31 de dezembro de 2013

Partilhar / Parceria


 “Eu já não tenho carro!” é uma expressão que se ouve cada vez mais.

Esta opção não será causada unicamente pela crise iniciada em 2008, mas também pelo declínio da chamada cultura do carro, acompanhado pelo crescimento da cultura digital, da “economia partilhada" e de um estilo de vida mais minimalista.

O que estará em curso será, provavelmente, uma mudança de cultura, de paradigma. O uso de telemóveis, a presença da internet e a chamada economia partilhada estão a afetar cada vez mais a vida nas cidades de uma forma nunca antes sentida. Os carros já não são um símbolo de liberdade ou status como eram há 20 anos atrás e as palavras de ordem são cada vez mais “Parceria” e “Partilhar”.

Nunca foi tão caro manter um carro – impostos, seguros, estacionamento, manutenção, o que permite cada vez mais serviços de partilha e aluguer de carros e bicicletas. Talvez por isso a indústria automóvel caminhe para ser mais B2B do que B2C...

Protagonistas desta mudança são já chamados “Novos Urbanistas“, um grupo demográfico que estará a alterar a cara das cidades. WiFi, vídeo vigilância, ruas mais seguras e geolocalização são aspetos essenciais para o dia-a-dia deste grupo, para o qual é impossível falar de crescimento da “economia criativa” sem falar nos transportes públicos, pois um melhor sistema de transportes resulta em trabalhadores mais felizes e satisfeitos, o que, por sua vez, deriva em criatividade e produtividade.

É uma visão holística: transportes públicos, incentivos ao empreendedorismo, imobiliário, economia partilhada: tudo tem que andar em ... coligação.

Curiosamente há países como o Brasil, a Índia e a China, em que este movimento é precisamente o inverso, devido  à emergência de uma poderosa nova classe social e de políticas para que as pessoas comprem e usem mais carros e os utilizem como símbolo de statusPor isso, será um exagero afirmar que os carros terão no curto prazo o mesmo fim que os cigarros e os refrigerantes. 

A única certeza é que o papel do automóvel está a ser cada vez mais questionado na sociedade por uma geração que já está a deixar o carro na garagem e nas concessionárias, abraçando, como pode, a economia da partilha. 

Em 2014, o tema das parcerias e das partilhas, neste ponto como em muitos outros como a cultura, a ajuda social e o emprego, será um tema que, estou certo, muito se ouvirá falar e vai ser curioso ver como respondem decisores e protagonistas.

12 de novembro de 2013

Negativas


Há 3 dias que os media e quase todos os comentadores só falam das peculiares afirmações do Ministro dos Negócios Estrangeiros, apontando um determinado nível das taxas de juro da dívida pública portuguesa como indicador de um regresso aos mercados ou da necessidade de um 2º resgate. Enfim...

Ao invés, a notícia da melhoria da apreciação da dívida portuguesa pela agência de notação financeira Moody’s de “Outlook negativo” para “Outlook estável” passou quase despercebida junto dos media e dos comentadores habituais.

Assim como a quebra da taxa de desemprego e o facto dos juros no mercado secundário da nossa dívida pública a 10 anos terem recuado dos 7%.

São notícias que valem o que valem, mas para um País que se habituou a descidas permanentes nas notações de rating, desde há mais de 3 anos, a subidas da taxa de desemprego e outras notícias negativas, estas mudanças talvez queiram dizer qualquer coisa...

11 de novembro de 2013

GOV.UK


Há dias descobri o site do governo inglês, o GOV.UK, e constatei o que depois percebi ser uma opinião unânime: o site é uma verdadeira ferramenta de aproximação entre governo e cidadãos. 

O responsável é um senhor chamado James Stewart, que é um dos mais respeitados projectistas de serviços públicos da Era Digital e ao entrar no site apercebemo-nos da diferença. É de uma enorme simplicidade, permite uma fácil navegação, é possível emitir vários documentos digitalmente e mesmo que não se saiba como funciona e é constituído o governo inglês, conseguimos obter múltipla informação.

Em 2010 a presença digital do governo britânico tinha um uso precário, baixa satisfação dos utentes, segurança deficiente, departamentos actuando como silos, duplicação de conteúdos, inconsistências na identidade visual, diversas marcas e endereços.

Uma das primeiras medidas na reformulação, iniciada em 2011, foi fazer com que os vários departamentos governamentais passassem a conversar e compartilhar dados entre si. 
Outra determinação foi o governo passar a ter um único endereço e identidade visual. O conceito foi simplificar ao máximo a presença digital do governo na web. A primeira versão foi para o ar em 2012 e hoje o GOV.UK tem 7 milhões de visitas por semana.

