27 de dezembro de 2012

Estamo

A Estamo foi uma empresa criada pelo Estado, detida exclusivamente pelo Estado, a quem o Estado vendia imóveis que por sua vez o Estado, por interposta Estamo, vendia ao próprio Estado e a particulares. 
 
A Estamo era conhecida, falada, publicitada no site do Ministério das Finanças com uma das empresas credoras do Estado e durante anos desenvolveu a sua atividade à vista de todos e por todos "consentida" devido à necessidade de criar artificialmente receita e esconder despesa pública, retirando-a do perímetro orçamental.
O Tribunal de Contas durante anos nada disse... Disse agora. Ainda bem. Mais vale tarde que nunca. 
Embora, sinceramente, me pareça que mais do que um exemplo de rigor agora finalmente existente, seja uma uma posição "para inglês ver" (ou troika ver...) por completamente tardia e inconsequente.
O muito que a Estamo fez, está feito. E não tem retorno. Nem responsáveis. Nem culpados.

Acordo ortográfico

Diário da República, 2.ª série - N.º 198 - 12 de Outubro de 2012

26 de dezembro de 2012

Nós merecemos!



O episódio do homem das Nações Unidas que espantou o país, numa altura do ano em que esquecemos tanta coisa e procuramos acreditar em tanta coisa, é revelador do país em que nos tornámos e não deve ser esquecido.

Um país em que os jornalistas não confirmam as "fontes" e se alegram com todo aquele que opina contra, em que a instrução conduz ao desemprego, em que ser Dr. ou Eng. é a arma do provinciano vaidoso, um país de entrevistadores que preferem fazer-se ouvir, um país de tantos e tantos analistas políticos fazedores de opinião, um país em que os processos judiciais se arrastam anos e anos beneficiando quem não devem, um país em que a inveja passou a ser o principal atributo de um povo.

Surgir  um homem que com tudo goza, que convence sem esforço e encanta dizendo o óbvio e o que outros já disseram, não deixa de demonstrar aquilo em que nos tornámos.

Invocar o nome das Nações Unidas, em vez da União Europeia, não deixa de reforçar esse estado, pois demonstra que é mais convincente, é melhor atributo, ser de uma em vez de outra. Talvez porque da União Europeia ouçamos tantos e tantos falarem e falarem.

O mundo do parecer tem neste homem um exemplo perfeito. A pose, a forma de falar, a opinião redonda, a critica fácil, é o que todos os dias vemos ou parece que vemos.

Porquê, então, tanto espanto? Sinceramente, nós merecemos este homem.

26 de novembro de 2012

Medo



Na entrevista que Henrique Cymerman - correspondente da SIC em Israel - concede esta semana à Notícias TV,  pode ler-se: " Tenho medo de voltar a ter medo". 
 
A frase é dita considerando o actual momento que se  vive em Israel, em que há acções militares intensas e de imprevisíveis consequências com a Palestina.
 
Por razões completamente diferentes, nomeadamente, pela pressão psicológica que alastra na sociedade, fruto de diversas circunstâncias como a crise, a falta de emprego, a falta de valores, a colocação em lugares chave de pessoas impreparadas, que abalam a confiança e prejudicam o Estado, vive-se em Portugal um sentimento generalizado de insegurança que provoca medo. Não da guerra. Mas medo de não conseguir resistir e prosseguir. 
 
Há muita falta de emprego. As reformas, depois de uma vida de trabalho, estão postas em causa, há empresas a fechar, lojas que não conseguem aguentar o peso do aumento dos impostos e da recessão no consumo. Jovens a sair do país em busca do futuro. Falta de ética nas relações humanas e laborais.
 
Por tudo isto, há cada vez mais angústia, mais pressão e mais medo. Medo do que pode acontecer, medo de ter medo.
 
Mas tal como  Henrique Cymerman, que optou por estudar e viver em Israel desde os 16 anos, apesar de ter nascido no Porto e ter raízes judaicas de um pai português e de uma mãe espanhola, também em Portugal se consegue ultrapassar o medo, a saudade, o fado. E com determinação, confiança, muito trabalho e muita coragem, passam-se cabos bojadores, tornado-os da boa esperança.




26 de outubro de 2012

Identidade Nacional


"O que na nossa raça perdura é a contradição. É um amor impossível com o que foi e o que não quer que se repita. Hábil, certo, elementar, é este recriar nas brumas, iludindo a agressão, esperando sem desejar; tendo esperança sem planos, coragem sem abismos, causa sem ordem, influência sem poder, alma sem cruz. Renasce já em cinzas, mas renasce sempre".

