26 de abril de 2011

Pedro Passos Coelho e José Sócrates

Uma das ideias que se tem procurado passar, ultimamente, é que Pedro Passos Coelho é igual a José Sócrates, igualmente contraditório e volátil, mas com a agravante de não ter experiência governativa, o que nesta altura é um risco face à dimensão dos problemas que o país enfrenta.

Há neste raciocínio dois vícios evidentes: primeiro, o argumento seria válido se a experiência passada (recorde-se de mais de 6 anos) fosse positiva e aquele que tem experiência a pudesse exibir, sem receio, como trunfo eleitoral. O que face aos inúmeros dados disponíveis, não parece acontecer. Neste aspecto, ainda se poderia argumentar que a experiência é negativa, mas seria com qualquer um, ou seja, dificilmente, face ao cenário internacional, seria possível fazer melhor. Também aqui o argumento não colhe, pois outros países, com a mesma crise internacional, não conduziram o país a uma situação perto da bancarrota, com um aumento brutal de despesa pública, um aumento gigantesco do desemprego e a um decrescimento económico e social muito acentuado. A verdade é que o país chegou a este estado, por que não foram tomadas em tempo as medidas que deviam ter sido tomadas.

O segundo vício é que, no futuro, essa experiência iria ser bem utilizada, fazendo melhor que aquele que não tem experiência, o que também dificilmente se acreditará, face aos dados disponíveis. Ter-se-ía que acreditar que quem não fez no passado, o fará agora em situação muito mais condicionada, exigente e tecnicamente mais rigorosa. Também aqui se poderia dizer que a tarefa estaria facilitada, pois o ónus das medidas exigentes recairia em terceiros (na famosa troika) e não no futuro Governo e na futura Assembleia da República. Mas também neste aspecto o argumento não colhe, pois se olharmos para a lista de candidatos a deputados e para as pessoas que têm aparecido em redor de José Sócrates, e poderão ser futuros ministeriáveis, tirando Ferro Rodrigues, poucos aparentam ter a dimensão, estatuto, experiência e perfil adequados para tão exigente tarefa. E nem será preciso recordar que entre esses elementos de José Sócrates está Ricardo Rodrigues, o deputado que roubou os gravadores a jornalistas da "Sábado", e que é alvo de um processo por crime contra a liberdade de impresa, instaurado pelo Ministério Público. Bastará referir o aparente afastamento de Luís Amado, indiscutivelmente o mais ponderado e respeitado Ministro de José Sócrates.

Na realidade, se olharmos para os quadros do Partido Socialista e dos independentes próximos, dificilmente encontraremos homens com a dimensão de Sousa Franco, Freitas do Amaral, Campos e Cunha, Daniel Bessa, ou Guilherme de Oliveira Martins, que noutras alturas estiveram com José Sócrates no Governo. O que parece ser uma realidade, é que existe uma falta de rejuvenescimento, uma ausência de empatia, de força e, até, de credibilidade, que sirvam de atracção a um novo Governo de José Sócrates. Quantos membros do actual Governo ficarão para a História com alguma medida positiva: António Serrano? Dulce Passáro? Alberto Martins? Helena André? Gabriela Canavilhas? Jorge Lacão? Santos Silva?

Assim, a evidente e assumida falta de experiência governativa de Pedro Passos Coelho, não constitui face a este cenário, à partida, um handicap, podendo, até, constituir um estímulo e um sinal de rejuvenescimento e de capacidade de atracção.

Finalmente, mesmo, aceitando a falta de experiência de Pedro Passos Coelho, dificilmente se aceitará que, no resto, os dois são iguais: ambos contraditórios e voláteis.

Pois, ainda está por provar essa similitude negativa. José Sócrates já demonstrou ao longo destes anos a facilidade que tem em se desdizer, em mentir, em se contradizer, em prometer o que sabe que não pode cumprir, em achar que é o detentor da verdade contra tudo e todos, em avançar habilidosamente no meio das dificuldades. E os resultados estão à vista. Pedro Passos Coelho ainda não.

Existe aqui uma dúvida que terá de ser esclarecida. Seja de que forma for.