Uma das questões mais interessantes é que praticamente tudo que é digital no governo passou a ser acompanhado em tempo real. Em Performance é possível acompanhar como diversos serviços digitais do governo britânico estão a actuar. É uma espécie de Google Analytics do governo. Tal como
 no License Find, que permite encontrar as licenças de um estabelecimento comercial.


Ser “simples, rápido e directo” são os lemas do GOV.UK. E são 3 lemas perfeitos, que deviam ser mais seguidos.


6 de novembro de 2013

Memória


O "memorando de entendimento" (aqui publicado) assinado em maio de 2011 pelo demissionário governo socialista e subscrito pelo PSD e pelo CDS, que obrigou o país a tomar um conjunto de medidas, terminará no próximo ano.

Aceito que não seja fácil, agradável e imediata a sua leitura e percepção, mas ouve-se tanta coisa que sai fora do que está assinado, constata-se que tanta coisa continua por fazer e propõe-se tanta coisa diferente, que apetece perguntar se Governo, Presidente da República, oposição e muitos agentes políticos e sociais alguma vez o terão lido. Ou se será apenas uma questão de memória.

5 de novembro de 2013

Belém



Faltam mais de dois anos para o país escolher o substituto do professor Cavaco Silva, mas ao invés das movimentações visarem a chefia do Governo, lugar mais executivo e determinante para quem quem quer fazer Política, verifica-se antes uma agitação indisfarçável parar ocupar a Presidência da República.

O que não deixa de ser curioso. Num país, em que o Presidente não tem poderes executivos, em que é um "mero" moderador, nada faria supor que houvesse tanta vontade de ocupar esse lugar.

As interpretações serão as mais variadas. A minha, é que quem quer que seja Primeiro Ministro nos próximos 6 a 10 anos vai ter que implementar medidas tão impopulares, tão difíceis e por isso, com consequências tão fortes na sua popularidade, que se torna difícil arranjar candidatos. É um lugar pouco apetecível para quem tiver consciência, sentido de Estado e dignidade, Por maior que seja a ambição pessoal, por maior que sejam as pressões partidárias, é um cargo para "perder cabelo". Seja Seguro, Costa, Amado, César. Passos, Portas, ou Pires de Lima todos, com ligeiras diferenças, terão de fazer o mesmo.

Ao invés, a Presidência, com o quadro constitucional vigente e depois dos mandatos de vários presidentes, que à sua maneira foram dando ao cargo formas diferentes e talvez inesperadas, é um lugar mais tranquilo e não menos determinante. Menos exposto. Mas decisivo. Absolutamente decisivo.


A esquerda vai querer vingar os mandatos do único presidente vindo da direita. A direita vai querer ter um lugar que equilibre o jogo político.

Tenho a sensação que vamos ter algumas surpresas nos candidatos, para além dos "clientes" naturais e óbvios deste tipo de ocasiões, isto é, dos candidatos dos partidos disfarçados de personalidades independentes, em face do carácter "unipessoal" do cargo. E é provável que surja alguém mesmo independente.

Nesta altura, a direita parece estar à frente. Os quatro mais evidentes, de Barroso, a Marcelo, passando por Santana e Rio, têm adoptado estratégias cautelosas, de olhar para o lado fingindo nada quererem. O que é sempre positivo...

À esquerda, no entanto, nos últimos dias, dos quatro mais evidentes, dois candidatos fizeram tudo para aparecer. Sócrates em duzentas e vinte entrevistas e iniciativas e Carrilho em duzentas e vinte títulos sensacionalistas. O que contrasta coma descrição recomendável... É certo, que Costa continua sabiamente discreto e hesitante entre Belém e São Bento. Guterres, tal como os candidatos da direita, é que parece estar a melhor gerir o "desinteresse".

A dois anos de distância, Belém parece ser o destino que mais motiva os nossos políticos. O que talvez queira dizer muito da nossa política.