Agustina Bessa-Luís, "A Renascença Portuguesa", Diário Popular, 14-11-68

22 de outubro de 2012

Just so


Direito


Esta notícia não deixa de ser surpreendente.  
Pelo que representa o escritório em causa, por quem é liderado, pelo tipo de clientes e pela advocacia que pratica. E, claro, pelo percurso profissional e pelo pensamento público conhecido do novo consultor.

12 de outubro de 2012

A outra margem




Há mais de 15 anos, numa noite memorável, descobri Trastevere e as suas ruas estreitas, pavimentadas de pequenos paralelepípedos, cercadas por casas medievais, com um charme muito especial.

Trastevere é a XIII região de Roma, situada na margem ocidental do rio Tibre, a sul do Vaticano. O nome vem do latim trans Tiberim, que significa "além do Tibre" e é simbolizada tradicionalmente pelo seu brasão, que contém um leão cujo significado é desconhecido. Durante o período régio de Roma (753-509 a.C.), Trastevere pertencia aos etruscos, hostis aos romanos. Roma conquistou-a para poder ter acesso ao rio pelos dois lados, tendo passado a ser parte integrante de Roma no governo de Aureliano (270–275 d.C.).

O bairro tem uma irresistível vida noturna, com bares e restaurantes e também uma intensa vida cultural. Existem várias instituições internacionais com pólos, o que faz com que haja sempre imensa gente jovem e animada de múltiplos países. Este seu carácter único atraiu aos longo dos tempos diversos artistas e celebridades como Sergio Leone ou Ennio Morricone que aí estudaram.

Lembrei-me de Trastevere porque há dias fui de barco até Cacilhas para um almoço no restaurante Ponto Final. A distância entre as duas margens não é comparável aquela de Roma, mas imagino sempre aqueles armazéns abandonados de Cacilhas ocupados com ateliers de artistas, jovens designers, arquitetos, instalações de arte, um pólo museológico, um cinema ao ar livre com Lisboa ao fundo.

Os tempos não estão para grandes revoluções urbanísticas, nem para grandes investimentos, mas mesmo assim e porque o impulso de idealizar, planear, sonhar é incontrolável e incontornável da nossa maneira de ser, que sempre que olho para a outra margem a vejo demasiado distante.

1 de outubro de 2012

Erros


Há dias, Vasco Pulido Valente escreveu no Público numa das suas crónicas:

Mas quem me explica a mim por que misteriosa razão a Gulbenkian (que é uma das fundações mais ricas da Europa) recebeu do Estado, entre 2008 e 2010, 13.483 milhões de euros? E quem me dá uma justificação aceitável do facto inaceitável de a Gulbenkian continuar a ser uma "fundação pública de direito privado", em vez de ser, numa sociedade democrática, simplesmente uma fundação de direito privado, quando com o estatuto que tem agora o governo pode, quando quiser, "designar ou destituir a maioria dos titulares dos órgãos de administração"?

Acontece que a Fundação Calouste Gulbenkian é uma fundação privada de utilidade pública e de acordo com o esclarecimento que a fundação tornou público não recebeu do Estado a quantia referida.

Os dois erros são graves e, ainda mais graves, vindos do VPV que pela sua exposição pública, passado e formação tinha obrigação de saber o que é uma fundação de Direito privado. Mas pior ainda é, depois do esclarecimento, "meter os pés pelas mãos" na sua retratação pública.

Cansa tanto azedume.

17 de setembro de 2012

um mero contributo em relação à TSU

existe alguma solução alternativa à proposta pelo Governo que permita diminuir o ónus de quem trabalha, sem retirar o benefício às empresas que mais necessitam da redução da TSU?
A resposta é ... sim: mantendo o benefício para as empresas que concorrem nos mercados externos ou que no mercado interno podem substituir importações; mas para as empresas que não precisam deste benefício, e como forma de compensar o Estado, criar-se-ia um imposto extraordinário que abrangeria os sectores que reconhecidamente não carecem da redução da TSU: distribuição de energia eléctrica, distribuição de combustíveis, rede eléctrica e telecomunicações.
Alargar-se-ia, assim, a outros sectores fortemente apoiados um imposto extraordinário que já foi aplicado em 2011 e 2012 ao sector bancário.
Com esta solução, a carga sobre os trabalhadores poderia ser reduzida de 7% para 3 ou 3,5%.

