3 de outubro de 2014

À procura da Liberdade


Nas últimas décadas, os conceitos de liberdade e justiça voltaram a marcar os debates políticos contemporâneos como ideias centrais na construção das atuais sociedades. Dos vários intelectuais que têm participado nessa discussão, Amartya Sen, nascido na Índia, em 1933, é dos mais estimulantes. Infelizmente, não vai estar no CCB, hoje e amanhã, no encontro promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, apesar do excelente leque de convidados.

Crescimento económico, escolha racional, escolha social, economia do bem-estar, pobreza e desigualdade, desenvolvimento económico, capacitações, são conceitos essenciais do pensamento de Amartya Sen. Sem esquecer o “Índice de Desenvolvimento Humano” do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que foi fortemente baseado nas suas ideias.

A originalidade do seu pensamento traduz-se na tentativa de enfatizar não uma, mas todas as componentes sociais e políticas do desenvolvimento, propondo uma análise integrada das esferas económica, social e política, uma abordagem mais ampla do que a centrada no mero crescimento dos PIB e do rendimento. Um dos elementos centrais do seu pensamento é o valor absoluto da democracia na definição de desenvolvimento, entendido como um processo de expansão das liberdades políticas, facilidades económicas, oportunidades sociais, garantia de transparência, de segurança e proteção.

Para Sen, sendo o bem-estar social resultado do bem-estar individual, a ineficiência do mercado (enquanto mecanismo de resolução dos problemas sociais) reside no facto de ele operar num mundo de mutiplas instituições que precisam todas elas de democracia, de uma estrutura legal justa, de oportunidades sociais e equitativas de educação, saúde. Daí a necessidade da busca de um equilíbrio entre forças de mercado e instituições sociais através da ação política e social (políticas públicas), sem asfixiar a livre iniciativa do mercado.

Em 1999, no livro “Desenvolvimento como Liberdade”, Sen defende precisamente essa análise integrada das esferas económica, social e política para uma conceção de desenvolvimento como processo de expansão das liberdades individuais, em que a base dessas liberdades centra-se no conceito de capacidades.

No mundo moderno, velhos problemas como a fome e toda uma série de privações (incluindo das liberdades fundamentais dos indivíduos, nomeadamente das mulheres) encontram-se lado a lado com os novos problemas resultantes das alterações económicas e sociais vividas diferentemente por países ricos e pobres. Assim, apesar da generalização do regime democrático e participativo, como modelo de organização política dominante nos dias de hoje; de a questão dos direitos humanos constar das agendas dos mais diversos atores sociais; das facilidades de comunicação e do aumento da esperança de vida; muitos são ainda os problemas que os processos de desenvolvimento enfrentam e que terão de resolver – o que, na sua perspetiva, passa pela eliminação das privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercerem a sua condição de agentes.

Para combater os problemas que enfrentamos, temos de considerar a liberdade individual um compromisso social, como forma de ampliar oportunidades sociais, políticas e económicas que permitam alcançar tal objetivo. Neste sentido, a expansão da liberdade é vista como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento.

23 de setembro de 2014

Há coisas que não mudam.



As "Expos" acontecem, desde 1851, de 5 em 5 anos numa cidade do mundo, constituindo, depois do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olimpicos, o terceiro maior evento mediático à escala planetária.

A próxima Exposição (expo2015) é em Milão e o tema é muito actual e abrangente: "Nutrir o planeta, energia para a vida" e inclui tudo o que diz respeito a alimentação, do problema da falta de alimentos em algumas zonas do mundo à educação alimentar, até os temas ligados aos alimentos geneticamente modificados.

Serão apresentadas tecnologias, inovações, culturas e tradições ligadas ao setor da alimentação e, claro, muita culinária.

Naturalmente, a atenção à sustentabilidade e às energias renováveis vai marcar a arquitectura dos pavilhões, muitos já em construção.

Milão espera mais de 20 milhões de visitantes e centenas de países. Angola, Moçambique, Brasil, Espanha e mais de 100 países já confirmaram, a um ano de antecedência, a sua presença e já estão no terreno.

Por cá nada. Não há ecos da escolha do sub tema, da equipa, se há ou não há mesmo pavilhão, dos objetivos, da recolha de apoios e parceiros. Nada.

