiar a economia e a iniciativa privada e tenha condições para apoiar aqueles que precisam mesmo de apoio.

Os problemas do país não se vão resolver com a queda deste Governo, eleições e uma simples mudança de partido no poder. É preciso muito mais que isso. Não vai haver milagres. Os próximos anos vão ser muito difíceis.

Faltará, sobretudo, que cada um contribua individualmente para assegurar que os seus filhos, a próxima geração, receba mais do que esta geração recebeu. Trabalhando mais, produzindo mais, acreditando mais, lutando mais, sonhando mais, participando mais. Sendo mais um.

10 de março de 2011

...





Acordar o País

É o que isto pretende. Talvez consiga.

O Discurso do Presidente

 (...)
Diagnóstico económico e financeiro

"Os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido.
Acredito que conseguiremos ultrapassar os problemas actuais se formos capazes de dar uma resposta verdadeiramente colectiva aos desafios que temos à nossa frente, o que exige transparência e um conhecimento rigoroso e completo da situação em que nos encontramos. Como em tudo na vida, para delinearmos o melhor caminho para atingirmos o futuro que ambicionamos, temos de saber de onde partimos.

Nos últimos dez anos, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de apenas 0,7%, afastando-se dos nossos parceiros da União Europeia. Esta divergência foi ainda mais evidente no caso do Rendimento Nacional Bruto, que constitui uma medida aproximada do rendimento efectivamente retido pelos Portugueses. O Rendimento Nacional Bruto per capita, em termos reais, cresceu apenas 0,1% ao ano, reflectindo na prática uma década perdida em termos de ganhos de nível de vida.

De acordo com as últimas estimativas do Banco de Portugal, “o crescimento potencial da economia portuguesa, o qual determina a capacidade futura de reembolso do endividamento presente”, é actualmente inferior a 1% e, em 2010, o valor real do investimento ficou cerca de 25% abaixo do nível atingido em 2001.

O défice externo de Portugal tem permanecido em valores perto de 9% do produto, contribuindo, por força do pagamento de juros ao exterior, para a deterioração do saldo da balança de rendimentos, cujo défice anual, de acordo com o Banco de Portugal, se aproxima rapidamente dos 10 mil milhões de euros, privando a nossa economia de recursos fundamentais para o seu desenvolvimento.
Simultaneamente, a taxa de poupança nacional tem vindo a decair, passando de cerca de 20% do produto em 1999 para menos de 10% nos últimos dois anos.

Em 2010, o desemprego atingiu mais de 600 mil pessoas, o que contrasta com cerca de 215 mil em 2001. Nestes dez anos, a taxa de desemprego subiu de 4% para um valor de 11%.

Os dados publicados pela Comissão Europeia indicam que, em 2008, o número de residentes em Portugal que se encontravam em “risco de pobreza ou exclusão social” superava os 2 milhões e 750 mil, o que equivale a cerca de 26% da nossa população. De acordo com as informações qualitativas disponibilizadas pelas instituições que operam no terreno, esta situação ter se á agravado nos últimos dois anos.

A margem de manobra do Estado português para acudir às necessidades de crescimento da economia e para combater os problemas de natureza social encontra-se severamente limitada, como o provam os níveis da despesa pública, da dívida pública e do endividamento do Sector Empresarial do Estado, a que acrescem os encargos futuros com as parcerias público-privadas.
Também a capacidade dos agentes nacionais acederem ao crédito e de financiarem, quer as suas necessidades de capital quer o crescimento da economia, está cada vez mais dificultada. O saldo devedor da Posição de Investimento Internacional, que corresponde ao grau de endividamento líquido da economia, é superior a 100% do produto.
Os mercados continuam a limitar fortemente o recurso ao financiamento por parte do sistema bancário nacional, o que se reflecte num agravamento das restrições de acesso ao crédito por parte das famílias e das empresas e num aumento das taxas de juro.

Além disso, o financiamento do Estado continua a ser feito a taxas anormalmente elevadas, condicionando o funcionamento do sistema financeiro português e da nossa economia. É elementar perceber que, como escreve o Banco de Portugal no seu último Boletim Económico, e cito, “o actual contexto de elevados prémios de risco da dívida soberana para Portugal implica um serviço da dívida externa acrescido”. Existe, assim, um risco sério de o pagamento de juros ao exterior travar a indispensável redução do desequilíbrio externo, mesmo no caso de um comportamento positivo das exportações.
Vários outros indicadores podiam ser apresentados para confirmar que Portugal se encontra numa situação particularmente difícil."