8 de setembro de 2013

"Eu não faço isso"


Todos sabemos que no nosso país abundam as cunhas, os pedidos, os contactos. Nisso não somos particularmente originais. Há casos muito piores.
A questão está em não assumir. Os lobbys politicos não são assumidos como noutros países. As posições sexuais, políticas, familiares, raramente são tornadas publicas.
Dir-se-à que é da nossa cultura e que são matérias que fazem parte da esfera privada e que por isso não têm de ser consideradas publicas.
Mas nem sempre isso corresponde à verdade...
Se alguém beneficiar de um emprego, de um concurso, de um prémio, de um subsidio, porque pertence a determinada organização, a um partido ou a uma familia, isso não é despiciendo.
Por isso pertencer... é cada vez mais interessante e é cada vez menos interessante revelá-lo.
Mas pior ainda, é esconder essa ligação, afirmar uma falsa isenção, apregoar uma impermeabilidade inexistente, passar a imagem de que por pretexto algum se cede à tentação.
"Eu não faço isso!" é o mote gritado para todos ouvirem, depois, rapidamente, contrariado com uma ou outra manobra discreta, às vezes por terceiros, como convém.
Isso é algo que demonstra, para além de uma imensa hipocrisia e falsidade, sobretudo uma enorme fragilidade. 
E um país frágil, um país hipócrita, um país que não enfrenta e não se assume, um país de homens e mulheres que pedem, mas fingem que não pedem, um país de homens e mulheres que não assumem que pertencem, é um país sempre mediano, sem glória e sem brilho.
Um país onde o mérito dificilmente consegue se impor por si.

25 de agosto de 2013

Cadê

(...)
Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...


Adriana Calcanhotto, Esquadros

21 de agosto de 2013

Na ausência...


Há um autor de que gosto muito, que numa das suas obras diz, a certa altura, qualquer coisa como "A maior parte das coisas que importam na nossa vida acontece na nossa ausência."

Ciclicamente ao longo da vida, lembro esta frase de Salman Rushdie. E, hoje, quando acordei com os sinos da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, voltei a pensar nela.

Quando a vida nos afasta de algo ou de alguém, quando viajamos, quando mudamos de emprego, quando, mesmo temporariamente, ficamos longe, há sempre algo que acontece. Muitas vezes são coisas boas e até muito boas, por vezes, são situações que entristecem.

As mudanças e consequentes ausências ensinam-nos que o "logo após", o "day after", revela muito, permite que a verdade emerga, que os outros se mostrem e que a luz se torne mais clara. Como quando, sendo míope, esfrego os olhos e por breves segundos pareço ver melhor.

Nos últimos dias vejo melhor. O que neste caso em concreto não sendo motivo para me sentir particularmente feliz, pois a luz revelada, a verdade vinda ao de cima, entristeceu, acaba por ser, no final, no regresso, de enorme importância para, de novo no caminho, prosseguir com mais lucidez e com mais determinação.

Talvez não fosse preciso que as coisas fossem assim e que a ausência trouxesse ao de cima somente coisas boas. Mas, não é assim...

Quem, como é o caso de  Rushdie, vive há mais de 20 anos ameaçado de morte, fugindo de um lugar para outro, ausentando-se permanentemente, sabe com toda a certeza quais as consequências da ausência. Eu tenho aprendido de forma muito mais pacífica o que ela significa, mas cada vez mais sinto que Rushdie tem razão.

5 de agosto de 2013

Em Roma ou Londres ou Paris...



Depois de não ver, até agora, nenhuma proposta com pés e cabeça dos candidatos à CML e apenas generalidades, depois de conhecer as suas equipas e de ter a leve impressão que nenhum dos principais candidatos quer mesmo ser presidente da capital do país, fico com a leve impressão que não vou conseguir votar nas eleições de setembro... Nessa altura, devo estar em Roma, ou Londres ou Paris.
Realmente, Lisboa merece muito muito melhor!

25 de julho de 2013

Silence is better than Bullshit!



O que se tem passado nas últimas horas relativamente ao novo Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros é verdadeiramente representativo do estado a que chegou a nossa comunicação social e a nossa politica.

São insinuações, referências a ligações menos claras, criticas de que foi alvo, piadas de mau gosto.

O Dr. Rui Machete foi uma das pessoas que assinou o tratado em que Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia. Esteve anos à frente da Fundação Luso Americana, foi Ministro, advogado e uma personalidade das mais conceituadas e integras da nossa sociedade.

Ter aceite, nesta altura da vida, um cargo com o desgaste e a exposição como é a de Ministro dos Negócios Estrangeiros só se justifica, como o próprio disse, pela situação do país. E o pais devia estar honrado por ainda haver quem com tão vasto prestigio e experiência aceita ser ministro.