12 de setembro de 2012

A minha esplanada


Uma das minhas esplanadas favoritas em Lisboa é no Parque Eduardo VII. Gosto da calma, da localização, da arquitectura, idealizada por Keil do Amaral. Nos últimos anos, por muitas razões, que não são difíceis de compreender, está (quase) totalmente ao abandono. O restaurante que serve de apoio é muito pouco atractivo, o ambiente é decadente, os chapéus de sol com publicidade variada, o lago sujo, o piso levantado, as plantas por cuidar. Incúria, esquecimento, incompetência, falta de dinheiro e de capacidade, são seguramente as razões para tal estado. Como em tantos outros exemplos, quem decide gosta mais de fazer de novo, do que de recuperar. Prefere construir a reconstruir. Talvez por isso, um pouco mais acima, no Jardim Amália Rodrigues, existe uma esplanada moderna, um ambiente sofisticado, equipamentos de vanguarda, caros e "de autor".A incapacidade financeira é explicação para muitas opções, mas nem sempre é a determinante. A falta de dinheiro cada vez nos acompanha mais no dia a dia, provocando situações a que nem sempre estamos preparados para enfrentar, mas muitas vezes o que falta mesmo é vontade.

Na esplanada do Parque, num recente final de tarde de agosto, depois de ter pedido, como habitualmente, um Ginger Ale com limão e duas pedras de gelo, de ter sentido o momento, observado os cisnes e folheado uma revista, aconteceu algo que não acontecia há muito, provavelmente desde os tempos de estudante, em que partilhava uma garrafa de leite com chocolate com uma antiga namorada: verifiquei que não tinha dinheiro suficiente para pagar a despesa. Procurei 1,20€ na carteira, por todos os bolsos e não tinha mais do que 80 cêntimos. Propus pagar com cartão multibanco, mas não era possível. Foram segundos complicados. Mas, com simpatia, o empregado aceitou apenas o dinheiro disponível dizendo que o resto era por "conta dele". Agradeci e comprometi-me na próxima oportunidade a pagar o que faltava.

Um feliz exemplo de falta de dinheiro, compensada por uma demonstração de educação e vontade. O que nem sempre acontece. Mas que acaba por constituir mais uma razão (embora não fosse necessária) para preferir a minha esplanada, e mais um pretexto para voltar lá muito em breve. É sempre bom voltar aos locais de que temos boas memórias e que nos tratam bem. Mesmo quando existem adversidades.


27 de agosto de 2012

Lua cheia



Nadar no mar em noite de lua cheia. Nadar com a lua cheia. Noite muito quente de agosto, água tépida, salgada, provocadora. Algo que não experimentava há muito. Uma sensação fantástica, intrigante, sensual. O contraste de odores, a indefinição de temperaturas, o mistério da luz na escuridão, o receio que algo aconteça. Um prazer inesperado. Uma vontade imensa que a lua nos transforme.

24 de agosto de 2012

O diabo anda à solta

Hoje é  Dia de São Bartolomeu, que foi um dos apóstolos de Jesus Cristo. 

Bartolomeu, também chamado Natanael, foi um dos doze primeiros apóstolos de Jesus. É assim descrito nos evangelhos de João, Mateus, Marcos e Lucas, e também nos Atos dos Apóstolos. Bartolomeu nasceu em Caná, na Galiléia, uma pequena aldeia a catorze quilómetros de Nazaré. E teve o privilégio de estar ao lado de Jesus durante quase toda a sua vida. Morreu a 24 de agosto de forma bárbara e cruel.

São Bartolomeu é o padroeiro dos padeiros, dos alfaiates e dos sapateiros e nalguns lugares, como no Brasil acredita-se que hoje o diabo anda à solta.

O Dia de São Bartolomeu é celebrado no dia de sua morte, mas é também a data de um dos maiores assassinatos de protestantes pelos católicos, em Paris, em 1572, que ficou conhecido como o Massacre da Noite de São Bartolomeu. Foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes pelos reis franceses católicos, que durou vários meses, vitimando entre 30 mil e 100 mil protestantes franceses.

Há uns anos vivi num condomínio que se chamava Jardins de S. Bartolomeu. Não foi uma boa experiência e tinha tudo para o ser. As razões para essa má experiência são mais ou menos evidentes, embora não o fossem na altura. Mas hoje são naturalmente muito evidentes.



22 de agosto de 2012

MC

A Mercearia Criativa está a fazer 10.000 "fans" no facebook. Depois de há uns meses, ter sido considerada, por uma revista de referência, a melhor mercearia do país, atingir um número com 5 algarismos numa rede social, é motivo de orgulho e razão para olhar o futuro cada vez com mais responsabilidade.