(...)
Medidas urgentes

"Portugal está hoje submetido a uma tenaz orçamental e financeira – o orçamento apertando do lado da procura e o crédito apertando do lado da oferta. Este quadro afectará negativamente o crescimento económico e a qualidade de vida das famílias, a não ser que os responsáveis políticos, económicos e financeiros correspondam, com firmeza e sem ambiguidades, à obrigação que têm de libertar o país desta situação.

Esta é a realidade que não deve ser ignorada e que é minha obrigação deixar bem clara no início do meu segundo mandato como contributo para que a urgência de actuar seja por todos apreendida. A resolução dos problemas exige plena consciencialização da situação em que estamos. É urgente encontrar soluções, retomar o caminho certo e preparar o futuro. Esta é uma tarefa que exigirá um esforço colectivo, para o qual todos somos chamados a contribuir.

Ao Estado cabe definir com clareza as linhas estratégicas de orientação, as prioridades e os principais desígnios para o todo nacional. Estas serão referências essenciais não apenas para o sector público mas também para a iniciativa privada.
Além disso, é imperativo melhorar a qualidade das políticas públicas. Em particular, é fundamental que todas as decisões do Estado sejam devida e atempadamente avaliadas, em termos da sua eficiência económica e social, do seu impacto nas empresas e na competitividade da economia, e das suas consequências financeiras presentes e futuras. Não podemos correr o risco de prosseguir políticas públicas baseadas no instinto ou em mero voluntarismo.
Só com políticas públicas objectivas, consistentes com uma estratégia orçamental sustentável e com princípios favoráveis ao florescimento da iniciativa privada, poderemos atrair investimento para a economia portuguesa e ambicionar um crescimento compatível com as nossas necessidades. Sem crescimento económico, os custos sociais da consolidação orçamental serão insuportáveis.

Neste contexto difícil, impõe se ao Presidente da República que contribua para a definição de linhas de orientação e de rumos para a economia nacional que permitam responder às dificuldades do presente e encarar com esperança os desafios do futuro.
Em coerência com o que tenho defendido e com o que está inscrito no meu manifesto eleitoral, entendo que há princípios muito claros de orientação estratégica que Portugal deve assumir. Face à situação em que o País se encontra, há que actuar simultaneamente no domínio estrutural, visando a resolução dos desequilíbrios que têm afectado a economia portuguesa, e no domínio conjuntural, visando mitigar o impacto negativo da actual crise sobre o emprego, sobre as empresas e sobre os Portugueses mais carenciados."

Estruturais

"A nível estrutural, e como há muito venho a insistir, temos de apostar de forma inequívoca nos sectores de bens e serviços transaccionáveis. Só com um aumento da afectação de recursos para a produção competitiva conseguiremos iniciar um novo ciclo de desenvolvimento. Este é um desafio que responsabiliza, em primeiro lugar, o Estado e o sistema financeiro. De resto, é fundamental que os Portugueses assimilem, de forma convicta, a necessidade de produzir mais bens que concorram com a produção estrangeira. Um défice externo elevado e permanente é, por definição, insustentável.

Ainda no âmbito da afectação de recursos, é necessário estimular a poupança interna e travar a concessão indiscriminada de crédito, em especial para fins não produtivos e para sustentar gastos públicos. É imperioso reafectar o crédito disponível para as pequenas e médias empresas criadoras de valor económico e de emprego e para as exportações.

Em paralelo, é essencial traçar um caminho que permita o reforço da nossa competitividade e o aumento da produtividade do trabalho e do capital. A perda de competitividade da economia portuguesa é talvez o sintoma mais grave das nossas fragilidades.

Neste contexto, é crucial a realização de reformas estruturais destinadas a diminuir o peso da despesa pública, a reduzir a presença excessiva do Estado na economia e a melhorar o desempenho e a eficácia da administração pública.