Parte da esquerda política, alguma direita invejosa e grande parte da comunicação social foram apanhadas de surpresa. O Primeiro Ministro surpreendeu. Fez um convite a alguém com o peso do Dr. Rui Machete que em 3 horas aceitou. Alguém com um perfil indiscutivelmente diferente daquele que o antecede. E isso para os que todos os dias tentam adivinhar, analisam, supõem, é imperdoável.

Estamos cansados de maus políticos, de comentadores ex políticos, de comentadores a fazer política, de jornalistas a fazer política, de politólogos a fazer política.

Mais silêncio. Mais trabalho e produtividade. Mais isenção e rigor. Menos "Bullshit"!

19 de junho de 2013

A reunião


O tema era sobre a articulação de procedimentos entre vários serviços da Administração Pública na transposição de Diretivas Europeias.

O local, um palácio com história, uma sala com uma mesa quadrada, imensa, cadeiras imponentes, tetos trabalhados, num dos cantos, numa mesa de apoio, fotografias de personalidades que se haviam reunido, em momentos diversos, naquela sala e à àquela mesa.

Os participantes representando diversas áreas e ministérios chegaram à hora marcada, cumprimentaram-se, a maior parte já se conhecia, e os trabalhos começaram.

De repente, apercebi-me que dos 20 participantes, era eu o único homem.

Não me recordo de alguma vez ter estado com 19 mulheres numa reunião e numa sala e, deduzi depois, juristas.

A reunião foi decorrendo com muitos estados de alma à mistura, longas intervenções, muitas cautelas, pedidos de prazos mais longos para emissão de pareceres, invocação de inabaláveis experiências profissionais. Chegada a minha vez, quase no final, intervim, dizendo que os prazos apresentados eram perfeitamente aceitáveis, que a coordenação entre as várias áreas seria seguramente eficaz, recorrendo ao contacto direto e à troca de emails e que era desejável e muito positiva a realização de reuniões de coordenação e de articulação de procedimentos. Estava por isso satisfeito e optimista. Não falei mais de 2 minutos.

Quando dei por teminada e minha curta intervenção, por comparação com as das minhas colegas de reunião, a presidente da mesa, que nos recebia nas suas instalações, sorriu e perguntou se era tudo. Respondi que sim. E no momento em que acenei e acabei de pronunciar a última letra... ouviu-se um burburinho jocoso e mesmo alguns sorrisos
trocistas. Quando se fez silêncio, perguntei o porquê daquela reação.
 
A resposta veio da presidente da mesa. É que a minha intervenção era típica de um homem, uma intervenção fria, desligada, simplista e sem emoção.
 
Ao que perguntei, sorrindo, qual era a emoção que proporcionava às minhas colegas a transposição de um diretiva sobre o tamanho dos carris dos combóios ou sobre a composição das rações dadas aos animais. A reação foi ainda pior, com uma avalanche simultânea de intervenções, algumas inaudíveis.

Mantive-me o resto da reunião calado, pensando como é diferente a maneira de pensar, de trabalhar e de reagir a uma provocação das mulheres em relação aos homens e como são diferentes as suas reações quando estão em maioria. Se naquela mesa estivessem 19 homens e uma mulher, como seria diferente a reação masculina. Seguramente delicada, com algumas vénias teatrais e muitas tentativas de ser agradável à única mulher presente.

Cada vez me convenço mais que o grande mistério das mulheres reside nesta imprevisibilidade, nesta forma de lidar com os fatos do dia a dia, nesta transformação tantas e tantas vezes de algo sem qualquer possibilidade de emoção, num problema e numa questão para várias horas, dias e até meses de preocupação, desabafo, discussão e trauma. Umas vezes é sedutor, outras arrasador.
Talvez por isso as mulheres tenham tanta dificuldade em perceber o pragmatismo e até nalguns casos a frieza dos homens. E sejam uma surpresa que por vezes destrói anos de certezas.



11 de junho de 2013

...

I had become, with the approach of night, once more aware of loneliness and time - those two companions without whom no journey can yield us anything.

Lawrence Durrel

2 de junho de 2013

Amanhã é um novo dia!

Mudança! Finalmente!!

Dolorosa como todas as despedidas. Ansiosa como todas as mudanças.
Há muito adiada. Por muitas razões.
Agora, sozinho, tentando começar de novo. Com força, esperança, mas igualmente receio. Mas determinado.

Amanhã é um novo dia.