Estes dois anos e quatro meses, para além do reconhecimento geral e do sucesso financeiro, têm sido uma inesquecível experiência de vida. A MC (como gosto de chamar) tem permitido conhecer pessoas que nunca mais se esquecerá, pessoas a quem ficaremos ligados para sempre, e, claro, outras que tentaremos não encontrar. Tem havido algumas desilusões, poucas tristezas, muitas alegrias e uma enorme aprendizagem.

Gerir o nosso próprio negócio, numa área que não dominamos, numa situação de crise geral, num país burocrático e com uma gigantesca carga fiscal, é um desafio extremamente enriquecedor. Consegue-se perceber que gerir com essas condicionantes é um gigantesco estímulo profissional e pessoal. E sentimos que existem pessoas, por esse país fora, que sonham, que fazem o que gostam, que lutam por aquilo em que acreditam, que tentam contrariar o fado, que dão a volta por cima.

É emocionante verificar que há hoje, pouco tempo passado desde que iniciámos este sonho de anos, vários novos projetos que, tal como o nosso, apostam na pequena produção nacional, artesanal, biológica e sustentável e na divulgação das nossas iguarias. É emocionante ver abrir novas mercearias. O que parecia ser uma miragem há pouco mais de dois anos.

Lutar por aquilo em que se acredita é uma prática de vida para muitos. Algo com o qual não se consegue deixar de viver. Algo que nos acompanha ao longo da vida. Mas ver as coisas negativas (ou menos boas...) pelo lado positivo nem sempre é fácil. É, aliás, muitas vezes, muito difícil.

E será ainda mais para alguém com fortes convicções, bastante auto estima, uma dose acentuada de teimosia e (relativamente) consistentes valores de justiça e equidade. É difícil. Também isso nos foi passado por esta experiência inesquecível. Também isso retivemos deste projeto. Também isso consciencializámos ao longo deste caminho. Gerir com emoção, com paixão, é positivo. Gerir emocionalmente pode por vezes dificultar-nos a vida e levar-nos para o lado escuro. Mesmo quando a razão, a verdade e a luz estão connosco. Dos muitos ensinamentos que a MC tem proporcionado este é aquele que pode marcar a diferença.

Só falta agora aplicar na prática aquilo que é tão evidente no plano dos valores. Só falta agora conseguir ver com mais regularidade o lado positivo da vida.

20 de agosto de 2012

Escoural


Saindo de Alcácer do Sal em direção a Montemor-o-Novo, encontra-se, a meio caminho, perto de umas famosas grutas, Santiago do Escoural. Na rua principal, estão dois lugares de culto: Pãezinhos Doces, uma padaria com bolos típicos e o restaurante Manuel Azinheirinha.

Manuel Azinheirinha, antigo empregado do famoso Fialho, de Évora, atende com simpatia e à vontade. A cozinha é da responsabilidade da mulher, Maria Rosa.

São 2 e meia da tarde de um domingo de agosto muito quente e, naturalmente, muito lento. Na mesa estão empadas de galinha pequenas, salada de ovas, carapauzinhos de escabeche (deliciosos) e pombo de escabeche. Ainda se encomenda uns ovos de codorniz mexidos com presunto e espargos (perfeitos) e umas bochechas de porco preto assadas com migas de espargos. Os vinhos são da região: Plancel, branco e Templo, tinto, ambos sugeridos pelo dono da casa. Termina-se à hora do lanche com doces conventuais: morgado, manjar de príncipe e sericaia.

Um excelente almoço no Alentejo profundo que faz desejar um regresso rápido.

17 de agosto de 2012

Acordo...


"Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão. 
E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia. 
Eram dez horas da noite."

Camillo Castello Branco, Scenas da Foz, 2.ª ed., Porto, Em casa de Cruz Coutinho, 1860
The Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco (53)
 

13 de agosto de 2012

O poço da morte

Todos os anos, desde há uns 10 anos, por esta altura, penso na antiga Feira Popular de Lisboa.

Não era um lugar requintado, com o é o Tivoli de Copenhague, era, ao invés, um espaço simples, popular, desorganizado, onde uma certa Lisboa convivia, sobretudo no verão. Faz parte das minhas recordações ir com os meus pais e depois com amigos comer sardinhas e febras e beber sangria, depois de uma volta no "comboio fantasma", uma paragem no "poço da morte" e umas batidas nos "carrinhos de choque".

Era evidente para todos que "aquela" Feira Popular não tinha grande futuro económico e que era preciso encontrar um novo modelo de parque de diversão, mais ajustado à realidade, mas o que existe hoje naquele local estratégico da cidade não dá para perceber.