Só com uma gestão rigorosa, determinada e transparente das contas públicas será possível um crescimento económico duradouro, a criação de novos e melhores empregos e a consolidação da credibilidade externa. A sustentabilidade das finanças públicas portuguesas é uma questão iniludível para a confiança dos investidores internacionais. Quando a taxa de juro da dívida pública é superior à taxa de crescimento nominal da economia aumenta a exigência em relação ao saldo primário das contas públicas.

É preciso valorizar a iniciativa empresarial e o conceito de empresa como espaço de diálogo e cooperação entre gestores e trabalhadores, captar e manter investimento de qualidade e aproveitar as vantagens comparativas de que Portugal dispõe.

É crucial aprofundar o potencial competitivo de sectores como a floresta, o mar, a cultura e o lazer, as indústrias criativas, o turismo e a agricultura, onde detemos vantagens naturais diferenciadoras. A redução do défice alimentar é um objectivo que se impõe levar muito a sério, tal como a remoção dos entraves burocráticos ao acesso da iniciativa privada à exploração económica do mar.

O futuro da economia portuguesa depende bastante da capacidade de acrescentar valor, de inovar e de incorporar mais conteúdo tecnológico nos nossos produtos. A interligação entre as empresas e os estabelecimentos de ensino superior e centros de investigação é da maior relevância.
Ainda no plano estrutural, é necessário garantir uma fiscalidade mais simples, transparente e previsível, melhorar a qualidade do investimento em formação e qualificação dos recursos humanos, assim como assegurar mais eficiência, credibilidade e rapidez no funcionamento do sistema de justiça. A justiça desempenha um papel crucial no desenvolvimento económico, como fonte de segurança e de previsibilidade, e funciona como referência para a captação de investimento internacional."

Conjunturais

Na actual situação de emergência impõem-se, também, medidas de alcance conjuntural, que permitam minorar os efeitos imediatos da crise e criar o suporte económico e social necessário às transformações estruturais. Exige-se, em particular, um esforço determinado no sentido de combater o flagelo do desemprego.
A expectativa legítima dos Portugueses é a de que todas as políticas públicas e decisões de investimento tenham em conta o seu impacto no mercado laboral, privilegiando iniciativas que criem emprego ou que permitam a defesa dos postos de trabalho.

Por outro lado, é essencial valorizar o papel das empresas e do empreendedorismo, da mesma forma que se celebra, por exemplo, o sucesso dos nossos atletas na obtenção de títulos internacionais.

É importante reconhecer as empresas e o valor por elas criado, em vez de as perseguir com uma retórica ameaçadora ou com políticas que desincentivam a iniciativa e o risco. No actual contexto, são elas que podem criar novos empregos e dar esperança a uma geração com formação ampla e diversificada e que não consegue entrar no mercado de trabalho. São as empresas que podem dinamizar as exportações e contribuir para a contenção do endividamento externo. Não podemos assistir de braços cruzados à saída de empresas do nosso País. Pelo contrário, temos que pensar seriamente no que é que podemos fazer para atrair mais empresas.

O essencial do investimento rentável e virado para os sectores transaccionáveis vem das empresas privadas. Precisamos de valorizar, em particular, quem tem vontade e coragem de inovar e de investir sem precisar dos apoios do Estado.

É especialmente decisivo atrair os jovens para a iniciativa empresarial. O empreendedorismo jovem é hoje uma realidade em desenvolvimento no nosso país que deve ser apoiada para que surjam muitos mais casos de sucesso. Portugal precisa de uma nova vaga de empreendedores. Empreendedores com autonomia do poder político, que não esperem qualquer tipo de protecção ou de favores, cidadãos empenhados na qualidade e na inovação, dispostos a assumir riscos e a competir no mercado global.

Os nossos autarcas, que saúdo nesta ocasião solene, já compreenderam que o poder local adquiriu um novo perfil, a que correspondem novas exigências.
As autarquias podem assumir um papel fulcral na valorização da iniciativa empresarial, na criação de emprego e, genericamente, na resposta às dificuldades económicas e sociais das respectivas regiões.
Para além do contributo em iniciativas de apoio aos mais carenciados, tenho constatado que existe um número crescente de autarcas que estão a reorientar as suas prioridades para o tecido produtivo e para a valorização económica das suas regiões e dos seus recursos. Este é um caminho de futuro e também aquele que poderá ter um impacto mais rápido na economia nacional.
As iniciativas locais de emprego e os investimentos de proximidade são aqueles que podem produzir resultados de forma mais imediata e que melhor podem ser avaliados, reformulados ou reproduzidos.