Surpreendente? Talvez não.

Infelizmente, parece ser o mesmo de sempre. Deixar para a última da hora e depois esperar que a nossa capacidade de improvisação, o desenrascanço habitual, resolva a situação. Planeamento? Não...

Realmente, há coisas que não mudam.


16 de setembro de 2014

Desilusão


O Verão foi agitado pelos debates no PS para “candidato a Primeiro-ministro”. Milhões de pessoas assistiram. Milhares inscreveram-se para poderem participar. Dezenas comentaram. Sinal de esperança, de curiosidade, de vontade. A abertura a não militantes é indiscutivelmente aliciante e demonstrativa de aparente vitalidade.

Infelizmente, os debates confirmaram a sensação que se tinha nos últimos meses e revelaram enorme fragilidade. Se sentimos que as opções políticas podem ser diferentes, se sentimos que tem de haver alternativas de escolha - elemento essencial para a vitalidade de uma democracia - a verdade é que olhamos em volta e não vemos razões para sorrir: poucas ou nenhumas novidades programáticas, inconsistência das poucas propostas apresentadas, uma desajustada postura dos dois candidatos - um com “pose de estado”, o outro a “fazer-se de morto” - os mesmos protagonistas a apoiar, os mesmos comentadores a realçar mais a forma do que o conteúdo.

Um dos candidatos defendendo como razão para se candidatar, a atual direção não ter sido capaz de impor um projeto alternativo e por isso ter de existir uma mudança de rumo e não apenas meia dúzia de novas propostas, embora acrescentando não ser possível apresentar propostas muito concretas, porque ainda falta um ano até às legislativas e muita coisa pode acontecer... O outro, dizendo que é preciso “acabar com os sacrifícios” e com “a austeridade”, mas que é essencial pôr as contas do Estado em ordem, porque o Governo não o conseguiu, e defendendo por isso um programa de mudança, um “programa de reindustrialização”... mas sem sacrificios.

Em suma, tudo parecendo ficar reduzido a meia dúzia de chavões e à "personalidade" do candidato. Cultura, capacidade de argumentação, de reação à provocação, experiência de vida, empatia, gostos pessoais, naturalidade. Ausente parece estar a visão para o país.

Fica-se com a sensação que os dois ainda não perceberam que o mundo mudou e que as propostas de há meia dúzia de anos, o discurso mais do mesmo, não cabe no mundo atual. E enfrentar essa nova realidade com propostas redondas, gastas, assentes no estilo, na forma, na personalidade, constitui uma enorme desilusão e um imenso vazio.

Hoje, a competição nos bens e serviços é imensuravelmente maior do que era há meia dúzia de anos, quer pela entrada de novos competidores menos exigentes em qualificações, quer pela ascensão das economias emergentes. A competição mundial pelos talentos e qualificações resultantes da necessidade das economias mais desenvolvidas prosseguirem o desenvolvimento da sua base de conhecimentos científicos é muito diferente de há meia dúzia de anos. Já para não falar, na alteração prolongada dos mercados energéticos, que traduzindo-se na elevação dos preços, provocou o aumento da fatura energética de países como Portugal, em que as energias renováveis prosseguem um caminho lento, afetando ainda mais a sua deficiente competitividade.

Esta realidade - e seguramente muitos outros fatores - tem feito adiar a entrada da nossa economia no padrão da efetiva modernização competitiva, como já tinha acontecido com o programa de ajustamento do seu modelo de desenvolvimento aquando da integração na União Europeia (então designada como Comunidade Económica Europeia), não aproveitando as oportunidades oferecidas pelos recursos transferidos como fundos comunitários e o alargamento do mercado de referência dentro das condições da liberdade de circulação.

E como consequência - entre muitas outras, uma preocupante - tem-se verificado a fuga acelerada dos recursos com mais valor, formados em Portugal, bem como uma crescente procura de serviços de ensino superior junto de instituições localizadas fora do País.

A economia portuguesa está pois a experimentar nos últimos anos um processo de ajustamento estrutural à dinâmica da chegada ao mercado global de milhões de novos trabalhadores das economias emergentes e não pode contar no médio prazo com uma elevação rápida da qualificação da sua mão-de-obra que lhe permita de forma generalizada evoluir para atividades em que o confronto direto com estas economias é mais circunscrito, como aconteceu com a Irlanda. E por isso o processo tem sido lento, muito lento. As expectativas são grandes, mas depois os resultados ficam áquém. Não se concretizam muitas das mudanças estruturais há muito identificadas.