Devido a negócios falhados, imbróglios jurídicos, estratégias políticas e bastante incompetência, aquele lugar é hoje um espaço onde o nada está murado por cartazes publicitários de eventos a realizar noutros locais. E ano após ano, tudo se mantém igual. Na mesma letargia tão irritante.

Nos últimos meses a cidade tem tido vitórias importantes, que têm permitido relançar António Costa como o "fantasma" de António José Seguro. Desde o novo PDM, passando pelos terrenos do aeroporto, pelo "novo" Terreiro do Paço, pelo projecto para o Marquês de Pombal, pelo prolongamento do metropolitano para o aeroporto, projectos que se arrastavam há muitos e muitos anos. Mas a situação da antiga Feira Popular de Lisboa ameaça ser o poço da morte da cidade e dos seus cidadãos. Os tempos são complexos, propícios à tristeza e ao fado e a existência de um local popular de convívio da cidade mostra-se essencial. O que lá está, naquele local, não é nada.

9 de agosto de 2012

Bacalhau Dourado

" Coze-se 500 gr de bacalhau demolhado. Deixa-se arrefecer e retiram-se as peles e as espinhas. Reserva-se. Frita-se 1 kg de batata palha em óleo bem quente. Bate-se 10 ovos e tempera-se com sal e pimenta. Leva-se ao lume uma frigideira anti aderente e deixa-se aquecer. Cobre-se o fundo da frigideira com azeite, junta-se o bacalhau e com a ajuda de uma espátula desfaz-se o bacalhau. Junta-se a batata palha, que foi frita anteriormente, envolve-se a batata e o bacalhau em fogo médio. Coloca-se o fogão no máximo e junta-se os ovos batidos mexendo sempre energicamente com a ajuda de uma espátula ou garfo de cozinha. Serve-se rapidamente polvilhado com salsa picada e azeitonas pretas."


Desde sempre, alguns dias das férias de verão, têm sido passados fora do país.
Nos últimos 12 anos tem sido em Itália, mas durante anos, os da minha infância e juventude, foi Espanha o destino. Uma das memórias mais positivas das viagens de fim de julho, principio de agosto, era a paragem obrigatória, todos os anos, na Pousada de Santa Luzia em Elvas para comer o delicioso bacalhau dourado. Cremoso, com batata estaladiça, crocante, era um Bacalhau à Braz muito particular, único. O melhor.

 
Há dias, por razões gastronomicamente sigilosas, ao procurar a receita desse bacalhau, deparei com a notícia do encerramento, por dificuldades financeiras, em março, da Pousada de Elvas, desde há anos pertencente ao Grupo Pestana. Aparentemente, o último ano em que tinha apresentado saldo positivo nas contas remontava a “2005”, sendo que no ano seguinte, em 2006, a unidade hoteleira apresentava um saldo negativo na ordem dos “7 mil euros”, em 2009 de “203 mil euros” e em 2010 de “170 mil euros”.
 
Não fazia ideia que a pousada tinha fechado, há anos que não passo por Elvas, nem tenho elementos para aferir das razões para a situação financeira que levou ao encerramento, sem ser a conjuntura em que o país vive. Mas não deixa de fazer impressão que uma unidade charmosa naquela zona, com 6 quartos e a possibilidade de um excelente restaurante, não tenha outra solução que não o encerramento. Custa a aceitar que seja um projecto sem viabilidade. Que o mega projecto turístico para o Alqueva de José Roquete, assente no financiamento bancário e nesta altura sem possibilidade de apresentação de garantias credíveis, seja abandonado, não me espanta. Mas uma pequena unidade com este potencial, tenho dificuldade.

Resta a receita. E as memórias das paragens anuais na Pousada de Elvas para saborear o Bacalhau Dourado.

7 de agosto de 2012

Clarisse

Clarisse Cruz. 
Quem viu há dias a sua prova de qualificação para a final nos 3 mil metros obstáculos, não pode ter deixado de sentir uma enorme emoção e um grande orgulho. Ainda durante os primeiros mil metros, caiu ao passar um obstáculo. Mas levantou-se, olhou em frente e continuou. Continuou com uma garra e uma força impressionantes. E ao cortar a meta, não só conseguiu apurar-se para a final, como bateu o record nacional na distância e, claro, o seu próprio!
Clarisse trabalha na Câmara Municipal de Ovar, treina em horário pós-laboral, conseguiu o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres quase em cima do acontecimento, mas deu uma enorme lição a todos nós. Foi verdadeiramente olímpica.
Na final, foi 11ª.
Um exemplo a seguir por todos. Cair, levantar-se, olhar em frente, continuar e conseguir.