24 de abril de 2011

Retábulo de Santos-O-Novo


Atribuído a Gregório Lopes 
Portugal, c. 1540
Óleo sobre madeira de carvalho
Anunciação – A 135,5 x L 113,5 cm
Adoração dos pastores – A 134,5 x L 122,5 cm
Adoração dos magos – A 134,5 x L 114 cm
Jesus no Horto – A 134 x L 111 cm
Enterro de Cristo - A 133,5 x L 121,5 cm
Ressurreição – A 132,5 x L 111,5 cm 
Mosteiro de Santos-o-Novo, Lisboa, 1911

19 de abril de 2011

Entretanto, nos Estados Unidos

Jovens em Brooklyn no dia 11 de Setembro de 2001 
(fotografia de Thomas Hoepker)

Hoje, expliquei aos meus filhos de 8 e 11 anos o que foi o 11 de Setembro de 2001, quem é Bin Laden e o que poderá ter levado áquela monstruosidade. Falei-lhes das Twin Towers, de que há muitos anos tinha jantado, uma noite, sob um céu estrelado, inesquecível, no último andar de uma das torres e que hoje as torres já não existiam e que no seu lugar está a ser construído um enorme edifício. Espectacular, seguramente. 
Inesperadamente, num momento de felicidade, falámos da guerra.
O meu filho António perguntou se não havia fotos das torres e de Bin Laden. E procurámos fotografias daqueles dias e dos protagonistas e falámos sobre a maldade, sobre o saborearmos a vida com paz e dignidade, sobre o aproveitar o momento. E acabámos por encontrar esta foto. Chocante talvez, surpreendente seguramente.
Escusado será dizer que uma fotografia, uma imagem, fixa um momento e tem uma história por de trás, por mais simples que seja. Num certo sentido conta uma história, que pode ser apenas a história que queremos ouvir ou ver. Ou uma história inesquecível. Mas seja o que for, há algo numa fotografia que pode nos levar a fazer todo o tipo de coisas, o que inclui, sorrir para uma câmara, mesmo quando estamos de frente para uma cidade em chamas. Não significa isso, necessariamente,  insensibilidade, mas talvez inconsciência, ou uma forma de sermos seduzidos pelo momento. Ou talvez não. Não sei... Mais tarde, friamente, é claro que percebemos que a reacção não devia ter sido aquela. Mas no momento, aproveitamos o momento. 
Esse é também o poder e a magia da fotografia. A de Thomas Hoepker tem um enorme poder. Que hoje ficou mais uma vez demonstrado.

O ponto de vista do fotógrafo  está aqui.

6 de abril de 2011

Resgate


No dia em que o Governo pede ajuda externa e recorre aos fundos de resgate, nada melhor que ver os instantes anteriores ao anúncio formal ao país por José Sócrates e a sua preocupação.

E, simultâneamente, lembrar dois textos de Nuno Garoupa, um economista, professor de Direito da Universidade de Illinois.

Eles traduzem exactamente o que penso da situação do nosso país e do futuro que nos espera.

"Um País Sem Saída"

A nossa classe dirigente - os comentadores, os influentes, isto é, o "establishment" - preferiu seguir um caminho mais arriscado que nos levou até aqui. Falta de visão, falta de coragem, falta de sentido de Estado. O calendário das presidenciais, a necessidade do PS e do primeiro-ministro de tempo para vitimizar-se e "defender Portugal", a consolidação da nova liderança do PSD, os interesses económicos da banca e dos grandes grupos que vivem à sombra do Estado, tudo foi mais importante. Agora estamos onde estamos, no abismo. E curiosamente toda essa gente que nos empurrou nesta direcção continua por aí, sem assumir a responsabilidade de quem, no mínimo, não soube entender onde Portugal estava metido.


"Não há Inocentes!"

Enquanto o Primeiro Ministro achar que ainda lhe resta uma última oportunidade eleitoral, vamos cavar o buraco mais e mais. Enquanto o PS achar que se pode manter no poder, ninguém no partido vai abrir a boca para perguntar onde está o tal Estado social que dizem defender.
 

M.uita C.lasse


5 de abril de 2011

Metro do Porto - o privilégio do local




(fotografias de Fernando Guerra e Sergio Guerra)


Estas imagens do Metro do Porto, desenhado por Eduardo Souto de Moura, vencedor recente do Pritzker Prize, levantam uma questão:

- O país pode ter um sistema de transportes assim, com os custos que tiveram muitas estações do Metro do Porto?

Independentemente da qualidade da obra, indiscutível, da sua necessidade e procura, e do privilégio  que é ter um arquitecto fantástico a projectar para o país em vez de um estrangeiro (vide Museu dos Coches),  o que parece certo é que o país não suporta este luxo. Os materiais, os projectos, os custos, podiam e deviam ser muito diferentes. Muito inferiores. Os objectivos a prosseguir ficariam igualmente satisfeitos e alcançados com muito mais simplicidade e pragmatismo. Com muito menos deslumbramento. Não há necessidade. O mesmo se diga relativamente às intervenções que foram feitas nalgumas escolas através do Parque Escolar.