A explicação para este atraso na "modernização" talvez não deva ser imputada apenas a específicos protagonistas políticos - A ou B - pois apesar das suas diferenças de estilo e de personalidade, de conhecimentos próprios e de posições políticas, quase todos acabaram por produzir a mesma distância entre o que programaram e o que acabaram por concretizar. Nem aos diversos programas de modernização da economia portuguesa, que quando observados isoladamente, têm plausibilidade e credibilidade. Nem muito menos, à sociedade portuguesa que tem revelado, em situações de crise económica aguda, como a que estamos a viver nos últimos anos, uma adequada capacidade de adaptação, pelo que se esse esforço bem sucedido em termos conjunturais não é persistente e não se prolonga no tempo, isso é mais resultado do excesso de confiança dos dirigentes e pivots políticos do que de uma incapacidade coletiva dos portugueses para consolidarem estratégias de longo prazo. A explicação parece ser mais complexa e mais profunda, a exigir uma abordagem ao mesmo nível.

A desilusão dos debates do partido alternativo ao sistema vigente, neste Verão atípico, parece confirmar o paradigma habitual: a ausência de novos protagonistas políticos corajosos, consistentes, globais, capazes de concretizar efetivamente o que planeiam. No fundo, o que tem comprometido todos os diagnósticos e todos os programas de modernização na ultima década.

22 de agosto de 2014

Claro!








Para comemorar mais um aniverário, almoço inesquecível no Claro.

Começou-se com o surpreendente bacalhau à Conde da Guarda, passou-se ao "algarvio" carapau à Lima, depois ao cachucho, caldo de lingueirão e aipo e terminou-se com a delicada farófia de côco e ginjas em calda. Tudo acompanhado de um agradável Quinta das Bágeiras 2011, branco.

Verdadeiramente soberbo. Simples, criativo, despretencioso, num local único em  excelente companhia.


21 de agosto de 2014

Dia Mundial da Fotografia








Inesquecível experiência noturna na companhia do António e a convite do Instituto Português de Fotografia. Uma noite sem dormir para ver nascer o sol, sentir a vida e relembrar o quanto Lisboa mexe connosco.

19 de julho de 2014

Uma obrigação mais forte.


Pedro Santana Lopes deu uma entrevista ao Expresso de hoje em que afirma que "arrumou o passado" e "amadureceu", diz estar bem com ele próprio e com tudo o que lhe aconteceu na vida pública e assume que seria altamente estimulante para a direita que o candidato da esquerda à Presidência da República fosse António Guterres e que este não seria "imbatível" numa futura eleição. 

Confrontado com uma declaração de há meses, em que dizia que não se podia candidatar a Belém, porque tinha que "ganhar a vida", sublinhou que a sua atividade à frente da Santa Casa da Misericórdia é essencial, mas não exclui a hipótese de sair da Santa Casa, caso surja "uma obrigação mais forte."

Não é difícil pensar a que obrigação se refere PSL. Nos últimos meses têm sido vários os sinais que indicam que essa "obrigação" é a Presidência da República.

Sou suspeito, pois trabalhei com ele varias vezes ao longo da vida e sou um fan de Santana Lopes. Da sua dinâmica, da sua coragem, da sua criatividade, da sua resistência, do seu carisma. Há poucos políticos como ele. Tem muitas e muitas qualidades que fazem dele o homem perfeito para alguns lugares políticos: para Provedor da Santa Casa da Misericórdia, para Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, para Ministro de muitas pastas e até para Primeiro Ministro. Tem muito mais carácter e dimensão que José Sócrates e este foi Primeiro Ministro durante 10 anos. 


Como todos os homens com as suas características, PSL absorve um conjunto de inimizades, anti corpos e invejas que tantas e tantas vezes se unem para abanar o "berço". O que acaba por ser injusto.

Apesar disso, nunca devia ter saído da Câmara de Lisboa e não deve interromper o seu mandato à frente da Santa Casa mesmo que a obrigação mais forte seja a Presidência da Republica. 