4 de agosto de 2012

Um bom presságio


As férias são uma excelente altura para ler aqueles livros que, durante o ano, por qualquer razão, não foi possível.
E através deles poder viajar, conhecer, descobrir, encontrar, provar novos sabores, esquecer velhas angustias, planear futuros desafios. 
Este ano, a escolha foi surpreendentemente - pois foi feita uns minutos antes de fechar a mala - entusiasmante, encaixando na perfeição nos sentimentos e nos factos em vivência. Livros sobre dedicação, ambição, concretização, desilusão, amor, sentidos, viagens, distância, passos... muitos, poucos, os necessários.

O que não deixa de ser um presságio. Seguramente, um bom presságio.

31 de julho de 2012

PPP's

Este relatório das PPP's é assustador!!

Mas ajuda a compreender como o nosso país chegou ao estado a que chegou. Ajuda a perceber, o deslumbramento com uma solução teoricamente muito interessante e que quando aplicada, poderia ser a solução para muitos projectos, mas que foi utilizada sem cuidado, sem mérito, sem vergonha.

Como é que tudo isto escapou ao Parlamento, ao Presidente da República, ao Tribunal de Contas, é algo que não se entende.

Quem celebrou alguns dos contratos destas PPP's devia, muito provavelmente, estar Preso, ou sendo Prudente nas Palavras, ser Processado pelo Estado, ou, no mínimo, sujeito a um inquérito no Parlamento. 

La notte

29 de julho de 2012

Sonhar todas as noites

Andar à noite na praia, descalço.
Correr ao nascer do sol, ouvindo K.C & The Sunshine Band.
Saborear tártaro de salmão, depois de salpicado com gotas de limão.
Engolir o daiquiri do Guido, de uma vez só.
Mergulhar no mar, esquecendo tudo.
Dançar Dean Martin, cantando "Arrivedeci Roma".
Abraçar a Constança sem respirar... Beijar o António respirando muito e muito...
Rir sem conseguir parar, contagiado pela tua gargalhada.
Ver o dia terminar deitado na praia, com o sal na pele.
Comer robalo ao sal, com vinho branco a 9' de temperatura (aquele Sauvignon Blanc).
Rever "Aventura é Aventura", em VHS.
Comer conchanata, na melhor geladaria do mundo.
Sonhar todas as noites.

22 de março de 2012

Pátria


Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.



Sophia de Melo Breyner Andresen

6 de março de 2012

Malabaristas

Passeio pelo Chiado. São 13h00. O tempo está óptimo. Um sol de Março único.
Na Rua do Carmo, uns malabaristas de mau aspecto  fazem umas habilidades sem grande sucesso  Pedem uma moedinha. Mais à frente, um mendigo com um cão triste pede também. 
A Livraria Portugal fechou. A Ourivesaria Aliança também. Na Rua Garrett há agora um Vitaminas, onde era a Alfaitaria Piccadilly.
A calçada está esburacada. Fazem-se cargas e descargas para a Zara, onde em tempos foi o Eduardo Martins.
Em frente à Escola Superior de Dança um vulto dorme envolto em jornais e caixas de cartão. 
Junto à Brasileira um cauteleiro lê o jornal abstraído.
O David e David é agora uma loja da SISLEY sem qualquer nível.
Ouvem-se os sinos de uma das igrejas.
No Largo do Barão de Quintela amontua-se uma lixeira junto a 3 vidrões ainda existentes. Há graffitis por todo o lado.
Desço a pé pela Calçada da Glória. A maioria dos edifícios está em mau estado, muitos estão abandonados e vandalizados. Os dois elevadores estão repletos de frases sem nexo. Cheira mal.
Sento-me numa das esplanadas da Avenida, estou só. Numa mesa mais à frente um casal bebe dois cafés e um sumo num copo de plástico. Leio no Público que o Presidente da Câmara assinou um protocolo o ano passado, com o desconhecimento  da oposição, com a Estamo, uma imobiliária de capitais exclusivamente públicos, que permite a aprovação de dez grandes projectos imobiliários, parte dos quais aquela empresa não conseguiu viabilizar no passado
E por momentos relembro que ainda há poucos dias a Câmara de Lisboa tinha aprovado, com o voto decisivo da CDU, um pedido de informação prévia da Fundação EDP para construir um centro cultural em Belém, apesar de o projecto violar o Plano Director Municipal (PDM), tal como já havia acontecido com a reconversão, pelo Banco de Portugal, da Igreja de S. Julião em Museu da Moeda, obra que não respeitava o projecto aprovado pela autarquia. 

