27 de agosto de 2012

Lua cheia



Nadar no mar em noite de lua cheia. Nadar com a lua cheia. Noite muito quente de agosto, água tépida, salgada, provocadora. Algo que não experimentava há muito. Uma sensação fantástica, intrigante, sensual. O contraste de odores, a indefinição de temperaturas, o mistério da luz na escuridão, o receio que algo aconteça. Um prazer inesperado. Uma vontade imensa que a lua nos transforme.

24 de agosto de 2012

O diabo anda à solta

Hoje é  Dia de São Bartolomeu, que foi um dos apóstolos de Jesus Cristo. 

Bartolomeu, também chamado Natanael, foi um dos doze primeiros apóstolos de Jesus. É assim descrito nos evangelhos de João, Mateus, Marcos e Lucas, e também nos Atos dos Apóstolos. Bartolomeu nasceu em Caná, na Galiléia, uma pequena aldeia a catorze quilómetros de Nazaré. E teve o privilégio de estar ao lado de Jesus durante quase toda a sua vida. Morreu a 24 de agosto de forma bárbara e cruel.

São Bartolomeu é o padroeiro dos padeiros, dos alfaiates e dos sapateiros e nalguns lugares, como no Brasil acredita-se que hoje o diabo anda à solta.

O Dia de São Bartolomeu é celebrado no dia de sua morte, mas é também a data de um dos maiores assassinatos de protestantes pelos católicos, em Paris, em 1572, que ficou conhecido como o Massacre da Noite de São Bartolomeu. Foi um episódio sangrento na repressão aos protestantes pelos reis franceses católicos, que durou vários meses, vitimando entre 30 mil e 100 mil protestantes franceses.

Há uns anos vivi num condomínio que se chamava Jardins de S. Bartolomeu. Não foi uma boa experiência e tinha tudo para o ser. As razões para essa má experiência são mais ou menos evidentes, embora não o fossem na altura. Mas hoje são naturalmente muito evidentes.



22 de agosto de 2012

MC

A Mercearia Criativa está a fazer 10.000 "fans" no facebook. Depois de há uns meses, ter sido considerada, por uma revista de referência, a melhor mercearia do país, atingir um número com 5 algarismos numa rede social, é motivo de orgulho e razão para olhar o futuro cada vez com mais responsabilidade.

Estes dois anos e quatro meses, para além do reconhecimento geral e do sucesso financeiro, têm sido uma inesquecível experiência de vida. A MC (como gosto de chamar) tem permitido conhecer pessoas que nunca mais se esquecerá, pessoas a quem ficaremos ligados para sempre, e, claro, outras que tentaremos não encontrar. Tem havido algumas desilusões, poucas tristezas, muitas alegrias e uma enorme aprendizagem.

Gerir o nosso próprio negócio, numa área que não dominamos, numa situação de crise geral, num país burocrático e com uma gigantesca carga fiscal, é um desafio extremamente enriquecedor. Consegue-se perceber que gerir com essas condicionantes é um gigantesco estímulo profissional e pessoal. E sentimos que existem pessoas, por esse país fora, que sonham, que fazem o que gostam, que lutam por aquilo em que acreditam, que tentam contrariar o fado, que dão a volta por cima.

É emocionante verificar que há hoje, pouco tempo passado desde que iniciámos este sonho de anos, vários novos projetos que, tal como o nosso, apostam na pequena produção nacional, artesanal, biológica e sustentável e na divulgação das nossas iguarias. É emocionante ver abrir novas mercearias. O que parecia ser uma miragem há pouco mais de dois anos.

Lutar por aquilo em que se acredita é uma prática de vida para muitos. Algo com o qual não se consegue deixar de viver. Algo que nos acompanha ao longo da vida. Mas ver as coisas negativas (ou menos boas...) pelo lado positivo nem sempre é fácil. É, aliás, muitas vezes, muito difícil.