Urge remover os obstáculos à reabilitação urbana, cujas potencialidades de criação de emprego e de promoção turística, embora há muito reconhecidas, permanecem em larga medida desaproveitadas.

Não podemos privilegiar grandes investimentos que não temos condições de financiar, que não contribuem para o crescimento da produtividade e que têm um efeito temporário e residual na criação de emprego. Não se trata de abandonar os nossos sonhos e ambições. Trata-se de sermos realistas.
As políticas activas de emprego desempenham também um papel importante no combate ao desemprego. A concertação social tem uma responsabilidade particular na definição de políticas de rápido efeito, avaliando resultados, corrigindo erros e servindo a criação efectiva de emprego.

A inovação e a incorporação de conteúdo tecnológico nos bens que produzimos são essenciais. Contudo, não podemos deixar de ver o potencial e a importância dos chamados sectores tradicionais. As vantagens competitivas adquiridas e aprofundadas por estes sectores, bem como a experiência que já têm do mercado internacional, não podem ser desaproveitadas nem vítimas de preconceitos. Estão em causa sectores tipicamente criadores de emprego, contribuintes positivos para a nossa balança externa e que são, além disso, elementos essenciais de coesão social e territorial.

Aumentar a eficiência e a transparência do Estado e reduzir o peso da despesa pública são prioridades não apenas de natureza estrutural, mas também conjuntural.
Realismo, avaliação rigorosa das decisões, justiça na distribuição dos sacrifícios e melhoria do clima de confiança são exigências impostas pelo presente, mas que devemos também às gerações futuras. O caminho é possível, mas não será fácil nem rápido."

Esforço Colectivo com a Sociedade Cívil

"Reitero a minha convicção de que está em causa um esforço colectivo. É importante, por isso, que Governo, Assembleia da República e demais responsáveis políticos assumam uma atitude inclusiva e cooperante, que seja também factor de confiança e de motivação para os nossos cidadãos. A estabilidade política é uma condição que deve ser aproveitada para a resolução efectiva dos problemas do País. Seria desejável que o caminho a seguir fosse consubstanciado num programa estratégico de médio prazo, objecto de um alargado consenso político e social.
Espero que todos os agentes políticos e poderes do Estado e os agentes económicos e financeiros estejam à altura das dificuldades do momento e dêem sentido de futuro aos sacrifícios exigidos aos Portugueses.
Da União Europeia devemos esperar não apenas que assegure a estabilidade e a sustentabilidade da Zona Euro, mas também que desenvolva uma estratégia comum e solidária que promova o crescimento, o emprego e a coesão."

(...)
"A nossa sociedade não pode continuar adormecida perante os desafios que o futuro lhe coloca. É necessário que um sobressalto cívico faça despertar os Portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos.
O País terá muito a ganhar se os Portugueses, associados das mais diversas formas, participarem mais activamente na vida colectiva, afirmando os seus direitos e deveres de cidadania e fazendo chegar a sua voz aos decisores políticos. Este novo civismo da exigência deve construir-se, acima de tudo, como um civismo de independência face ao Estado.

Em vários sectores da vida nacional, com destaque para o mundo das empresas, emergiram nos últimos anos sinais de uma cultura altamente nociva, assente na criação de laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos, fruto, em parte, das formas de influência e de domínio que o crescimento desmesurado do peso do Estado propicia.

É uma cultura que tem de acabar. Deve ser clara a separação entre a esfera pública das decisões colectivas e a esfera privada dos interesses particulares.
Os cidadãos devem ter a consciência de que é preciso mudar, pondo termo à cultura dominante nas mais diversas áreas. Eles próprios têm de mudar a sua atitude, assumindo de forma activa e determinada um compromisso de futuro que traga de novo a esperança às gerações mais novas.

É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido e perceberem claramente que só uma grande mobilização da sociedade civil permitirá garantir um rumo de futuro para a legítima ambição de nos aproximarmos do nível de desenvolvimento dos países mais avançados da União Europeia.

Esta é uma tarefa de todos, cada um tem de assumir as suas próprias responsabilidades. É essencial que exista uma união de esforços, em que cada português se sinta parte de um todo mais vasto e realize o quinhão que lhe cabe."

