23 de setembro de 2014

Há coisas que não mudam.



As "Expos" acontecem, desde 1851, de 5 em 5 anos numa cidade do mundo, constituindo, depois do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olimpicos, o terceiro maior evento mediático à escala planetária.

A próxima Exposição (expo2015) é em Milão e o tema é muito actual e abrangente: "Nutrir o planeta, energia para a vida" e inclui tudo o que diz respeito a alimentação, do problema da falta de alimentos em algumas zonas do mundo à educação alimentar, até os temas ligados aos alimentos geneticamente modificados.

Serão apresentadas tecnologias, inovações, culturas e tradições ligadas ao setor da alimentação e, claro, muita culinária.

Naturalmente, a atenção à sustentabilidade e às energias renováveis vai marcar a arquitectura dos pavilhões, muitos já em construção.

Milão espera mais de 20 milhões de visitantes e centenas de países. Angola, Moçambique, Brasil, Espanha e mais de 100 países já confirmaram, a um ano de antecedência, a sua presença e já estão no terreno.

Por cá nada. Não há ecos da escolha do sub tema, da equipa, se há ou não há mesmo pavilhão, dos objetivos, da recolha de apoios e parceiros. Nada.

Surpreendente? Talvez não.

Infelizmente, parece ser o mesmo de sempre. Deixar para a última da hora e depois esperar que a nossa capacidade de improvisação, o desenrascanço habitual, resolva a situação. Planeamento? Não...

Realmente, há coisas que não mudam.


16 de setembro de 2014

Desilusão


O Verão foi agitado pelos debates no PS para “candidato a Primeiro-ministro”. Milhões de pessoas assistiram. Milhares inscreveram-se para poderem participar. Dezenas comentaram. Sinal de esperança, de curiosidade, de vontade. A abertura a não militantes é indiscutivelmente aliciante e demonstrativa de aparente vitalidade.

Infelizmente, os debates confirmaram a sensação que se tinha nos últimos meses e revelaram enorme fragilidade. Se sentimos que as opções políticas podem ser diferentes, se sentimos que tem de haver alternativas de escolha - elemento essencial para a vitalidade de uma democracia - a verdade é que olhamos em volta e não vemos razões para sorrir: poucas ou nenhumas novidades programáticas, inconsistência das poucas propostas apresentadas, uma desajustada postura dos dois candidatos - um com “pose de estado”, o outro a “fazer-se de morto” - os mesmos protagonistas a apoiar, os mesmos comentadores a realçar mais a forma do que o conteúdo.

Um dos candidatos defendendo como razão para se candidatar, a atual direção não ter sido capaz de impor um projeto alternativo e por isso ter de existir uma mudança de rumo e não apenas meia dúzia de novas propostas, embora acrescentando não ser possível apresentar propostas muito concretas, porque ainda falta um ano até às legislativas e muita coisa pode acontecer... O outro, dizendo que é preciso “acabar com os sacrifícios” e com “a austeridade”, mas que é essencial pôr as contas do Estado em ordem, porque o Governo não o conseguiu, e defendendo por isso um programa de mudança, um “programa de reindustrialização”... mas sem sacrificios.

Em suma, tudo parecendo ficar reduzido a meia dúzia de chavões e à "personalidade" do candidato. Cultura, capacidade de argumentação, de reação à provocação, experiência de vida, empatia, gostos pessoais, naturalidade. Ausente parece estar a visão para o país.

Fica-se com a sensação que os dois ainda não perceberam que o mundo mudou e que as propostas de há meia dúzia de anos, o discurso mais do mesmo, não cabe no mundo atual. E enfrentar essa nova realidade com propostas redondas, gastas, assentes no estilo, na forma, na personalidade, constitui uma enorme desilusão e um imenso vazio.

Hoje, a competição nos bens e serviços é imensuravelmente maior do que era há meia dúzia de anos, quer pela entrada de novos competidores menos exigentes em qualificações, quer pela ascensão das economias emergentes. A competição mundial pelos talentos e qualificações resultantes da necessidade das economias mais desenvolvidas prosseguirem o desenvolvimento da sua base de conhecimentos científicos é muito diferente de há meia dúzia de anos. Já para não falar, na alteração prolongada dos mercados energéticos, que traduzindo-se na elevação dos preços, provocou o aumento da fatura energética de países como Portugal, em que as energias renováveis prosseguem um caminho lento, afetando ainda mais a sua deficiente competitividade.

Esta realidade - e seguramente muitos outros fatores - tem feito adiar a entrada da nossa economia no padrão da efetiva modernização competitiva, como já tinha acontecido com o programa de ajustamento do seu modelo de desenvolvimento aquando da integração na União Europeia (então designada como Comunidade Económica Europeia), não aproveitando as oportunidades oferecidas pelos recursos transferidos como fundos comunitários e o alargamento do mercado de referência dentro das condições da liberdade de circulação.

E como consequência - entre muitas outras, uma preocupante - tem-se verificado a fuga acelerada dos recursos com mais valor, formados em Portugal, bem como uma crescente procura de serviços de ensino superior junto de instituições localizadas fora do País.

A economia portuguesa está pois a experimentar nos últimos anos um processo de ajustamento estrutural à dinâmica da chegada ao mercado global de milhões de novos trabalhadores das economias emergentes e não pode contar no médio prazo com uma elevação rápida da qualificação da sua mão-de-obra que lhe permita de forma generalizada evoluir para atividades em que o confronto direto com estas economias é mais circunscrito, como aconteceu com a Irlanda. E por isso o processo tem sido lento, muito lento. As expectativas são grandes, mas depois os resultados ficam áquém. Não se concretizam muitas das mudanças estruturais há muito identificadas.

A explicação para este atraso na "modernização" talvez não deva ser imputada apenas a específicos protagonistas políticos - A ou B - pois apesar das suas diferenças de estilo e de personalidade, de conhecimentos próprios e de posições políticas, quase todos acabaram por produzir a mesma distância entre o que programaram e o que acabaram por concretizar. Nem aos diversos programas de modernização da economia portuguesa, que quando observados isoladamente, têm plausibilidade e credibilidade. Nem muito menos, à sociedade portuguesa que tem revelado, em situações de crise económica aguda, como a que estamos a viver nos últimos anos, uma adequada capacidade de adaptação, pelo que se esse esforço bem sucedido em termos conjunturais não é persistente e não se prolonga no tempo, isso é mais resultado do excesso de confiança dos dirigentes e pivots políticos do que de uma incapacidade coletiva dos portugueses para consolidarem estratégias de longo prazo. A explicação parece ser mais complexa e mais profunda, a exigir uma abordagem ao mesmo nível.

A desilusão dos debates do partido alternativo ao sistema vigente, neste Verão atípico, parece confirmar o paradigma habitual: a ausência de novos protagonistas políticos corajosos, consistentes, globais, capazes de concretizar efetivamente o que planeiam. No fundo, o que tem comprometido todos os diagnósticos e todos os programas de modernização na ultima década.