Se fizer isso, cometerá mais um erro. 

Um erro fatal.

14 de julho de 2014

Um final de tarde inesquecível!



Enorme desafio um movimento de cidadãos tomar a iniciativa de promover um concerto de música no espaço público de uma cidade.
Resultado final excelente superando todas as expetativas. Mais de 4.000 pessoas, muitas crianças, ambiente ótimo, música maravilhosa.

30 de junho de 2014

Em 3 anos...


Em junho 2011, António Costa dizia ser impossível acumular o cargo de secretário-geral do PS com a presidência da Câmara de Lisboa: “Não é possível acumular a liderança do PS e a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O PS precisa de um secretário-geral a tempo inteiro e o município de Lisboa de um presidente com dedicação exclusiva”.

E acrescentava: “Tenho a certeza que os meus camaradas do PS são os primeiros a compreender que honrar a confiança que em mim depositam os lisboetas, cumprir o compromisso que assumi com a cidade que me elegeu, exercer com total paixão as funções públicas que me estão confiadas, é não só meu dever, como o melhor contributo que posso dar para credibilizar a política e a prestigiar o próprio Partido Socialista”.


Ontem, segundo o jornal "i", António Costa terá dito que mesmo que vença as primárias no Partido Socialista marcadas para setembro de 2014, irá ficar à frente da Câmara de Lisboa até às eleições legislativas. Ou seja, fica na presidência do PS e da Câmara de Lisboa,

O contexto seria seguramente diferente em 2011. Mas mudou assim tanta coisa em 3 anos?...

O país precisa de um Governo corajoso e credível, de governantes dedicados e apaixonados, de políticas a longo prazo. E Lisboa precisa de ter finalmente alguém que não esteja na presidência da Câmara a pensar noutra coisa. De ser pensada e vivida a 10/15 anos.

Já chega!

6 de maio de 2014

Roberta´s







Inesquecível incursão nas profundidades de Brooklyn.

Almoço fantástico na Roberta's de Anthony Falco que além de óptimas pizzas, tem bar, padaria, galeria, uma horta que fornece produtos frescos para o próprio restaurante e ainda uma estação de rádio.

As pizzas vêm chamuscadas em forno a lenha, a cerveja, a que se quiser de uma costa a outra do Estados Unidos, é servida em potes de geleia,. O espaço é um bunker, composto por contentores, em Bushwick, Brooklyn, onde passam sobretudo camiões e motos e poucos turistas. O ambiente é confiante, relaxado e desalinhado.

A não perder!


23 de abril de 2014

Levar, doar, ler, devolver



Uma biblioteca num espaço imprevisível. Uma biblioteca como meio de partilha. Uma biblioteca enquanto desafio à cidadania. Um escape à criatividade. Uma demonstração de politica fora da politica. Um momento de vida.

8 de janeiro de 2014

CINEMA LONDRES - O SILÊNCIO





Não tendo existido qualquer publicitação ou conhecimento de que o imóvel onde durante 42 anos funcionou o Cinema Londres estaria para arrendar/vender e tendo-se sabido agora que no local vai surgir uma loja de produtos orientais, o que surpreendeu moradores e comerciantes, o Movimento de Comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, Praça de Londres e Avenida de Roma decidiu elaborar uma petição “O nosso bairro precisa de um pólo cultural!” que se encontra a recolher as assinaturas necessárias para ser apresentada aos órgãos municipais e a outras entidades públicas, no sentido de junto dos proprietários se encontrar uma solução para o nº 7-A da Avenida de Roma, freguesia do Areeiro, que em paralelo com a existência de comércio torne possível a manutenção de um pólo cultural.

[A petição está a circular em papel. Está hoje e amanhã na Livraria Barata. Depois passa para a Farmácia Algarve (mesmo ao lado do Cinema Londres) e no fim de semana para a Mercearia Criativa e Mexicana.]


Vamos encontrar uma solução!

Não podemos ficar calados.

7 de janeiro de 2014

Falta de vergonha


José Sócrates ontem na RTP ao falar de Eusébio refere que ia a caminho da escola no dia do Portugal-Coreia do Norte, Campeonato do Mundo de 1966.
O jogo foi a 23 de julho... num sábado... e às 15h00.