E será ainda mais para alguém com fortes convicções, bastante auto estima, uma dose acentuada de teimosia e (relativamente) consistentes valores de justiça e equidade. É difícil. Também isso nos foi passado por esta experiência inesquecível. Também isso retivemos deste projeto. Também isso consciencializámos ao longo deste caminho. Gerir com emoção, com paixão, é positivo. Gerir emocionalmente pode por vezes dificultar-nos a vida e levar-nos para o lado escuro. Mesmo quando a razão, a verdade e a luz estão connosco. Dos muitos ensinamentos que a MC tem proporcionado este é aquele que pode marcar a diferença.

Só falta agora aplicar na prática aquilo que é tão evidente no plano dos valores. Só falta agora conseguir ver com mais regularidade o lado positivo da vida.

20 de agosto de 2012

Escoural


Saindo de Alcácer do Sal em direção a Montemor-o-Novo, encontra-se, a meio caminho, perto de umas famosas grutas, Santiago do Escoural. Na rua principal, estão dois lugares de culto: Pãezinhos Doces, uma padaria com bolos típicos e o restaurante Manuel Azinheirinha.

Manuel Azinheirinha, antigo empregado do famoso Fialho, de Évora, atende com simpatia e à vontade. A cozinha é da responsabilidade da mulher, Maria Rosa.

São 2 e meia da tarde de um domingo de agosto muito quente e, naturalmente, muito lento. Na mesa estão empadas de galinha pequenas, salada de ovas, carapauzinhos de escabeche (deliciosos) e pombo de escabeche. Ainda se encomenda uns ovos de codorniz mexidos com presunto e espargos (perfeitos) e umas bochechas de porco preto assadas com migas de espargos. Os vinhos são da região: Plancel, branco e Templo, tinto, ambos sugeridos pelo dono da casa. Termina-se à hora do lanche com doces conventuais: morgado, manjar de príncipe e sericaia.

Um excelente almoço no Alentejo profundo que faz desejar um regresso rápido.

17 de agosto de 2012

Acordo...


"Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão. 
E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia. 
Eram dez horas da noite."

Camillo Castello Branco, Scenas da Foz, 2.ª ed., Porto, Em casa de Cruz Coutinho, 1860
The Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco (53)
 

13 de agosto de 2012

O poço da morte

Todos os anos, desde há uns 10 anos, por esta altura, penso na antiga Feira Popular de Lisboa.

Não era um lugar requintado, com o é o Tivoli de Copenhague, era, ao invés, um espaço simples, popular, desorganizado, onde uma certa Lisboa convivia, sobretudo no verão. Faz parte das minhas recordações ir com os meus pais e depois com amigos comer sardinhas e febras e beber sangria, depois de uma volta no "comboio fantasma", uma paragem no "poço da morte" e umas batidas nos "carrinhos de choque".

Era evidente para todos que "aquela" Feira Popular não tinha grande futuro económico e que era preciso encontrar um novo modelo de parque de diversão, mais ajustado à realidade, mas o que existe hoje naquele local estratégico da cidade não dá para perceber.

Devido a negócios falhados, imbróglios jurídicos, estratégias políticas e bastante incompetência, aquele lugar é hoje um espaço onde o nada está murado por cartazes publicitários de eventos a realizar noutros locais. E ano após ano, tudo se mantém igual. Na mesma letargia tão irritante.

Nos últimos meses a cidade tem tido vitórias importantes, que têm permitido relançar António Costa como o "fantasma" de António José Seguro. Desde o novo PDM, passando pelos terrenos do aeroporto, pelo "novo" Terreiro do Paço, pelo projecto para o Marquês de Pombal, pelo prolongamento do metropolitano para o aeroporto, projectos que se arrastavam há muitos e muitos anos. Mas a situação da antiga Feira Popular de Lisboa ameaça ser o poço da morte da cidade e dos seus cidadãos. Os tempos são complexos, propícios à tristeza e ao fado e a existência de um local popular de convívio da cidade mostra-se essencial. O que lá está, naquele local, não é nada.