21 de maio de 2013

Caminhos

Há dias, poucos ainda, partiu alguém que, de repente, inesperadamente, quando nada o fazia prever, tinha adquirido uma importância enorme.
Tinha estado ao longo dos anos sempre presente, umas vezes com mais regularidade, outras passando muitos sem nos vermos ou sabermos sequer um do outro.
Nos últimos meses, quase diariamente nos víamos, ou falávamos, ou comunicávamos.
Teve uma vida imensa, muitas vezes solitária, por vezes fria, dura, resistente, quase sempre com muitos por perto, que ajudava de formas diferentes. Acreditava em Deus e muito no Dr. Sousa Martins com quem mantinha uma relação muito especial.
No final, partiu quase só, éramos dois na despedida, dois a acompanharem no funeral.
A vida tem nuances e caminhos surpreendentes. Este, por muitas razões, nunca vou esquecer.

24 de janeiro de 2013

Banco numa ponte de Paris


vazio, branco, frio, as luzes ao fundo
tantas e tantas vezes a própria vida.

Sacré Cœur

@fotografia do autor


Estátua do Rei Luís IX de França (1214-1270) em cujo reinado a França viveu um excepcional momento político, económico, militar e cultural, conhecido como o "o século de ouro de São Luís". 

Houve um grande desenvolvimento da justiça, passando o monarca a representar o juiz supremo. 
No seu reinado, Luís IX designou inspectores gerais, que eram considerados como funcionários públicos, criou uma comissão judicial da cúria e instituiu uma comissão de fazenda e de inspecção de contas. Proibiu os juizes, oficiais e outros emissários seus, enviados às províncias para ali exercerem justiça, de adquirir bens e empregar os seus filhos. Nomeou, acima deles, juízes para examinar a conduta dos primeiros e rever os seus julgamentos, funcionando como justiça de apelação. Para o rei ficava reservado o papel de juiz supremo.

Segundo os relatos da época, se entendia que os seus oficiais tinham agido mal, impunha em primeiro lugar uma severa penitência a si mesmo, como culpado pelo excesso praticado pelos seus representantes, e em seguida ministrava-lhes uma muito severa punição.

Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e promovia-os. 

Foi também o primeiro rei a proibir duelos, uma forma muito habitual, até então, de se conhecer o direito das partes.


11 de janeiro de 2013

Silêncio

Ontem, vi, na televisão, Eduarda Napoleão à porta do tribunal, onde está a ser julgada em mais um processo relacionado com o período em que foi vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Este é relativo ao chamado caso Bragaparques, em que são arguidos também, para além de outros, António Carmona Rodrigues e Carlos Fontão de Carvalho.

Conheço bem Eduarda Napoleão. Não privamos diariamente. Mas conhecemo-nos há mais de 20 anos na Secretaria de Estado da Cultura e mais tarde na Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalhámos juntos, muito diretamente e todos os dias, durante 6 meses, e depois, com regularidade durante mais 3 anos.

Posso dizer que é das pessoas mais sérias, honestas e cuidadosas, com que trabalhei. A área a que se dedicou incansavelmente dias e noites - o urbanismo - é a área mais complexa, difícil em termos juridico-administrativos e delicada politicamente que conheço. A pressão é insuportável. A corrupção uma sombra permanente. A defesa de interesses, muitas vezes difíceis de conciliar, é feroz, quase desumana.
Todos os que tentaram acabar com algumas práticas levadas a cabo há anos na autarquia lisboeta pagaram caro esse "desaforo".

Importa dizer, que não conheço com detalhe a operação de permuta de terrenos, nem as avaliações que foram feitas, nem os valores envolvidos na operação que dá origem a este processo criminal (não administrativo...). Mas sei, que Eduarda Napoleão nunca faria nada que fosse ilegal ou obscuro. Ou que nunca tivesse sido feito durante anos. E sei que nunca se deixaria corromper. Por ninguém.

Falo como homem e como jurista há mais de 30 anos.

Eduarda Napoleão, enquanto esteve na Câmara Municipal de Lisboa, lutou contra muitos e muitos interesses instalados, contra habilidades jurídicas, contra facilidades obscuras. Lutou cegamente.

Mas falo também como cidadão.

Os fatos deste processo de que Eduarda Napoleão é acusada remontam a 2005. Estamos em 2013. Passaram 8 anos!!!
É uma vergonha, uma desumanidade, uma desonestidade jurídica, um contrassenso ético, ter que responder por fatos ocorridos há 8 anos. Pode ser tudo, menos Justiça. Parecendo muito mais uma acusação com componentes políticas, persecutórias, perversas, vingativas e fortemente maléficas.

