24 de janeiro de 2016

Paixão



A vida é paixão. É o que nos move. É o motor, mesmo quando tudo parece estar contra. E faz milagres. Gosto de chamar paixão, mas podia dizer simplesmente entusiasmo, motivação, ou "pica", ou tesão. No fundo, o que gostamos na vida, o que nos move, nos faz superar obstáculos, superar-nos a nós mesmos, querer aprender, conhecer, renascer, gostar de viver.

"Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão, isso deve-se a que elas dão mais força para executar." dizia Shakespeare.

A paixão pode ser amor, pode tornar-se amor. O que é perfeito. Ideal. Maravilhoso. Quase utópico... Mas paixão pode nunca chegar a ser amor. Não é dessa combinação perfeita que, necessariamente, falo. Como não falo daquele amor especial, único, diferente de todos, como o amor por um filho em que se torna difícil dizer se há paixão, ou se é qualquer outra palavra que não sabemos escolher.

A paixão muda a nossa vida. Paixão por um trabalho, por um projecto, por um acontecimento, por querer saber mais e mais. Paixão por uma mulher, por um homem, pelo que não conhecemos, pelo desconhecido, pelo que não conseguimos explicar, pela busca de um sentido para a vida, de uma resposta, de equilíbrio.

A paixão muda os nossos próprios tempos. Umas vezes faz-nos querer superar etapas, concretizar, ver o resultado, chegar rapidamente ao que desejamos, atravessar oceanos, saber o fim do filme, outras, ao invés, dá-nos vontade de querer perder tempo, não ter pressa, não querer errar, não querer que acabe, fazer perdurar o mais possível, perpetuar o prazer. Até ao limite.

A paixão vem quando menos se espera, de onde quer vir. Podemos tentar antecipar, prever, desejar, mas não o conseguimos verdadeiramente.

A paixão e a verdade têm de coincidir. Nem sempre é assim. Mas tem de ser. Aprendemos isso com a vida. Somos como somos. E mais vale assumirmos como somos e dizermos o que somos, com as palavras que temos, do que morrermos querendo ser o que não somos, sempre à espera de mostrar que somos diferentes do que somos. Talvez por isso, é enquanto estamos vivos que temos de dizer o que nos vai na alma, de ser frontais, corajosos, verdadeiros, coerentes. De dizer quando amamos. E quando não amamos. E de vivermos com paixão.

A paixão não é um sonho. É quando estamos mais conscientes, acordados, despertos, focados, que a paixão é verdadeiramente paixão e é mais misteriosa, envolvente, surpreendente, excitante, motivante.

A paixão às vezes cega. Não nos faz ver a realidade completa. As nuances. As subtilezas onde tantas vezes tudo se decide. Aconselha por isso o bom senso e a experiência de vida que as grandes decisões não devam ser tomadas quando a paixão nos impulsiona. São mais seguras, mais ponderadas, mais amadurecidas. Não sou nesse ponto Shakespeariano.

E essa talvez seja a maior contradição da paixão. Uma miopia que, por um lado, nos faz ver além do normal, mas que por outro, desfoca e não nos permite ver com nitidez.

Apesar de tudo, apesar da força e do magnetismo da paixão, prefiro decidir sem paixão. Sobretudo, quando outras vidas, algumas umbilicais, com as quais não conseguimos viver sem, dependem dessa decisão. Quando o futuro de outros, pode estar nas nossas mãos. O que é terrível e de uma imensa responsabilidade. Nesses casos, é muito, muito, difícil decidir.

2016 vai ser um ano de muitas e importantes decisões. Algumas decorrentes da vida, do trabalho, do dia a dia, outras surpreendentes e inesperadas até há semanas. Que preferíamos não ter que tomar. Mas que têm de ser tomadas. Por razões de dignidade, respeito, verdade. O grande desafio será decidir ponderada e justamente. Mas decidir, não apaixonadamente, mas com a paixão por perto. Decidir com equilíbrio, com justiça e com ... amor.

Porque a vida é paixão, entusiasmo, motivação. Mas também compaixão, ponderação, equilíbrio.

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