A família e as pessoas sobretudo os jovens

"Necessitamos de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.
A pessoa humana tem de estar no centro da acção política. Os Portugueses não são uma estatística abstracta. Os Portugueses são pessoas que querem trabalhar, que aspiram a uma vida melhor para si e para os seus filhos. Numa República social e inclusiva, há que dar voz aos que não têm voz.

No momento que atravessamos, em que à crise económica e social se associa uma profunda crise de valores, há que salientar o papel absolutamente nuclear da família. A família é um espaço essencial de realização da pessoa humana e, em tempos difíceis, constitui o último refúgio e amparo com que muitos cidadãos podem contar. A família é o elemento agregador fundamental da sociedade portuguesa e, como tal, deve existir uma política activa de família que apoie a natalidade, que proteja as crianças e garanta o seu desenvolvimento, que combata a discriminação dos idosos, que aprofunde os elos entre gerações.

O exercício de funções públicas deve ser prestigiado pelos melhores, o que exige que as nomeações para os cargos dirigentes da Administração sejam pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas.

A coesão entre as gerações representa um importante activo de que Portugal ainda dispõe. Os jovens não podem ver o seu futuro adiado devido a opções erradas tomadas no presente. É nosso dever impedir que aos jovens seja deixada uma pesada herança, feita de dívidas, de encargos futuros, de desemprego ou de investimento improdutivo.

O exemplo que temos de dar às gerações mais novas é o exemplo de uma cultura onde o mérito, a competência, o trabalho e a ética de serviço público sejam valorizados. Entre as novas gerações, Portugal dispõe de recursos humanos altamente qualificados. Se nada fizermos, os nossos melhores jovens irão fixar-se no estrangeiro, processo que, aliás, já começa a tornar-se visível.

É fundamental que a sociedade portuguesa seja despertada para a necessidade de um novo modo de acção política que consiga atrair os jovens e os cidadãos mais qualificados. O afastamento dos jovens em relação à actividade política não significa desinteresse pelos destinos do País; o que acontece, isso sim, é que muitos jovens não se revêem na actual forma de fazer política nem confiam que, a manter-se o actual estado de coisas, Portugal seja um espaço capaz de realizar as suas legítimas ambições. Precisamos de gestos fortes que permitam recuperar a confiança dos jovens nos governantes e nas instituições.

Seria extremamente positivo que os jovens se assumissem como protagonistas da mudança, participando de forma construtiva, e que as instituições da nossa democracia manifestassem abertura para receber o seu contributo. A geração mais jovem deve ser vista como parte da solução dos nossos problemas.
Numa sociedade que valoriza o mérito, a educação é o elemento-chave da mobilidade social. Aqueles que dispõem de menores recursos, mas que revelem méritos e capacidades, têm de ser apoiados, para que não se aprofundem situações intoleráveis de desigualdade entre os Portugueses.
Temos de despertar toda a sociedade para a importância do investimento na excelência da nossa educação. Todos os estabelecimentos de ensino que se destaquem pelos seus resultados têm de merecer o reconhecimento da sociedade e do Estado. Só assim se cumprirá o ideal de premiar o mérito que norteou a nossa República centenária."

(...)
Temos jovens talentosos que ombreiam com os melhores do mundo, em inovação empresarial, em qualidade académica e científica, em criatividade artística e cultural. Há uma nova geração que ganha sucessivos prémios nas mais diversas áreas da investigação, que assume papéis de liderança nos mais variados projectos, que participa com grande entusiasmo e admirável generosidade em acções de voluntariado social ou nas campanhas de defesa do ambiente.

Os nossos jovens movem-se hoje à escala planetária com uma facilidade que nos surpreende. Cidadãos do mundo, familiarizados com as novas tecnologias e a sociedade em rede, dispõem de um capital de conhecimento e de uma vontade de inovação que são admiráveis. 

Muitos dos académicos, investigadores, profissionais de sucesso e jovens empresários que trabalham no estrangeiro aspiram a regressar ao seu país, desde que possuam condições para aqui fazerem florescer as suas capacidades. Temos de aproveitar o enorme potencial desta nova geração e é nela que deposito a esperança de um Portugal melhor.
Foi especialmente a pensar nos jovens que decidi recandidatar-me à Presidência da República. A eles dediquei a vitória que os Portugueses me deram. Agora, no momento em que tomo posse como Presidente da República, faço um vibrante apelo aos jovens de Portugal: ajudem o vosso País!

Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo. Mostrem a todos que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna. Mostrem às outras gerações que não se acomodam nem se resignam.
Sonhem mais alto, acreditem na esperança de um tempo melhor. Acreditem em Portugal, porque esta é a vossa terra. É aqui que temos de construir um País à altura das nossas ambições. Estou certo de que, todos juntos, iremos vencer."


Este Discurso de Tomada de Posse do Presidente da República,
que tomei a liberdade de subdividir, sublinhar e retirar algumas partes,
é um Discurso de Presidente.
É o melhor discurso de Cavaco Silva, que me lembre,
apesar de pecar por muito tardio.
O diagnóstico, que abrange 10 anos,
é quase perfeito, as soluções adequadas, a esperança equilibrada.
Tem força e tem alma.
Não se percebe porque houve reacções como as de Francisco Assis e até de José Sócrates, que cometeu uma gaffe inaceitável, inimaginável num país evoluído, ao se atrasar no cumprimento ao Chefe de Estado, preferindo os holofotes e o mediatismo.
Quem, em consciência, com serenidade e isenção,
não concorda com as palavras do Presidente?
 Nem o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista,
que também não se dignaram apresentar cumprimentos.
Nada tem de instigador ou sectário.
É um discurso de alerta, mas de esperança.
Que nos diz que o caminho se faz caminhando e que ele está nas nossas mãos.
Que não podemos continuar assim.
Que o país e a alma do povo tem que vir ao de cima
e mudar o que tem de ser mudado.
Senti esperança.
E, até, emoção.
Finalmente!!

9 de março de 2011

Зоркий-4




Sair do escritório e ir fotografar a vida com uma comunista soviética.

Conhecimento


Este interessante artigo da Time relata como as empresas alemãs, nos últimos anos, depois da reunificação, têm preservado a mão-de-obra qualificada, estando hoje com um nível de exportações inigualável, com uma competitividade enorme e com uma taxa de desemprego a 6,9%. Porque a Alemanha, entre outros factores, optou por não desperdiçar conhecimento.

Em Portugal, os últimos 10 anos são de estagnação económica, de taxas de crescimento limitadas, do desemprego actualmente em 11%,  de uma taxa de precariedade das mais elevadas da Europa, de uma competitividade baixíssima, de um Estado social que é uma ficção, de soluções do governo assassinas (cortes nas prestações sociais, aumento de impostos para a classe média, reduções nos salários dos funcionários públicos), de desperdício do conhecimento.

A economia portuguesa, com esta gestão política que temos há  anos, não cria empregos,  pelo contrário, faz aumentar cada vez mais os desempregados e os empregos precários. Os recibos verdes alastram, é caro manter um contratado,  à porta das empresa estão dez  jovens que aceitam trabalhar por metade do salário e assim manda-se o trabalhador antigo para o desemprego.  Corta-se na despesa. Corta-se!  E pensa-se no hoje. O hoje é que interessa. Gere-se o presente, esquece-se o futuro, perde-se o conhecimento, não se pensa na qualidade, só em cortar.

A nossa sociedade está numa espécie de beco sem saída, sem debate, sem capacidade de reacção, sem uma discussão interessada e produtiva, sem competência para melhorar o mercado de arrendamento, modernizar a legislação laboral, reformar a segurança social, mudar o modelo económico e criar emprego qualificado e competitivo. Enquanto isso, os outros (a Alemanha, mas também a Croácia, a Polónia, a Suécia) crescem, modernizam-se, trabalham, com força, determinação, conhecimento e resultados. Muitos resultados.

Talvez a manifestação de sábado seja um detonador que faça mudar qualquer coisa.

7 de março de 2011

Foi muito bom


Trabalho e Amor

O nosso emprego está muitas vezes em desacordo com a nossa felicidade e os nossos valores. Não coincidem. Não jogam.

De uma maneira geral, há duas maneiras de encarar o trabalho. A primeira vê o trabalho, principalmente, como uma forma de ganhar dinheiro. É uma visão financeira. Trabalha-se para alimentar e educar os nossos entes mais queridos. Trabalha-se esperando que o fim de semana chegue rápido e se poder desejar "um bom fim de semana" logo à 4ª feira. Os colegas não são nossos amigos. A realização pessoal, a felicidade, a motivação, a criatividade estão em segundo plano.