O dia continua cheio de sol apesar de tudo.

28 de fevereiro de 2012

Envelhecimento Activo

Os Censos de 2011 mostram que existem em Portugal 2,023 milhões de pessoas com 65 ou mais anos, o que corresponde a cerca de 19 por cento da população total, um número que aumentou cerca de 19% em dez anos.

Existe uma medicina mais eficaz, melhor habitação, melhor qualidade de vida, maior esperança de vida. Por isso, a tendência é que a população idosa continue a crescer.

No entanto, todos os dias ouvimos noticias de idosos que são encontrados sem vida em casa, conhecemos casos de idosos que são esquecidos pelos seus familiares em lares, hospitais e até mesmo em casa, entregues a si próprios, abandonados. E cada vez mais, também, surgem medidas legislativas que, procurando corrigir situações de acumulações de vencimentos, impedem aqueles com mais experiência, de continuar activos no mercado de trabalho depois de reformados.

Um dos maiores desafios que se põe actualmente à sociedade é contribuir para que as pessoas envelheçam com melhor qualidade, pois os Idosos são úteis, capazes e fazem falta à sociedade.

Uma verdade que muitas sociedades modernas se têm encarregado de negar, promovendo uma ideia negativa em relação à velhice, associando-a  a incapacidade, doença, inutilidade, incompetência, e privilegiando valores como a novidade, a inovação, a mudança, e associando-os sempre à juventude. Porque são os jovens que, à partida, têm mais energia, mais vitalidade, mais facilidade com a informática e as novas tecnologias, são mais interessados no conhecimento, na actualidade.

Mas nem sempre é assim. Em muitos casos, tudo isso existe também naqueles com mais idade, mais experiência, mais vida vivida. Porque não uma avó de portátil Ferrari, blog, vontade de viajar, de conhecer, de saber, de apreender? A energia e vitalidade não são exclusivos da juventude e podem co-existir com o saber acumulado e a experiência da vida dos mais velhos...

A ideia de que o futuro depende dos jovens - o que é, obviamente, verdade - desvaloriza as pessoas mais velhas remetendo-as para pessoas improdutivas que estão a mais, que não são necessárias, olhadas como um fardo social e económico, esquecendo-nos que os jovens de hoje serão os velhos de amanhã e que passarão pela mesma discriminação se, entretanto, não formos capazes de mudar a forma como encaramos o envelhecimento.

2012 é o Ano Europeu do Envelhecimento Activo. Envelhecer com qualidade, significa não apenas viver mais anos com saúde, mas também significa uma participação activa e positiva na sociedade.

Há muito trabalho a fazer para que se alterem certas atitudes discriminatórias e estigmatizantes em relação às pessoas idosas e é preciso que haja vontade política para valorizar o trabalho dos mais velhos, aceitando a aprendizagem ao longo da vida como um activo e encontrando formas que permitam a quem tem saúde e saber poder trabalhar e ser útil à sociedade por mais tempo. A Fundação C. Gulbenkian fará um conjunto de conferências com os melhores especialistas mundiais que seguramente trarão mais luz a este tema.

Mas este é um dos maiores desafios, não apenas da sociedade contemporânea, mas de cada um de nós.

6 de fevereiro de 2012

Fogo!!!!

Ficámos a saber em Fevereiro de 2012, uns escassos 9 meses após a assinatura do acordo com a chamada troika, que o actual lider do Partido Socialista não se revê no acordo, havendo muitos aspectos e obrigações para Portugal com as quais não concorda. E exemplifica com o caso do compromisso de venda da REN.
E surgem as perplexidades:
  • Será que Seguro desconhece a situação em que se encontrava o País, de cócoras e sem dinheiro para pagar salários na administração pública?
  • Será que, apesar desses aspectos, de que discorda, Seguro conseguiria não assinar o acordo?
  • O que pensarão desta opinião Silva Pereira, Vieira da Silva, Carlos Zorrinho, Alberto Martins, Gabriela Canavilhas, Pedro Marques, Helena André, Paulo Campos, António Serrano, António Braga?  É que todos eles hoje são deputados e estiveram no ultimo Governo, que fechou o resgate com a troika, e tal como António José Seguro, candidataram-se a eleições sem criticar a venda da REN.
Por mais que não se queira, há certas coisas que vão acontecendo neste País, que de tão loucas, é impossível não comentar. E ainda se fala no direito adquirido de gozar o Carnaval???

