22 de março de 2012

Pátria


Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.



Sophia de Melo Breyner Andresen

6 de março de 2012

Malabaristas

Passeio pelo Chiado. São 13h00. O tempo está óptimo. Um sol de Março único.
Na Rua do Carmo, uns malabaristas de mau aspecto  fazem umas habilidades sem grande sucesso  Pedem uma moedinha. Mais à frente, um mendigo com um cão triste pede também. 
A Livraria Portugal fechou. A Ourivesaria Aliança também. Na Rua Garrett há agora um Vitaminas, onde era a Alfaitaria Piccadilly.
A calçada está esburacada. Fazem-se cargas e descargas para a Zara, onde em tempos foi o Eduardo Martins.
Em frente à Escola Superior de Dança um vulto dorme envolto em jornais e caixas de cartão. 
Junto à Brasileira um cauteleiro lê o jornal abstraído.
O David e David é agora uma loja da SISLEY sem qualquer nível.
Ouvem-se os sinos de uma das igrejas.
No Largo do Barão de Quintela amontua-se uma lixeira junto a 3 vidrões ainda existentes. Há graffitis por todo o lado.
Desço a pé pela Calçada da Glória. A maioria dos edifícios está em mau estado, muitos estão abandonados e vandalizados. Os dois elevadores estão repletos de frases sem nexo. Cheira mal.
Sento-me numa das esplanadas da Avenida, estou só. Numa mesa mais à frente um casal bebe dois cafés e um sumo num copo de plástico. Leio no Público que o Presidente da Câmara assinou um protocolo o ano passado, com o desconhecimento  da oposição, com a Estamo, uma imobiliária de capitais exclusivamente públicos, que permite a aprovação de dez grandes projectos imobiliários, parte dos quais aquela empresa não conseguiu viabilizar no passado
E por momentos relembro que ainda há poucos dias a Câmara de Lisboa tinha aprovado, com o voto decisivo da CDU, um pedido de informação prévia da Fundação EDP para construir um centro cultural em Belém, apesar de o projecto violar o Plano Director Municipal (PDM), tal como já havia acontecido com a reconversão, pelo Banco de Portugal, da Igreja de S. Julião em Museu da Moeda, obra que não respeitava o projecto aprovado pela autarquia. 

O dia continua cheio de sol apesar de tudo.