A outra visão do trabalho, é a visão que vê o trabalho como algo absolutamente essencial para uma vida plena e uma imprescindível auto-realização. O trabalho é importante para ganhar dinheiro, mas, mesmo que não se ganhe muito, desde que nos motive, que nos realize, tudo bem.

Claro que, ainda, há uma terceira perspectiva que não conta e que é a de que o dinheiro não interessa para nada e a realização profissional também não conta assim tanto. Dessa nem vale a pena sequer falar. É de um domínio do absurdo, da ilusão.

As duas primeiras filosofias co-existem, normalmente, mas num período de recessão como aquele que vivemos, a primeira visão ganha uma predominância inevitável. Pior que um trabalho chato, frustrante, é não ter trabalho.

Mas apesar dessa necessidade dos tempos actuais, ainda há quem pense que o mais importante no mundo do trabalho não são as longas horas que passamos nele, mesmo não tendo muito para fazer, mas a expectativa que temos de que o nosso trabalho nos deve fazer felizes, que deve estar no centro das nossas vidas e das nossas expectativas de realização.

Durante séculos, o trabalho foi visto como um burro de carga inevitável e pouco mais, algo a ser feito o mais rapidamente possível. Manter um trabalho, foi durante muito, semelhante à escravidão e negou qualquer possibilidade de grandeza. A ideia de que o trabalho pode ser divertido, talvez só tenha surgido no Renascimento e a avaliação mais optimista do trabalho como um todo, talvez só no século XVIII, a era dos grandes filósofos, como Rousseau e Diderot. E foi nessa altura, também, que as nossas ideias modernas sobre o amor e o casamento começaram a tomar forma.

De facto, há semelhanças enormes entre o amor e o trabalho. Durante séculos, tal como em relação ao trabalho, era amplamente assumido que o casamento era algo comercial, interesseiro ou, simplesmente, para assegurar a continuidade dinástica. O amor vinha em segundo plano. Mas, no século XVIII, os filósofos do amor argumentaram que se poderia casar por amor e com alguém por quem se estivesse apaixonado. E podia-se trabalhar em algo que desse dinheiro e realização pessoal.

E é hoje aceite e ansiado que tenhamos as duas coisas: casar apaixonado e ter um emprego que nos realize.

A crise económica e os tempos difíceis que vivemos, estão a introduzir uma mudança numa dessas duas variáveis: a do trabalho. O que há 10/15 anos seria impensável. Depois de tantas conquistas e de tantos novos direitos...

Resta saber se a outra variável também não mudará com o decorrer do tempo. E o que contará é casar com alguém que nos garanta subsistência, sucessão e segurança. Infelizmente, penso que, em parte, já vivemos esses tempos. Os tempos do salve-se quem puder, do recorrer a qualquer expediente, truque ou mentira para manter o status quo.

Talvez por isso seja tão bom irmos encontrando quem continua a procurar a realização profissional e o amor.

3 de março de 2011

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa


...
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha olhos tristes por profissão
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo! E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo. Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido! Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos

1 de março de 2011

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Fotografias: Fernando Guerra
Arquitectura: José Cadilhe
Área de construção: 232m2
Local: Póvoa de Varzim

I wish this was


Excelente ideia de Candy Chang, uma artista americana de arte pública, designer e "urbanista" que ambiciona cidades mais confortáveis para as pessoas.
Chang acredita, como muitos, que o espaço público pode servir melhor as pessoas que vivem, trabalham e brincam nele. E as cidades têm tantos espaços abandonados, tantos edifícios fechados, casas vazias e tanta gente a precisar de coisas, das mais simples às mais desenvolvidas... Por isso, criou este projecto - I Wish This Was - em que os cidadãos apresentam as suas ideias e que ajudou a comunidade de New Orleans a organizar-se e a partilhar objectivos comuns, desejos e necessidades: uma mercearia, uma ciclovia, um café com WiFi, um centro infantil, uma creche, um sonho.
Uma forma de manifestação, pressão e participação cívica inteligente e criativa, que provavelmente terá mais resultados do que outras, mais tradicionais, menos participadas e menos eficazes, com as quais convivemos.