Fogo!!!!

24 de janeiro de 2012

Frederico II

Frederico II da Prússia.
1743, óleo sobre tela, 234 x 161 cm 
Hermitage, São Petersburgo, Rússia  
Quadro de Antoine Pesne (1683-1757) que é um dos poucos para os quais o rei da Prússia consentiu pousar



O mais célebre rei prussiano, Frederico II, nasceu a 24 de janeiro de 1712 em Berlim e morreu em Potsdam, a 17 de agosto  de 1786. Os seus súbditos alcunhavam-no de Alter Fritz (o velho Fritz) de forma carinhosa e a História conferiu-lhe o cognome de "O Grande“ ou "O Único". Era filho do rei Frederico Guilherme I, foi um hábil guerreiro e um grande administrador, tendo contribuido em muito para criar a grandeza da Prússia. 

Conhecido como um amante da música, arte e literatura francesa, culto, grande colecionador de arte francesa, escritor. Deixou memórias em francês. Conseguiu sintetizar as tradições da Prússia e o espírito das luzes. Homem de Estado mas também compositor e escritor, construiu a sua própria imagem de déspota esclarecido e fez de Berlim uma das capitais das luzes. 

Amigo pessoal de Voltaire, atraiu à sua corte cientistas e escritores e mandou construir o palácio de Sans-Souci, de estilo rococó francês. A correspondência trocada entre Frederico e Voltaire ao longo de 50 anos, está marcada por uma fascinação intelectual mútua.
Frederico II centralizou o poder e elaborou um código de leis para todo o reino que eliminava legislações locais. Durante o seu reinado entrou em vigor um código do processo civil, que tornava o poder judiciário independente do executivo e foi criado o código civil, que vigorou mais de 100 anos.

Para ele, o objetivo do governo era o bem comum, a preocupação com os interesses, a felicidade e o bem estar do povo. Via no bem-estar de seus súbditos o requisito fundamental para o fortalecimento do Estado. 

Manteve um Estado forte só possível com a aliança entre a monarquia e a nobreza e também pelo facto de ter ao seu serviço um poderoso exército. Usou os novos impostos sobre o café e o tabaco para financiar a banca de Berlim.

Promoveu reformas, como a abolição da tortura (influenciado pelas críticas de Montesquieu aos métodos de interrogatório), fundou escolas elementares, desenvolveu a instrução pública e decretou a tolerância religiosa. Considerado um humanista, criou a Academia das Ciências de Berlim.

Acolheu refugiados franceses que escapavam de perseguições religiosas e que levaram para a Prússia capitais e técnicas, promovendo o desenvolvimento na agricultura, no comércio e nas manufaturas, o que aumentou as rendas do Estado. O comércio foi muito favorecido pela construção de canais e pelos tratados comerciais com a França. Procurou desenvolver ainda mais a indústria e o comércio, sem muito êxito, devido à persistência dos grandes latifúndios da nobreza e à fraqueza da burguesia prussiana.

Frederico II também foi capaz de transformar a Prússia numa potência económica, colocando-a entre as principais potências da Europa, na época.

Apesar de nunca ter abandonado o seu amor às artes, tornou-se um grande líder militar e um excelente estratega que tinha a habilidade de impedir que as forças opositoras se unissem contra ele.

Este ano, comemora-se o tricentenário do seu nascimento, e estão previstas em Berlim, várias iniciativas de homenagem a esta fascinante personagem da História

(aqui um curioso artigo)

6 de janeiro de 2012

De repente, leio e concordo








"A ética é estar à altura do que nos acontece"
# Gilles Deleuze
# 05.01.12
@ Metro - Parque
Lisboa

3 de janeiro de 2012

Boss


Fantástica série que passa actualmente na TVSeries, com o notável Kelsey Grammer no papel de um calculista mayor de Chicago, que gere como quer os seus peões e se mexe na perfeição no jogo político, com o necessário cinismo, mas que descobre que sofre de uma doença neurológica degenerativa que pode pôr em causa a sua capacidade de trabalhar e, até, de falar.

Uma série que nos recorda que, para além da actuação pública de um político, existe a sua intimidade e privacidade, mesmo que muitas vezes (como é o caso) essa privacidade seja um elemento essencial da sua intervenção política. Na realidade, a utilização da família como componente da dinâmica de credibilização pública, sendo importante, não deve ser ultrapassada. Essa fronteira é de muito difícil definição e em Boss percebe-se isso de forma magistral.