E não chegaríamos á situação vergonhosa de o endividamento da empresa do Metro do Porto ser sete vezes maior do que as receitas e a dívida global ascender a 17 mil e 600 milhões de euros, precisando urgentemente de quase 300 milhões de euros de financiamento. E não ouviriamos o presidente da empresa dizer com ar candido que esta situação financeira é causada pelo facto de se ter avançado com um projecto sem se pensar que era preciso pagá-lo e ouvir o Governo dizer que a culpa é mas é do chumbo do PEC4.

Com este espirito e esta forma de actuar é difícil ter rigor. Ter futuro.

 Aqui está um interessante artigo
a propósito de Eduardo Souto Moura

"Heroínas dos tsunamis"



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Gostei imenso deste texto de Nuno Crato

"Não há registo de algo semelhante se ter passado no maremoto que há semanas devastou o Japão; mas quando o tsunami de Dezembro de 2004 varreu as costas do Índico, houve uma jovem de 10 anos que salvou centenas de pessoas. Chamava-se Tilly Smith, tinha vindo de Oxshott, nos arredores de Londres e estava numa praia da Tailândia, em férias com os pais. Viu o mar esvaziar-se e os barcos agitarem-se nas águas, que se afundavam. Percebeu, pelo que tinha aprendido na escola, que esse movimento prenunciava o avanço de uma onda gigantesca. Avisou os pais, avisou todos os que estavam próximos e fê-los recuar a zona segura. Salvou muitas vidas. (...)"

Indiscreet

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4 de abril de 2011

Spreads


Fórmula de cálculo : ic + ip = p + c
  • ic corresponde às taxas de juro das operações activas, relativas às operações de crédito concedidas pelos bancos; 
  • ip corresponde às taxas de juro das operações passivas  
  • p corresponde à taxa esperada de créditos não reembolsáveis  
  • c corresponde ao custo de financiamento (com uma margem que garanta o lucro)

Mudanças na Europa

Este fim de semana, soube-se que, em Espanha, Zapatero não se vai recandidatar. É o fim de um ciclo.

Na Alemanha, os Verdes impuseram há semanas à chanceler Merkel uma derrota no poderoso Lander de Baden - Württemberg,  a somar às derrotas na Renânia do Norte.
Em França, também há semanas, nas eleições regionais, o partido de Sarkozi obteve metade dos votos do PSF, com a extrema-direita a atingir cotações eleitorais que chegaram a 40% nalguns casos.

Por cá, é o que se sabe.

A Europa parece cansada de alguns dos seus lideres e das suas políticas, o que equivalerá a prazo a uma mudança na liderança da Europa. 
É cedo para perceber se estes sinais se reflectirão nas políticas europeias pensadas para consolidar a zona euro, mas talvez seja altura de repensar o modelo e fazer alguns ajustamentos. 

Sem demagogias e populismos.

3 de abril de 2011

Intelligentsia

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O futuro do SNS

No rebuliço dos últimos tempos, passou um pouco despercebida esta medida.

O contrato de parceria (protocolo não é a figura jurídica correcta) que foi celebrado entre o Ministério da Saúde e a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) é a forma adequada, que deve ser prosseguida, para que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) garanta eficazmente o acesso dos doentes aos cuidados de saúde. O que não significa, apenas, prestar directamente os serviços, mas também contratar com outras redes de cuidados de saúde – privadas e sociais – a prestação dos serviços, através de contratos que definam, com rigor, as condições em que os cuidados são prestados. 

Através da parceria ora estabelecida será possível garantir melhor a não descriminação dos cidadãos mais desfavorecidos em relação aos outros, cuja situação económica lhes permite recorrer à medicina privada, quando os serviços públicos não estão, por qualquer razão, acessíveis, rentabilizando ainda a capacidade de serviços de saúde que está muito subaproveitada. 

Recorrer às misericórdias e a outras entidades é o caminho certo para o SNS do século XXI.  Deixar  de prestar serviços absolutamente necessários, com consequências muitas vezes dramáticas, porque deve ser o Estado, no conceito mais público do termo a cumprir,  através de um modelo de SNS  caduco, directamente a prestação de cuidados de saúde, é um absurdo.

Por isso, este contrato é uma excelente notícia.

1 de abril de 2011

Dia quente, Paço frio




13h00
dia de Primavera, lindo, sol imenso, vontade de esplanar,
 Terreiro do Paço com pouca gente, nenhum verde, nenhuma água,
uma única esplanada nova, uma única loja nova.

Fez-me impressão.
O desenho é bonito, os materiais caros,
mas falta alma, vida, calor, cor, ao novo Terreiro do Paço. 

Talvez precise de tempo.
Mas já passou tanto.