9 de agosto de 2012

Bacalhau Dourado

" Coze-se 500 gr de bacalhau demolhado. Deixa-se arrefecer e retiram-se as peles e as espinhas. Reserva-se. Frita-se 1 kg de batata palha em óleo bem quente. Bate-se 10 ovos e tempera-se com sal e pimenta. Leva-se ao lume uma frigideira anti aderente e deixa-se aquecer. Cobre-se o fundo da frigideira com azeite, junta-se o bacalhau e com a ajuda de uma espátula desfaz-se o bacalhau. Junta-se a batata palha, que foi frita anteriormente, envolve-se a batata e o bacalhau em fogo médio. Coloca-se o fogão no máximo e junta-se os ovos batidos mexendo sempre energicamente com a ajuda de uma espátula ou garfo de cozinha. Serve-se rapidamente polvilhado com salsa picada e azeitonas pretas."


Desde sempre, alguns dias das férias de verão, têm sido passados fora do país.
Nos últimos 12 anos tem sido em Itália, mas durante anos, os da minha infância e juventude, foi Espanha o destino. Uma das memórias mais positivas das viagens de fim de julho, principio de agosto, era a paragem obrigatória, todos os anos, na Pousada de Santa Luzia em Elvas para comer o delicioso bacalhau dourado. Cremoso, com batata estaladiça, crocante, era um Bacalhau à Braz muito particular, único. O melhor.

 
Há dias, por razões gastronomicamente sigilosas, ao procurar a receita desse bacalhau, deparei com a notícia do encerramento, por dificuldades financeiras, em março, da Pousada de Elvas, desde há anos pertencente ao Grupo Pestana. Aparentemente, o último ano em que tinha apresentado saldo positivo nas contas remontava a “2005”, sendo que no ano seguinte, em 2006, a unidade hoteleira apresentava um saldo negativo na ordem dos “7 mil euros”, em 2009 de “203 mil euros” e em 2010 de “170 mil euros”.
 
Não fazia ideia que a pousada tinha fechado, há anos que não passo por Elvas, nem tenho elementos para aferir das razões para a situação financeira que levou ao encerramento, sem ser a conjuntura em que o país vive. Mas não deixa de fazer impressão que uma unidade charmosa naquela zona, com 6 quartos e a possibilidade de um excelente restaurante, não tenha outra solução que não o encerramento. Custa a aceitar que seja um projecto sem viabilidade. Que o mega projecto turístico para o Alqueva de José Roquete, assente no financiamento bancário e nesta altura sem possibilidade de apresentação de garantias credíveis, seja abandonado, não me espanta. Mas uma pequena unidade com este potencial, tenho dificuldade.

Resta a receita. E as memórias das paragens anuais na Pousada de Elvas para saborear o Bacalhau Dourado.

7 de agosto de 2012

Clarisse

Clarisse Cruz. 
Quem viu há dias a sua prova de qualificação para a final nos 3 mil metros obstáculos, não pode ter deixado de sentir uma enorme emoção e um grande orgulho. Ainda durante os primeiros mil metros, caiu ao passar um obstáculo. Mas levantou-se, olhou em frente e continuou. Continuou com uma garra e uma força impressionantes. E ao cortar a meta, não só conseguiu apurar-se para a final, como bateu o record nacional na distância e, claro, o seu próprio!
Clarisse trabalha na Câmara Municipal de Ovar, treina em horário pós-laboral, conseguiu o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres quase em cima do acontecimento, mas deu uma enorme lição a todos nós. Foi verdadeiramente olímpica.
Na final, foi 11ª.
Um exemplo a seguir por todos. Cair, levantar-se, olhar em frente, continuar e conseguir.

4 de agosto de 2012

Um bom presságio


As férias são uma excelente altura para ler aqueles livros que, durante o ano, por qualquer razão, não foi possível.
E através deles poder viajar, conhecer, descobrir, encontrar, provar novos sabores, esquecer velhas angustias, planear futuros desafios. 
Este ano, a escolha foi surpreendentemente - pois foi feita uns minutos antes de fechar a mala - entusiasmante, encaixando na perfeição nos sentimentos e nos factos em vivência. Livros sobre dedicação, ambição, concretização, desilusão, amor, sentidos, viagens, distância, passos... muitos, poucos, os necessários.

O que não deixa de ser um presságio. Seguramente, um bom presságio.