Muito provavelmente, noutros casos, o arrastar dos processos é benéfica. Em casos, como este, é terrível.

Sei o que Eduarda Napoleão está a passar... E sei porque, eu próprio, há vários anos, tenho sobre mim um processo, alegadamente referente a fatos praticados há muitos anos, do qual, até hoje apenas recebi dois singelos documentos: uma indicação escrita, comunicando-me que existiria um processo resultado de um inquérito movido a um serviço inteiro e um pedido para prestar declarações.

Para além do meu, existirão em resultado do mesmo inquérito, mais de 40 processos idênticos, movidos a colegas meus. Nunca recebi até hoje a acusação, desconheço formalmente os fatos de que sou acusado, pelo que, obviamente, nunca me pude defender. 

No entanto, esse "processo" tem sido alimentado por quem tem interesse na sua existência, aparecendo, através de referências indiretas e subliminares, sempre que é necessário, nomeadamente, sempre que me é apresentado um desafio profissional, um convite ou a possibilidade de uma mudança. O intuito é manchar o nome, o percurso profissional, a dignidade e "cortar as pernas para outros desafios". Algo, que lamentavelmente se vê muito no nosso país nos últimos anos...

Tem sido um processo a que ninguém tem querido verdadeiramente pôr fim.

É minha convicção, pela evolução recente, que não faltará muito para o seu desfecho (seja ele qual for...) e no dia em que terminar, para além de beijar os meus filhos, direi um pouco do que tenho guardado em silêncio dentro de mim.

Até lá, é tempo de enviar um sentido abraço à Eduarda Napoleão, rezar por ela e pelos seus, acreditar na Justiça e permanecer em silêncio. Silêncio que só decidi interromper, neste desabafo, por solidariedade a alguém que sinto que o merece e porque não ficaria bem com a minha consciência se não o fizesse.

Agora, silêncio.


8 de janeiro de 2013

Teorias



"Vive lá do outro lado. Estão aqui há quinze dias… Gente chique… E ela é de apetecer, Vossa Excelência reparou? Eu a bordo atirei-me… E ela dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas aventurazitas… Não tenho podido cá vir, deixei-lhe só bilhetes; mas trago-a debaixo de olho, que ela demora-se… Talvez cá venha amanhã, estou cá agora a sentir umas cócegas… E se me pilho só com ela, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se Vossa Excelência é a mesma coisa, mas eu cá, com mulheres, a minha teoria é esta: atracão!” 


Dâmaso Salcede para Carlos da Maia à porta do Hotel Central
in "Os Maias", Eça de Queiroz

7 de janeiro de 2013

Espirros e direitos de autor




Precisamente a 7 de janeiro de 1894, o famoso Thomas Edison e um dos seus colaboradores, o inglês William K. Dickson, criaram o primeiro filme a ser protegido legalmente nos EUA e que sobreviveu até aos nossos dias.

Feito para fins publicitários da Edison Manufacturing Company, centra-se, de acordo com a Library of Congress, num funcionário conhecido, pelos seus colegas, pelos seus cómicos espirros e piadas fáceis, de nome Fred Ott.

O filme objeto de proteção jurídica chama-se Fred Ott's Sneeze foi feito numa Kinetograph e projetado numa Kinetoscopic. Dura 5 segundos e reproduz os breves momentos após o funcionário/ator "inalar" um pouco de rapé, ou seja, tabaco em pó, muito em voga na altura, umas vezes visto como um hábito elegante, outras como vicio

Escolhas



Esther Duflo, tem 40 anos, é francesa, economista, professora no Mit, especialista em pobreza e foi convidada pelo presidente americano Barack Obama para integrar uma equipa de oito especialistas que o irão aconselhar sobre o desenvolvimento global.

Em 2010, Esther recebeu a medalha John Bates Clark, uma espécie de Nobel da Economia e surgiu no Top 100 Global Thinkers da revista Foreign Policy. Em 2011 o The Telegraph chamava-lhe "the rock-climbing professor tipped for a Nobel prize" e perguntava se seria possível ela poder mudar o mundo neste artigo.

Uma escolha arrojada, que demonstra uma enorme visão. Tão rara nos dias de hoje e ao alcance de muito poucos políticos à escala mundial. Agora, resta esperar para ver se foi, ou não, uma boa escolha e se os resultados vão aparecer. 

Mas a coragem e a visão na decisão, essas, são de destacar. Muito.

2 de janeiro de 2013

Não se perdeu nenhuma coisa em mim



Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.



Sophia de Mello Breyner Andresen